Texas endurece ICE e inflama disputa pelo voto hispânico em 3/11
Operações do ICE no Vale do Rio Grande, que concentram cerca de um terço das prisões do órgão, expõem racha entre segurança de fronteira e impacto humano às vésperas da eleição de meio de mandato.

Segurança Fronteiriça
A intensificação das ações do ICE no Texas destaca o conflito entre controle migratório e questões humanitárias antes das eleições.
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Às vésperas das eleições de meio de mandato desta terça-feira (3), a pequena Capela Católica de La Lomita, no Vale do Rio Grande, virou palco de um embate que hoje domina o Texas: o endurecimento das ações do ICE na fronteira, responsável por cerca de um terço das prisões do órgão em julho, e a revolta de comunidades hispânicas que veem vizinhos trabalhadores sendo detidos e deportados.
Padre cowboy transforma sermão em protesto
A pouco mais de 180 metros do Rio Grande, o padre Roy Snipes, conhecido como Padre Cowboy pelo chapéu Stetson e o jeito informal, dedicou a missa de sexta-feira a uma crítica direta às operações do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE).
“Não há justificativa para deter, encarcerar e deportar pessoas pobres e boas que são nossos vizinhos”, disse ele à pequena congregação de cerca de 30 fiéis, em sua maioria hispânicos.
Snipes lembrou que a promessa oficial era mirar criminosos perigosos, não trabalhadores comuns. “Eles disseram que iriam procurar, capturar, deter e deportar os piores dos piores. Bem, estamos na fronteira, e o cartel é o pior dos piores. Então pensamos: isso é uma coisa boa. Mas acontece que, quase todos os dias, você ouve falar de algum coitado indo trabalhar, e eles o param, o detêm e começam uma grande confusão”, afirmou.
Ao fim da celebração, fiéis se reuniram do lado de fora da capela para desabafar. Dois educadores contaram que alunos têm faltado às aulas porque pais foram deportados nas últimas semanas. “A crueldade que estamos presenciando… acho que isso está mudando a situação, pelo menos espero que sim”, disse um deles.
Entenda o contexto
O Vale do Rio Grande é uma das regiões mais sensíveis da fronteira entre Estados Unidos e México. Sob o governo de Joe Biden, o setor registrou mais de dois milhões e meio de detenções de migrantes em um único ano, em meio à pressão por respostas à chamada “crise da fronteira”.
Na campanha presidencial seguinte, Donald Trump fez da promessa de reduzir drasticamente as travessias ilegais um dos pilares de seu discurso. As entradas caíram a níveis considerados historicamente baixos, e o endurecimento migratório ajudou a impulsionar seu desempenho entre hispânicos no Texas: ele conquistou cerca de 55% dos votos desse eleitorado no estado.
O atual ciclo, porém, expõe o custo dessa estratégia. Dados compilados pelo Deportation Data Project mostram que o Texas respondeu, sozinho, por aproximadamente um terço de todas as prisões feitas pelo ICE em julho, mais do que qualquer outro estado. Na prática, isso se traduz em batidas frequentes em cidades fronteiriças, prisões de trabalhadores sem antecedentes criminais e famílias desestruturadas.
Segurança da fronteira x deportações em massa
Em McAllen, uma das maiores cidades do Vale do Rio Grande, o prefeito republicano Javier Villalobos tenta equilibrar o apoio à segurança de fronteira com críticas ao que chama de “excessos” do ICE.
“Lembro de ter publicado um vídeo… agradecendo ao governo por ter garantido a segurança da fronteira imediatamente. Isso foi ótimo”, afirmou. Para ele, há amplo respaldo popular à retirada de criminosos violentos. “E acho que, em geral, a maioria das pessoas concorda com a deportação de criminosos, pessoas violentas ou pessoas que realmente não são produtivas.”
O ponto de ruptura, admite, está no alcance das operações. Quando pessoas produtivas e cumpridoras da lei passam a ser levadas, o apoio encolhe, e o impacto econômico aparece. Setores como a construção civil e o comércio relatam falta de mão de obra e queda de movimento em bairros hispânicos.
O relato do empresário mexicano-americano Mario Guerrero, líder da Associação de Construtores do Sul do Texas, ilustra essa tensão. Ele diz ter apoiado Trump movido pela sensação de descontrole na fronteira durante Biden. “Quando votei no presidente Trump, votei nele porque vimos um aumento na imigração durante o governo Biden. Isso precisava ser resolvido. Pensávamos que estávamos certos ao votar em Trump e que ele faria o melhor para resolver a crise na fronteira.”
Hoje, se diz chocado com os métodos. “E eu penso comigo mesmo: realmente não nos disseram a que extremos eles estavam dispostos a chegar para provar um ponto”, afirmou, citando tiroteios recentes envolvendo agentes do ICE em cidades dos EUA.
Guerrero conta o caso de um conhecido que, no ano passado, tinha 35 funcionários na obra diariamente. Agora, segundo ele, o empresário se considera com sorte quando consegue reunir de quatro a seis trabalhadores. O medo de abordagens migratórias afastou parte da equipe; outros foram detidos e deportados.
Como o endurecimento migratório pode mudar o voto hispânico?
Pesquisas recentes apontam que o apoio hispânico ao ex-presidente, elevado no auge da promessa de “controle total” da fronteira, vem encolhendo. A maioria dos eleitores hispânicos do Texas hoje desaprova o presidente e indica preferência pelos democratas na disputa desta terça-feira.
No Vale do Rio Grande, líderes locais relatam um sentimento paradoxal: o eleitor quer fronteira segura e menos travessias irregulares, mas rejeita a perseguição a quem já está estabelecido, trabalha e mantém família na região. Segurança e fiscalização da imigração, dizem, são vistas como coisas distintas.
Guerrero, que votou em Trump três vezes, é um dos que mudaram de lado. Agora, planeja apoiar candidatos democratas justamente pelo incômodo com as ações do ICE, embora se defina como nem democrata nem republicano. Analistas lembram que latinos tendem a se identificar mais como independentes do que com um partido fixo, o que aumenta a volatilidade desse eleitorado.
A mudança de humor é observada com atenção em distritos eleitorais redesenhados para favorecer republicanos após o último censo. Em um deles, no sul do Texas, os novos mapas criaram uma vantagem teórica de quase 20 pontos para o partido. Mesmo assim, levantamentos internos hoje indicam candidatos democratas alguns pontos à frente.
Para os democratas, o desgaste das operações do ICE abriu uma brecha em redutos que vinham ficando mais conservadores. A estratégia tem sido falar menos de pautas nacionais identitárias e mais de temas econômicos, como custo de vida, empregos e impacto das deportações sobre empresas locais.
Republicanos, por sua vez, tentam manter o discurso de mão firme na fronteira, mas com ênfase em “foco em criminosos”, na tentativa de se descolar das imagens de famílias separadas, salas de aula vazias e bancos de igreja esvaziados por medo da imigração.
Enquanto políticos ajustam o tom na reta final, a rotina no Vale do Rio Grande continua marcada por orações, receio de batidas migratórias e cálculos eleitorais. Na Capela de La Lomita, o padre Roy Snipes lembra aos fiéis, entre um hino e outro, que a disputa nas urnas amanhã pode definir a intensidade do aperto do ICE sobre a fronteira nos próximos anos.


