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Lançamentos de IA

Venkatesh Rao alerta: medo da IA repete erro do mercantilismo

Para engenheiro, elites tratam inteligência como recurso escasso a ser controlado. Em ensaio, ele defende acesso justo à IA e diz que tecnologia pode fazer pessoas pensarem mais, não menos.

Venkatesh Rao alerta: medo da IA repete erro do mercantilismo

Inteligência Artificial

Especialista critica visão restritiva da IA e defende democratização do acesso para potencializar o pensamento humano.

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O engenheiro Venkatesh Rao afirma que parte das elites tecnológicas e políticas está tratando a inteligência artificial como os mercantilistas tratavam o ouro: um recurso escasso, perigoso e a ser rigidamente controlado. Em ensaio publicado em seu blog “Contraptions”, ele critica a preferência por modelos de IA caros e fechados e defende que o debate público foque em acesso justo à tecnologia, não apenas na proteção de empregos ameaçados.

Rao vê mentalidade de escassez dominando debate sobre IA

No texto, Rao traça um paralelo entre o mercantilismo, quando riqueza era vista como algo fixo, baseado em terra e metais preciosos, e a forma como muitos executivos e especialistas de IA encaram a inteligência hoje. Segundo ele, essa visão alimenta o medo de sistemas abertos e serve de justificativa para manter o poder concentrado.

“Muitos especialistas veem a inteligência como um recurso escasso e perigoso que deve ser mantido caro e retido de rivais”, diz o engenheiro. Na prática, essa postura se traduz, de acordo com Rao, em resistência a modelos de código aberto e em um uso estratégico do discurso de segurança para ganhar influência política e moldar regulações em favor de grandes grupos.

Para Rao, a consequência é um freio à inovação: restringir o acesso à IA impede que mais pessoas experimentem, errem e criem novos produtos, serviços e formas de trabalho intelectual. Setores como educação, pesquisa e empreendedorismo tecnológico seriam diretamente afetados por esse fechamento.

IA como ampliação da inteligência, não substituição

O engenheiro argumenta que a inteligência artificial não precisa ser vista como substituta da capacidade humana, mas como multiplicadora. “Se você só pensa em empregos perdidos quando pensa em IA, está perdendo o quanto de inteligência as pessoas poderão usar”, afirma.

Rao defende que, ao baratear e acelerar tarefas complexas, a IA pode tornar viáveis projetos que antes eram difíceis ou caros demais. “A demanda por ideias cresceria, e as pessoas poderiam pensar mais, não menos, porque a IA torna projetos antes difíceis possíveis”, escreve.

Nessa visão, a grande mudança não seria um mundo com menos trabalho, e sim com mais trabalho intelectual de alto nível. Pessoas poderiam dedicar mais tempo a criar, planejar e experimentar, enquanto sistemas automatizados cuidam da execução pesada ou repetitiva.

Entenda o contexto

O debate acontece em meio a disputas globais sobre como regular a inteligência artificial. Grandes empresas pressionam por regras que priorizam segurança e controle, enquanto pesquisadores independentes e defensores da tecnologia aberta cobram transparência e acesso mais amplo a modelos avançados.

Ao comparar a mentalidade atual ao mercantilismo, Rao sugere que o mundo vive uma fase de transição parecida com o início do capitalismo. Naquele momento, lembra ele, as pessoas passaram de cerca de 250 para 300 dias de trabalho por ano para poder consumir novos produtos, como chá e açúcar. O esforço aumentou, mas também cresceu a variedade do que era produzido e consumido.

Para o engenheiro, algo semelhante pode ocorrer com a IA: em vez de reduzir a necessidade de esforço humano, a tecnologia pode criar novas demandas por conhecimento, serviços digitais e produtos intelectuais, expandindo o tipo de trabalho que existe.

Agentes autônomos e novos tipos de demanda

Rao vai além do uso da IA como simples ferramenta de produtividade e defende espaço para programas mais autônomos, capazes de conduzir seus próprios projetos dentro de limites bem definidos. “Agentes autônomos de IA precisam de guardrails, mas não devem apenas seguir ordens”, argumenta.

Na avaliação dele, agentes com mais autonomia poderiam, por exemplo, identificar oportunidades, testar ideias e propor soluções que humanos não teriam tempo ou condições de explorar sozinhos. Isso geraria uma espécie de ciclo virtuoso: mais inteligência disponível, mais ideias em circulação, mais demanda por trabalho criativo e analítico humano.

Esse modelo contrasta com o cenário em que a IA é usada só para cortar custos e substituir funções, especialmente em setores tradicionais de serviços e conhecimento. Rao reconhece que haverá empregos pressionados pela automação, mas considera um erro organizar toda a política pública em torno da preservação de cargos específicos.

Foco em acesso justo, não só em segurança

Ao criticar a narrativa dominante sobre riscos, Rao não nega a necessidade de regras de segurança. Ele admite que agentes autônomos devem operar com limites claros e que há riscos reais em sistemas mal projetados. O que ele contesta é o uso do medo como argumento para manter a tecnologia cara, restrita e nas mãos de poucos.

Na visão do engenheiro, o eixo da discussão deveria se deslocar para quem tem direito de usar a IA avançada e em que condições. Isso envolve desde o custo de acesso até a possibilidade de pesquisadores, pequenas empresas e instituições públicas trabalharem com modelos potentes sem depender exclusivamente dos termos impostos por grandes corporações.

As ideias de Rao tendem a polarizar o debate. Defensores de um controle mais rígido da IA devem insistir que a abertura ampla aumenta riscos de abuso e acidentes. Já pesquisadores, educadores e empreendedores que apostam na democratização tecnológica encontram no ensaio munição para cobrar modelos de governança que combinem guardrails robustos com distribuição mais equitativa da capacidade de inteligência artificial.