Governo Lula nega tabelar Selic e usar reservas cambiais hoje
Ministro da Fazenda, Dario Durigan, e o conselheiro Aloizio Mercadante negam discussão sobre tabelar a taxa Selic ou usar reservas cambiais e desmentem reunião entre Lula e André Lara Resende.

Política Econômica
Ministros esclarecem que não há planos para tabelar a Selic ou utilizar reservas cambiais no momento.
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O ministro da Fazenda, Dario Durigan, e o conselheiro Aloizio Mercadante afirmam que o governo Luiz Inácio Lula da Silva não estuda tabelar a taxa Selic nem usar reservas cambiais para controlar a saída de capitais, e negam que haja reunião marcada entre o presidente e o economista André Lara Resende, cujas propostas para os juros provocaram forte reação no mercado financeiro.
Governo nega mudança na política monetária
Durigan sustenta que, neste início de quarto mandato, não há discussão sobre intervenção direta na taxa básica de juros ou no estoque de dólares mantido pelo Banco Central. As declarações visam esfriar rumores que circularam nos últimos dias e que elevaram a tensão entre investidores.
“Vários economistas estão se colocando à disposição para dialogar com o presidente [Lula] e com o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, mas não há nada agendado. Não há agenda com o presidente Lula e o economista André Lara Resende”, disse o ministro da Fazenda.
Na prática, o recado reforça a continuidade do atual regime de política monetária, com o Banco Central mantendo a taxa Selic em 13,75% ao ano, definida por critérios técnicos pelo Comitê de Política Monetária, e sem uso extraordinário das reservas cambiais como instrumento de controle de juros ou câmbio.
Mercadante fala em previsibilidade e fim da campanha
Aloizio Mercadante, aliado histórico de Lula e hoje conselheiro próximo do presidente, também afastou a hipótese de tabelamento de juros e vinculou o debate econômico à montagem da nova equipe.
“Não há nenhuma proposta de tabelar juros em discussão, não teve na campanha e não tem no governo. Vamos aguardar o presidente definir a equipe econômica. A campanha já terminou, agora o presidente coordena o processo e define as responsabilidades”, afirmou.
Mercadante destacou que a linha de atuação já conhecida de Lula deve ser preservada: “O governo Lula sempre governou assegurando transparência e previsibilidade da política econômica. O presidente precisa definir as responsabilidades pela economia e caberá a nova equipe construir as equipes e estabelecer os diálogos”.
Segundo interlocutores, Lula permanece entre o Palácio da Alvorada e a residência oficial na Granja do Torto para descanso e recuperação da voz, e começa a discutir com mais intensidade o desenho do quarto mandato a partir desta semana, incluindo a escolha de nomes da área econômica.
O que propõe André Lara Resende
A polêmica que levou o governo a vir a público começou com a repercussão de um texto recente de André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, no qual ele defende um novo arranjo entre política fiscal e monetária para reduzir de forma estruturada a taxa de juros.
Na proposta, o economista sugere a criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, encarregado de definir metas combinadas para as contas públicas e para a inflação em um horizonte de quatro a cinco anos. Nesse modelo, o Banco Central deixaria de mirar apenas a inflação em um ano à frente e passaria a operar dentro de uma faixa de referência mais ampla.
“O BC se comprometeria a manter a taxa básica num intervalo entre a meta de inflação, 3,0%, e taxa de crescimento nominal potencial, ou seja, a meta da inflação somada ao crescimento real potencial, o que hoje seria em torno de 5,5% ao ano (3% de inflação mais 2,5% de crescimento)”, escreveu Lara Resende.
Ele detalha ainda como seria a transição para juros menores: “Para dar início ao novo regime fiscal e monetário, o BC anunciaria a redução gradual do juro básico, ao longo de cerca de 12 meses, para a taxa de crescimento nominal potencial mais um spread transitório de segurança de 2%, isto é, perto de 7,5% ao ano. Este spread de segurança seria periodicamente reavaliado e gradualmente reduzido até ser eliminado”.
No texto, o economista critica de forma direta o nível atual da Selic: “A economia tem um problema básico: a extraordinariamente alta taxa básica de juros. Um problema que tem solução clara. Só é preciso vencer os preconceitos associados a uma teoria monetária e fiscal anacrônica”.
Apesar da intensidade do debate, o governo deixa claro que essas ideias permanecem, por ora, no campo acadêmico e não integram a agenda oficial de mudanças na política monetária.
Entenda o contexto
A simples notícia de que Lula poderia se reunir com Lara Resende bastou para provocar desconforto no mercado financeiro, que teme qualquer sinal de interferência política na definição dos juros ou no uso de reservas cambiais. A reação negativa elevou a pressão sobre o futuro desenho da equipe econômica e forçou integrantes do governo a explicitar que não haverá guinada abrupta.
Ao reafirmar que não discute tabelamento da Selic nem queima de reservas, o Planalto busca oferecer previsibilidade a bancos, empresas e investidores, preservando o status de independência operacional do Banco Central. Ao mesmo tempo, a negativa frustra grupos que defendem uma queda mais rápida dos juros para aliviar o custo do crédito e estimular o crescimento.
A manutenção das reservas cambiais intocadas também é vista como sinal de prudência, evitando riscos adicionais de pressão sobre o câmbio e a inflação, o que interessa especialmente a importadores e consumidores urbanos sensíveis a variações de preços de produtos e combustíveis.
Gleisi defende economista e critica o mercado
Enquanto a equipe econômica se distancia das propostas de Lara Resende, vozes da ala política do governo saem em defesa do economista. Em publicações nas redes sociais, a deputada federal Gleisi Hoffmann (PT-PR), ex-ministra de Lula, elogiou o artigo como uma contribuição relevante ao debate.
Para Gleisi, o texto é “fundamental para enfrentar a ofensiva sobre a política fiscal brasileira” e expõe uma visão alternativa à do centro financeiro paulista. Ela atacou a reação dos investidores ao possível encontro entre Lula e Lara Resende ao afirmar que “o mercado financeiro tem o DNA do autoritarismo”.
A deputada também reforçou a imagem de Lula como líder acostumado a ouvir posições divergentes, sem abrir mão de seus compromissos eleitorais. “Parece normal que o presidente Lula chame para conversar gente que não está tão comprometida com essa Faria Lima. Até porque, conversar e procurar entender todos os problemas é uma virtude do presidente. Isso não quer dizer que esses adversários não tenham entendido ainda que Lula não fará o estelionato eleitoral que defendem, alguns em voz alta e com todas as letras”, escreveu.
As manifestações de Gleisi evidenciam que o debate sobre o nível de juros e o papel do mercado financeiro seguirá vivo dentro da base governista, mesmo com a sinalização de cautela e continuidade dada por Durigan e Mercadante. A definição da nova equipe econômica será o próximo movimento observado de perto tanto por investidores quanto por setores que cobram mudanças mais profundas na política econômica.


