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Inteligência Artificial

FMI alerta: IA pode afetar 60% dos empregos em até 5 anos

Na Conferência Internacional de Bancos, em Madri, diretora do FMI alerta que a IA pode afetar até 60% dos empregos em economias avançadas em até 5 anos e exige regulação ética e salvaguardas.

FMI alerta: IA pode afetar 60% dos empregos em até 5 anos

Inteligência Artificial

Diretora do FMI destaca riscos da IA para o mercado de trabalho e pede regulamentação ética urgente.

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A diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, classificou a inteligência artificial (IA) como um “tsunami que se aproxima lentamente” e alertou que a tecnologia pode afetar até 60% dos empregos em economias avançadas e 40% dos postos de trabalho no mundo em um horizonte de três a cinco anos, caso não sejam criadas salvaguardas e regras éticas globais. O recado foi dado nesta terça-feira, durante a Conferência Internacional de Bancos, em Madri, e veio acompanhado de um alerta sobre riscos à estabilidade financeira e à cibersegurança.

Empregos sob pressão e risco de desigualdade

Georgieva afirmou que a rápida adoção da IA tende a redesenhar profundamente o mercado de trabalho, com forte impacto sobre funções repetitivas e manuais e valorização de cargos técnicos de alta qualificação. Segundo ela, o potencial de transformação é tão grande quanto o risco de ampliar desigualdades entre pessoas, empresas e países.

“Costumo usar a seguinte analogia: a IA é como um tsunami que se aproxima lentamente — é lento, mas ainda assim um tsunami. Estima-se que, globalmente, 40% dos empregos serão afetados pela IA em um período relativamente curto, de três a cinco anos. Em economias avançadas, esse número percentual chega a 60%”, disse a diretora-geral do FMI.

Ela destacou que a cadeia de valor mais avançada da IA hoje está concentrada em poucos países, citando Estados Unidos, China e Índia, enquanto a maioria das nações ainda luta para se integrar a esse ecossistema. Nesse cenário, pequenas e médias empresas — que sustentam grande parte do emprego — tendem a enfrentar mais dificuldade para investir em tecnologia, infraestrutura digital e qualificação, o que pode aprofundar as assimetrias.

Para Georgieva, o desafio central é evitar que a revolução tecnológica empurre jovens para subempregos e trabalhos exclusivamente manuais. “Tenho uma neta de 16 anos e duvido que o sonho dela seja trabalhar como barista em uma cafeteria. O verdadeiro desafio é preparar pessoas e empresas para serem mais ágeis e empreendedoras, tornando o aprendizado contínuo e a capacitação em tecnologia elementos obrigatórios”, afirmou.

Riscos financeiros com euforia em torno da IA

Além do impacto no emprego, a diretora do FMI alertou para o risco de a empolgação em torno da IA alimentar vulnerabilidades no sistema financeiro global. Segundo ela, investimentos de alto volume têm sido feitos com base em expectativas de retorno rápido para projetos cujo ciclo de exploração é curto, em torno de cinco anos, mas financiados com endividamento de longo prazo.

Esse descompasso, somado a operações de investimento “circulares” entre empresas de tecnologia — em que companhias investem umas nas outras —, pode amplificar choques caso alguma parte dessa cadeia quebre. Uma frustração relevante com resultados ou lucros, avaliou Georgieva, teria potencial para disparar uma onda de desinvestimentos e gerar estresse sistêmico.

“Quanto mais se sabe, maior é a preocupação”, afirmou a chefe do FMI, ao defender que a inovação não seja tratada como garantia automática de crescimento, mas acompanhada de avaliação rigorosa de riscos.

Quatro pilares para a era da IA

Diante desse quadro, o FMI estruturou uma matriz de preparação para a era da IA baseada em quatro pilares, que Georgieva apresentou a governos, reguladores e banqueiros reunidos em Madri. O objetivo é orientar políticas públicas e decisões empresariais para reduzir riscos trabalhistas, financeiros e sociais.

“Entre eles está infraestrutura digital, com garantia de conectividade e capacidade computacional; força de trabalho, com programas focados em mobilidade, requalificação e aprendizado contínuo e obrigatório ao longo da vida; estímulo à adoção da IA por pequenas e médias empresas nos diversos setores e normas claras (de regulação e ética) que mitiguem riscos sem sufocar a inovação”, resumiu.

Ela citou Cingapura, que lidera um índice elaborado pelo FMI sobre prontidão para a IA, como exemplo de país que combina investimentos em tecnologia com forte preocupação ética. Para Georgieva, a construção de uma “mentalidade empreendedora e ágil” na sociedade será determinante para o sucesso das nações nessa transição.

Ciberataques mais sofisticados e risco sistêmico

O diretor-geral do Banco de Compensações Internacionais (BIS), Pablo Hernández de Cos, reforçou na mesma conferência que a IA, especialmente a vertente generativa, está mudando o equilíbrio de forças no mundo dos crimes cibernéticos e exige uma resposta coordenada do sistema financeiro.

Segundo ele, as ferramentas de IA generativa fornecem recursos poderosos para fraudadores, golpistas e grupos de hackers, elevando tanto a frequência quanto a sofisticação dos ataques contra bancos, bolsas e demais instituições. Na prática, isso aumenta a chance de uma falha localizada se espalhar rapidamente e se tornar um evento sistêmico.

“É uma preocupação que todos temos e que diz respeito à cibersegurança. A IA, particularmente a IA generativa, pode beneficiar desproporcionalmente os atacantes, tornando o sistema financeiro mais vulnerável a eventos sistêmicos”, afirmou Hernández de Cos.

Ele defendeu que reguladores, bancos centrais e instituições financeiras acelerem investimentos em segurança cibernética, testes de resiliência e monitoramento contínuo de riscos ligados ao uso de algoritmos e modelos de IA, inclusive no combate à lavagem de dinheiro e a fraudes.

Entenda o contexto

O alerta conjunto de FMI e BIS ocorre em um momento em que governos, bancos centrais e grandes empresas correm para incorporar IA em suas operações, de chatbots em atendimento ao público a sistemas de análise de risco de crédito e automação de tarefas internas. Ao mesmo tempo, cresce a pressão por regras claras sobre uso de dados, transparência de algoritmos, limites para decisões automatizadas e proteção de empregos.

Sem coordenação internacional, avaliam Georgieva e Hernández de Cos, o avanço desordenado da tecnologia pode acentuar desigualdades entre países, fragilizar a estabilidade financeira e expor o sistema bancário a ondas de ciberataques cada vez mais complexos. Com regulação, investimentos em infraestrutura digital, requalificação profissional e inclusão das pequenas empresas, a aposta dos dois dirigentes é que a IA possa impulsionar produtividade e crescimento sem detonar um “tsunami” social e financeiro.