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Economia

Renda fixa hoje: evitar riscos pode reduzir lucro no longo prazo

Com Selic a 13,75% e CDI forte, investidores lotam pós-fixados de baixa oscilação. XP alerta: conforto diário pode não bastar para metas longas; IPCA+ ganha espaço.

Renda fixa hoje: evitar riscos pode reduzir lucro no longo prazo

Renda Fixa

Investidores buscam segurança em pós-fixados, mas especialistas alertam para a importância de diversificar visando ganhos futuros.

Leia também: Economista dos EUA alerta risco fiscal no plano de Lara Resende

Com a taxa Selic em 13,75% ao ano e o CDI colado nesse nível, a renda fixa virou o destino favorito do investidor conservador, que se agarra a CDBs de liquidez diária, Tesouro Selic e “cofrinhos” digitais. Mas, na avaliação de Rodrigo Sgavioli, chefe de alocação da XP Investimentos, essa busca por estabilidade diária pode custar caro lá na frente: o retorno real do CDI é considerado modesto para quem precisa acumular patrimônio para metas de longo prazo, como pagar a faculdade dos filhos ou conquistar independência financeira.

Por que fugir de risco na renda fixa pode fazer o dinheiro render menos?

Para Sgavioli, a aversão a qualquer oscilação virou quase sinônimo de segurança para o investidor pessoa física, mas essa leitura é enganosa quando o horizonte é de muitos anos.

“A volatilidade é uma das métricas de risco, só que principalmente para quem investe para manter o poder de compra ao longo de anos, essa não deveria ser a melhor métrica. O maior risco para uma pessoa física é daqui a 20 anos não chegar ao patrimônio que ela sonhou e traçou uma rota. Talvez ela devesse aceitar volatilidade em algum nível para conseguir chegar lá”, afirma.

Um levantamento da XP mostra que uma aplicação em 100% do CDI rendeu, em média, IPCA + 3,7% ao ano, em termos reais, em 15 anos. Na prática, essa taxa tende a preservar o poder de compra, mas é considerada baixa para metas que exigem crescimento mais acelerado do patrimônio, como garantir uma aposentadoria confortável ou acompanhar a inflação de serviços que sobem mais do que o índice geral, caso típico da educação.

“Ser ultra conservador tem risco? Tem risco de o investidor não ter a rentabilidade de que precisa para levar o seu patrimônio onde precisa. E se a taxa nos últimos 15 anos que você precisava era acima de IPCA + 4, não foi o CDI que te entregou isso”, diz Sgavioli. “Em muitos casos, é o IPCA + 6% ou mais que vai ajudar na realização dos objetivos.”

Segundo ele, o erro está em trocar a segurança de amanhã pelo conforto do extrato hoje. “Ser conservador demais é confortável porque chacoalha pouco, ainda mais no Brasil com o juro do pós-fixado relativamente alto. Chacoalha pouco e parece ter uma rentabilidade atrativa, como Tesouro Selic, CDBs de liquidez diária, cofrinhos. Não que não seja um risco mais baixo, mas a discussão é: risco para uma pessoa física é volatilidade ou não chegar aos objetivos?”

Entenda o contexto

No cenário atual, o mercado de renda fixa hoje é dominado por produtos pós-fixados atrelados ao CDI, vendidos por bancos, corretoras e plataformas de investimento. Eles aparecem para o pequeno investidor com nomes simples, como “renda fixa caixa”, “caixinha” ou “cofrinho”, e entregam rentabilidade diária sem sustos.

Esse comportamento se apoia no juro alto de curto prazo, mas ignora que a Selic é cíclica. Quando a taxa cair, o rendimento desses ativos deve encolher, e quem estiver 100% neles terá de reinvestir a taxas menores. Ao mesmo tempo, objetivos de longo prazo continuam sendo corrigidos por inflação — e, muitas vezes, por índices ainda mais salgados.

A XP simulou o caso de uma investidora que precisava juntar dinheiro para pagar a faculdade do filho em cinco anos. A aplicação em CDI não conseguiu acompanhar a inflação educacional em boa parte dos cenários, enquanto títulos indexados ao IPCA foram suficientes para entregar o valor necessário. “A lógica é clara: o custo da faculdade é uma obrigação real, cujo valor futuro está intimamente ligado ao comportamento da inflação. Um ativo que não protege contra essa alta acaba deixando o investidor exposto. O CDI parece seguro até o momento em que o dinheiro é necessário; é nesse momento crucial que a percepção de segurança se desfaz”, diz uma análise da casa.

É por isso que, para metas acima de dez anos, Sgavioli defende aceitar alguma dose de volatilidade em troca de rentabilidades reais maiores. “A gente não fala que CDI é ruim, só que colar no CDI para horizontes muito longos, talvez te dê um retorno acima da inflação aquém do que o investidor precisa. Sentar no CDI por janelas longas não necessariamente te dá retornos acima da inflação na magnitude que você precisa”, afirma.

Qual a melhor renda fixa para investir em novembro de 2026?

Não há um único produto de renda fixa que sirva para todos em novembro de 2026; a combinação de pós-fixados, prefixados e títulos indexados à inflação é o que tende a funcionar melhor, de acordo com o prazo e o objetivo de cada investidor.

Para reserva de emergência e objetivos até dois anos, o destaque continua sendo a renda fixa pós-fixada atrelada ao CDI, como Tesouro Selic e CDBs de liquidez diária — justamente pela liquidez e pela baixa tolerância à oscilação nesse horizonte. “Até dois anos, ficar incorrendo em risco não faz sentido”, resume Sgavioli.

Já para metas mais longas, como aposentadoria ou educação dos filhos, títulos indexados à inflação (os papéis atrelados ao IPCA) ganham espaço, mesmo com maior volatilidade. O racional é casar o índice de correção do investimento com o índice que corrige o custo futuro do objetivo, garantindo ganho real previsível sobre a inflação. Em alguns vencimentos, o Tesouro Direto IPCA+ voltou a pagar inflação mais uma taxa próxima de 8% ao ano, patamar considerado atrativo frente à média histórica e ao que o CDI entregou no passado.

Prefixados também entram no cardápio para horizontes definidos, desde que o investidor esteja disposto a suportar as oscilações no meio do caminho e leve o papel até o vencimento. Em prazos intermediários, uma carteira “blend”, que mistura CDI, IPCA+ e algum prefixado, costuma ser a alternativa mais equilibrada.

A recomendação do especialista é partir da necessidade de rentabilidade real de cada objetivo — por exemplo, IPCA + 6% ao ano — e, a partir daí, montar a carteira de renda fixa cdb, Tesouro e demais títulos que melhor combinem segurança, prazo e volatilidade tolerável.

Desempenho dos índices de renda fixa em outubro

Os dados mais recentes mostram bem a divisão entre conforto de curto prazo e risco de longo prazo. Em outubro, o índice IMA-S, que acompanha títulos públicos pós-fixados remunerados pela Selic, rendeu 1,03% e lidera o acumulado do ano com 11,77%. É a fotografia de um ambiente que premia quem está colado nos juros atuais.

Já os índices que medem a renda fixa de prazo mais longo sofreram com o cenário político e fiscal. O IRF-M, que acompanha títulos públicos prefixados, caiu 1,52% no mês. O IMA-B, que reúne papéis atrelados ao IPCA, recuou 1,03%. Entre as debêntures, as atreladas ao DI subiram 0,67% em outubro, enquanto as debêntures incentivadas — isentas de imposto de renda e bastante ligadas a prazos longos — caíram 0,33%.

Essa fotografia ajuda a explicar o movimento de muitos investidores: diante das oscilações de preços nos papéis prefixados e IPCA+, o dinheiro migra para o pós-fixado, que mostra apenas ganhos no extrato diário. Para Sgavioli, porém, essa fuga generalizada tende a ser um erro para horizontes mais distantes, porque concentra a carteira em ativos que dependem do nível de juros futuro e oferecem pouca proteção contra choques específicos de inflação.

Impacto das eleições e do fiscal nos juros longos

A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva alterou o humor em relação às contas públicas e mexeu diretamente com a renda fixa de prazos mais longos. Segundo Sgavioli, a probabilidade de um ajuste fiscal consistente, que antes chegava a até 70%, caiu para algo entre 20% e 30% após o resultado das urnas.

“A primeira reação do mercado foi precificar a continuidade, com uma leve piora adicional das contas públicas”, afirma. Na prática, isso significou alta das taxas de juros longos e queda nos preços dos títulos prefixados e IPCA+, exatamente os papéis que tornam a carteira mais volátil no curto prazo, mas que podem garantir taxas reais atraentes se carregados até o vencimento.

Essa piora de percepção reduz o apetite imediato pelos papéis mais sensíveis ao cenário fiscal, aumenta o custo de financiamento do governo e encarece emissões de empresas. Ao mesmo tempo, cria janelas em que os títulos de inflação e prefixados passam a oferecer prêmios maiores para quem tem estômago e prazo para suportar a montanha-russa de preços.

Para o investidor pessoa física, o recado é claro: olhar apenas para a oscilação diária pode levar a decisões que sacrificam o “eu do futuro”. A dosagem entre pós-fixados, IPCA+ e prefixados precisa considerar o quanto de patrimônio será necessário lá na frente — e não só o quanto a carteira “chacoalha” no presente.