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Economia

Facção cobra até R$ 750 e controla venda de água no Ceará hoje

Banabuiú vive crise de abastecimento: facção proíbe comércio de água mineral, impõe taxas de até R$ 750 por semana e força distribuição emergencial com 1.000 garrafões sob escolta policial.

Facção cobra até R$ 750 e controla venda de água no Ceará hoje

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Facção impõe taxas elevadas e controla rigorosamente a venda de água mineral em Banabuiú, no Ceará, durante crise de abastecimento.

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Moradores de Banabuiú, no interior do Ceará, voltam a enfrentar filas nesta quarta-feira (4) para comprar água mineral sob escolta policial, após o Comando Vermelho impor controle sobre a venda de garrafões na cidade, cobrar taxas semanais de até R$ 750 de comerciantes e levar ao fechamento do comércio local de água.

Por que a população de Banabuiú, no Ceará, está formando fila para comprar água sob escolta policial?

Os cerca de 1.000 garrafões de 20 litros disponibilizados por dia são hoje a principal forma de acesso à água mineral em Banabuiú, depois que comerciantes foram ameaçados e suspenderam as vendas por medo de represálias da facção criminosa Comando Vermelho.

Desde o fim de outubro, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará montou, com apoio logístico da Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece), uma operação emergencial para levar garrafões ao município. A água sai de fornecedores da região, é transportada por caminhões e chega à Praça da Matriz escoltada por viaturas da polícia.

Cada morador pode comprar até dois garrafões de 20 litros por R$ 6 cada, o mesmo preço praticado antes nas distribuidoras. O prefeito Marcílio Coelho afirma que a limitação busca evitar desabastecimento e garantir que mais famílias tenham acesso ao produto. “Cada unidade é vendida por R$ 6, mesmo valor cobrado normalmente pelas distribuidoras”, disse o gestor municipal.

Com o fim da entrega em domicílio por parte dos comércios locais, a população precisa caminhar ou ir de motocicleta até o ponto de distribuição, aguardar em longas filas e voltar carregando os recipientes. A operação começou no sábado (31), parou no domingo (1) e na segunda (2) e foi retomada na terça (3), mantendo-se nesta quarta sem previsão de término.

Quais são as ameaças feitas pela facção contra os comerciantes de água no Ceará?

As extorsões começaram em 19 de outubro, quando donos de distribuidoras e pequenos comércios em Banabuiú passaram a receber mensagens com ameaças atribuídas ao Comando Vermelho, determinando quem podia vender água, quais marcas estavam autorizadas e quanto deveria ser pago semanalmente à facção.

Um comunicado que circulou na cidade, intitulado “Edital Banabuiú” e assinado pela chamada “Diretoria Banabuiú”, condicionava toda a comercialização e distribuição de água mineral à autorização do grupo criminoso. O texto avisava que quem desrespeitasse as ordens “sofreria consequências” e proibia a venda de determinadas marcas, sob pena de perda dos garrafões e fechamento forçado dos estabelecimentos.

Boletins de ocorrência registram cobranças de R$ 200 para permitir que um comércio permanecesse aberto e de R$ 750 por semana para liberar a venda de água, além de relatos de pagamento de R$ 1,50 por garrafão vendido. Diante da pressão e do risco de violência, muitos comerciantes suspenderam completamente o abastecimento de água mineral.

As investigações da Polícia Civil apontam que o objetivo da facção é exercer “domínio social e econômico” sobre o município, usando um bem essencial como instrumento de controle. Na decisão que converteu em preventivas as prisões de três suspeitos de cobrar as taxas, o juiz Maycon Robert Moraes Tomé escreveu que os autuados atuam na “engrenagem financeira de verdadeiro sistema de domínio social e econômico imposto pela facção ao Município de Banabuiú/CE, com divisão de tarefas entre liderança, executores de ameaças, cobradores e arrecadadores de valores”.

Prisão de suspeitos e avanço da investigação

No dia 22 de outubro, três homens foram presos em flagrante em Banabuiú por envolvimento nas ameaças e extorsões: Carlos Fernando da Silva Andrade, Francisco das Chagas de Lima da Silva, conhecido como Chico Motos, e Cícero Kevin Gomes Farias. Segundo a Secretaria da Segurança, eles seriam responsáveis por recolher o dinheiro exigido dos comerciantes.

As prisões ocorreram em uma operação integrada das forças de segurança, baseada em relatórios de inteligência que já indicavam a atuação do Comando Vermelho na cidade. Na casa de Francisco das Chagas, os policiais apreenderam um revólver e munições.

Na audiência de custódia, o juiz Maycon Robert Moraes Tomé converteu as prisões em preventivas, sem prazo definido, citando inclusive o receio de policiais militares em sofrer represálias. Ele também mencionou notícias sobre interrupção temporária de estabelecimentos de venda de água e até suspensão de aulas em escola pública municipal por falta de abastecimento naquele período.

Os levantamentos da Polícia Civil indicam que Cícero Kevin já responde por tráfico de drogas e lavagem de dinheiro e é visto como uma das lideranças do grupo criminoso em Banabuiú, com atuação em agiotagem e empréstimos ilegais cobrados de forma coercitiva. Francisco das Chagas também é apontado como agiota e já foi condenado por tráfico, além de responder por receptação.

A Secretaria da Segurança informou que o suposto mandante, ligado à cúpula do Comando Vermelho e apontado como liderança responsável pela área, estaria no Rio de Janeiro. A Polícia Civil do Ceará trabalha em conjunto com a polícia fluminense para localizar esse articulador e avançar nas investigações.

Ameaças chegam a Fortaleza e ampliam preocupação

Enquanto Banabuiú enfrenta a crise mais aguda, a Polícia Civil também investiga mensagens e comunicados atribuídos ao Comando Vermelho que determinam a suspensão da venda de água mineral em comunidades de Fortaleza, como Rosalina, Parque Dois Irmãos, Bela Vista e Pan-Americano.

Em ao menos uma distribuidora da capital, a comercialização foi paralisada temporariamente após a circulação das ameaças, que seguem padrão semelhante ao observado no interior: proibição de venda sem autorização da facção, determinação de marcas e indicação de punições em caso de descumprimento.

As autoridades tratam o movimento como um sinal de expansão da estratégia de controle sobre um insumo básico, com potencial de reproduzir na capital a mesma combinação de medo, desabastecimento e dependência de ações emergenciais que hoje atinge Banabuiú.

Entenda o contexto

Banabuiú, município do sertão cearense, já convive com limitações no fornecimento regular de água tratada e depende de água mineral em garrafões para consumo em muitas residências e comércios. Ao mirar justamente esse mercado, o Comando Vermelho escolheu um ponto vulnerável da vida cotidiana da população.

Na prática, o controle sobre a venda de água transformou um bem essencial em ferramenta de extorsão e poder. Comerciantes passaram a operar sob ameaça constante ou simplesmente fecharam as portas, o que esvaziou prateleiras e forçou o governo estadual a montar uma logística complexa de abastecimento com proteção policial permanente.

Além do impacto direto na renda de pequenos empresários e trabalhadores, a crise expõe a capacidade do crime organizado de interferir no acesso a serviços básicos e de impor regras próprias em territórios inteiros, substituindo o Estado como mediador de relações econômicas locais.

Para os moradores, a consequência imediata é a vulnerabilidade: filas, limite de dois garrafões por pessoa, deslocamentos diários sob sol forte e incerteza sobre até quando haverá água disponível. Para as autoridades, o desafio é duplo: garantir o abastecimento e, ao mesmo tempo, desarticular a estrutura que tenta transformar a água — e a dependência da população — em fonte permanente de renda e controle criminoso.