PACs de IA gastam US$ 4,8 mi e veem derrotas decisivas nos EUA
Grupos políticos ligados à inteligência artificial despejaram milhões de dólares nas eleições de meio de mandato nos EUA para influenciar a futura regulação da tecnologia, mas colheram vitórias e derrotas importantes.

Tecnologia
Investimentos milionários de PACs de IA nas eleições americanas resultam em resultados variados para a regulação da tecnologia.
Leia também: Forrester: IA vai transformar finanças e bancos em 2027
Grupos políticos ligados à indústria da inteligência artificial despejaram milhões de dólares nas eleições de meio de mandato desta semana nos Estados Unidos para tentar influenciar quem vai escrever as regras da tecnologia no Congresso, mas viram vários de seus candidatos mais financiados serem derrotados em disputas-chave.
Grupos pró-indústria acumulam derrotas caras
De um lado, os comitês pró-indústria American Mission e Building the Future, ligados ao grupo Leading the Future (LTF), investiram 4,8 milhões de dólares na candidatura de Darline Graham ao Senado pela Carolina do Sul. Mesmo com a bolada, ela saiu derrotada.
O American Mission, braço republicano do LTF — estrutura apoiada por Greg Brockman, presidente da OpenAI, e pela firma de capital de risco Andreessen Horowitz — também colocou mais de 500 mil dólares em cada um dos republicanos Aaron Flint, em Montana, e Laurie Buckhout, na Carolina do Norte. Ambos perderam suas corridas para a Câmara.
O desempenho do braço democrata do LTF, o Think Big, foi melhor. O grupo apoiou o deputado da Flórida Jared Moskowitz, que garantiu a reeleição, sinal de que o dinheiro do setor de tecnologia não rendeu apenas derrotas, mas está longe de ser garantia de sucesso.
Entenda o contexto
Os PACs (comitês de ação política) são estruturas usadas por empresas, bilionários e organizações para arrecadar e gastar grandes quantias em campanhas. No caso da inteligência artificial, eles disputam o desenho da futura regulação nos EUA.
De um lado estão grupos como American Mission e Building the Future, que defendem uma estrutura nacional unificada para regras de IA, o que facilitaria a vida das grandes empresas ao reduzir a fragmentação entre legislações estaduais. De outro, organizações como Guardrails Alliance e Public First pressionam por salvaguardas mais rígidas e pela manutenção da autonomia dos estados para impor suas próprias regras.
Quem ganhou e quem perdeu com os PACs da IA?
Os resultados foram mistos também entre os grupos que pedem freios mais duros à indústria. O Public First, apoiado pela startup de IA Anthropic, viu vários republicanos que bancou serem derrotados, mas teve mais sucesso ao lado de democratas. O comitê destinou 3 milhões de dólares para apoiar o senador estadual da Califórnia Scott Wiener, que liderava sua disputa no momento da apuração.
Já o Guardrails Alliance adotou uma estratégia frontal: gastar para transformar o dinheiro da IA em fardo político. O grupo despejou mais de 1 milhão de dólares em campanhas contra dois candidatos que acabaram derrotados, o deputado Jimmy Gomez, na Califórnia, e o próprio Aaron Flint, em Montana. Também investiu 300 mil dólares para apoiar Angela Gonzales-Torres, que venceu Gomez.
Charlie Blaettler, diretor político do Guardrails Alliance, afirma que o objetivo é expor a origem dos recursos e associar diretamente candidatos à indústria de IA. “Nosso objetivo é tornar o dinheiro da IA politicamente tóxico”, diz.
Estratégias opostas em disputa
Além das vitórias e derrotas pontuais, as eleições revelam duas leituras opostas sobre como a sociedade reage ao poder econômico da indústria de IA.
O LTF, apoiado por nomes como Greg Brockman e Andreessen Horowitz, prefere atuar com discrição nas eleições gerais. Os anúncios que financia quase não falam de inteligência artificial, mas de temas amplos, como segurança pública, geração de empregos ou custo de vida. A prioridade do grupo são as primárias, em que é possível moldar o campo de candidatos de cada partido desde o início.
Nas primárias deste ciclo, o LTF gastou 27,38 milhões de dólares, incluindo 8 milhões de dólares numa ofensiva para barrar o deputado estadual de Nova York Alex Bores, que acabou derrotado em sua tentativa de chegar ao Congresso. A avaliação interna é que esse tipo de investimento ajuda a dar nome e palanque a políticos alinhados a uma regulação mais favorável à indústria.
O Guardrails Alliance segue caminho oposto. Suas campanhas citam explicitamente quais empresas e bilionários da tecnologia bancam determinados candidatos e tentam transformar isso em motivo de rejeição nas urnas. “Eles não querem que o dinheiro deles se torne um problema nessas eleições”, afirma Blaettler, ao comentar a cautela do LTF ao entrar em disputas gerais.
O peso de Musk e da onda democrata
Isolar o impacto do dinheiro ligado à IA não é simples. As eleições de meio de mandato foram marcadas por uma onda democrata em vários estados, que derrubou apostas de grandes financiadores republicanos.
Elon Musk, por exemplo, teria colocado cerca de meio bilhão de dólares em candidaturas do Partido Republicano e também viu muitos de seus escolhidos perderem. O desempenho irregular reforça a leitura de que cheques milionários ajudam, mas não definem sozinhos o resultado em um cenário de forte polarização nacional.
Como a disputa em torno da IA afeta a regulação nos EUA?
No coração da briga entre os PACs está a pergunta sobre quem terá a caneta mais pesada para regular a inteligência artificial: o Congresso em Washington, com uma lei nacional que possa se impor sobre regras estaduais, ou os próprios estados, cada um com seu conjunto de exigências.
O LTF e seus braços American Mission, Building the Future e Think Big defendem que o Congresso estabeleça um marco nacional abrangente. Para as grandes empresas de tecnologia, isso reduz incertezas e o risco de lidar com dezenas de legislações diferentes ao mesmo tempo.
Já o Guardrails Alliance e aliados como o Public First querem preservar – e até ampliar – o poder de estados como Califórnia e Nova York de impor salvaguardas próprias, especialmente em temas como privacidade, vieses algorítmicos, segurança, impacto no trabalho e direitos civis.
A composição do novo Congresso, influenciada em parte por esse dinheiro, vai definir o ritmo e a direção desse debate: uma regulação mais centralizada, vista com bons olhos pela indústria, ou um mosaico de regras em que estados mantêm protagonismo.
Próximos passos e disputa até 2028
Mesmo com derrotas caras, nenhum dos lados dá sinais de recuo. O LTF já indica que pretende manter a estratégia de investir pesado em primárias e escolher a dedo as disputas gerais em que vale arriscar sua marca, com o olhar voltado também para o próximo ciclo presidencial, em 2028.
O Guardrails Alliance, por sua vez, promete seguir destacando quem recebe dinheiro do setor de IA e atacando diretamente a influência da indústria sobre o Congresso. “AIPAC virou a história daquela disputa”, lembra Blaettler, citando um caso recente em que o protagonismo de um lobby acabou ofuscando os candidatos. Para ele, algo semelhante pode acontecer com os bilionários da IA se continuarem escalando os gastos.
À medida que o uso de inteligência artificial avança em áreas como segurança pública, saúde, crédito e emprego, a pressão por regras claras tende a crescer. O resultado das urnas mostra que o dinheiro da tecnologia é hoje um ator relevante nesse jogo, mas ainda longe de ser o único – ou o decisivo – fator na definição de quem vai regulá-la.


