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Abdul El-Sayed é eleito senador em Michigan e faz história

Médico progressista de 42 anos derrota republicano Mike Rogers, mantém cadeira democrata em Michigan e se torna o primeiro senador muçulmano de origem árabe nos Estados Unidos.

Abdul El-Sayed é eleito senador em Michigan e faz história

Eleições 2024

Médico progressista conquista vaga no Senado, marcando um avanço significativo para a diversidade política nos EUA.

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O médico Abdul El-Sayed, 42, venceu o republicano Mike Rogers nas eleições de meio de mandato desta terça-feira (3) em Michigan e fará história como o primeiro senador muçulmano de origem árabe dos Estados Unidos, mantendo sob controle democrata a cadeira deixada pelo senador Gary Peters, que se aposentou.

Vitória progressista em estado-pêndulo

A disputa em Michigan era uma das mais observadas do país por envolver um estado-pêndulo decisivo para o equilíbrio de forças no Senado. A vitória de El-Sayed consolida um avanço da ala progressista do Partido Democrata em meio a um cenário descrito como “tsunami” democrata, que garantiu ao partido o controle do Congresso.

El-Sayed chega ao Senado apoiado por propostas como acesso gratuito à saúde pública, fim do ICE (o órgão de imigração e fiscalização de fronteiras) e taxação de grandes fortunas. Ele também defende o fim do apoio militar dos Estados Unidos a Israel, o que o colocou no centro de uma das principais disputas ideológicas dentro do partido.

Ao mesmo tempo em que se apresenta como voz da esquerda democrata, o novo senador tenta se distanciar do rótulo de socialista: “Eu não sou socialista. Eu acredito no capitalismo, mas acredito que o capitalismo tem que ser regulado. […] Eu acredito que os bilionários deveriam pagar sua parte para que nossas crianças possam ir para boas escolas. Não é tão radical”, afirmou em entrevista recente.

Disputa interna acirrada e racha entre democratas

A caminhada até o Senado passou por uma prévia democrata dramática em agosto, quando El-Sayed derrotou por menos de 1 ponto percentual a deputada moderada Haley Stevens. A margem estreita expôs as divisões internas em Michigan entre o campo progressista e o setor mais alinhado ao establishment do partido.

A crise explodiu nos dias finais da campanha geral, quando Stevens surpreendeu ao declarar apoio a Mike Rogers e aparecer ao lado do republicano em uma igreja em Detroit. A “traição” enfureceu lideranças democratas nacionais e locais e acabou funcionando como fator de unificação da sigla em torno de El-Sayed, que vinha de meses tentando reconquistar eleitores negros e judeus que haviam permanecido com a deputada nas prévias.

O lobby pró-Israel teve papel central nessa divisão: a campanha de Stevens contou com forte suporte financeiro do AIPAC, que investiu dezenas de milhões de dólares para derrotar o progressista. El-Sayed reagiu atacando a influência de grandes financiadores na política e reforçando seu slogan: “Dinheiro fora da política, dinheiro no seu bolso, Medicare para todos”.

Quem é Abdul El-Sayed

Filho de imigrante egípcio, Abdulrahman Mohamed El-Sayed nasceu em Rochester Hills e se apresenta como “um legítimo cidadão nascido e criado em Michigan”. Alfabetizado em árabe e inglês, formou-se em medicina na Universidade Columbia e migrou para a área de políticas públicas em saúde, chegando a dirigir o Departamento de Saúde de Detroit.

Antes de conquistar o Senado, El-Sayed tentou em vão a indicação democrata para o governo estadual, em disputa vencida por Gretchen Whitmer, hoje em seu segundo mandato como governadora. A experiência consolidou sua imagem como quadro emergente da esquerda do partido.

Com estilo distante do político tradicional de terno e gravata, costuma aparecer em público de camiseta justa, jeans e tênis escuros, relógio esportivo no pulso e celular na mão, gravando vídeos para redes sociais. A estratégia mira principalmente homens jovens que se sentem afastados da política e pouco identificados com o Partido Democrata.

“Parte do problema que enfrentamos é que as pessoas não se veem representadas na nossa política. Quero derrubar essa barreira artificial: trazer a política para dentro da academia e levar a academia para dentro da política”, explicou.

Rede de apoio e ataques da direita

A campanha de El-Sayed recebeu o respaldo do “Squad”, grupo de congressistas progressistas na Câmara dos Representantes do qual faz parte a deputada Alexandria Ocasio-Cortez. O apoio ajudou a empurrar a candidatura em meio a uma maré favorável aos democratas nas eleições legislativas.

No outro lado, o ex-presidente Donald Trump transformou o médico em alvo preferencial. Em comícios e postagens, chamou El-Sayed de “socialista radical de esquerda” e “ameaça direta à América”, tentando mobilizar a base conservadora em torno de Rogers. A ofensiva incluiu peças de campanha que associavam o democrata a um suposto desmonte da polícia e a um aumento generalizado de impostos.

Os ataques surfaram em vídeos antigos resgatados de seu canal de YouTube: uma investigação encontrou mais de 100 gravações, tornadas privadas antes do início da campanha. Em um deles, El-Sayed sugeria substituir a Segunda Emenda da Constituição, que garante o direito de portar armas, por um direito constitucional ao sistema público de saúde; em outro, criticava os fogos de artifício do 4 de Julho. Sua equipe afirmou que os materiais “não refletem seus valores de hoje”.

Posição sobre Israel divide partido

Foi na política externa, porém, que El-Sayed provocou o maior terremoto intra-partidário. Ele acusa Israel de cometer genocídio na Faixa de Gaza e se opõe ao envio de ajuda militar americana ao governo israelense, defendendo que esse dinheiro seja redirecionado a serviços públicos nos Estados Unidos.

“Eu acredito em direitos iguais à paz, dignidade e autodeterminação tanto para judeus israelenses quanto para palestinos. Mas acho que a nossa responsabilidade, acima de tudo, é de usar o dinheiro dos nossos impostos aqui no Michigan, para proporcionar saúde, escolas e estradas, ao invés de enviá-lo a um governo estrangeiro que pode usá-lo em forma de bombas e tanques para destruir infraestrutura, escolas e hospitais lá”, afirmou.

Em entrevistas anteriores, El-Sayed já havia dito que “toda definição de um Estado judaico acaba resultando em alguma articulação de valores antiliberais, absolutamente todas”, declaração que gerou forte reação de grupos pró-Israel e de setores moderados do próprio Partido Democrata.

Questionado se reconhece o direito de existência de Israel, respondeu: “A questão da existência de Israel não é uma dúvida. Não vou entrar nesse jogo de armadilha sobre se o país tem ou não o direito de existir. A questão, em última análise, é se queremos ou não uma política que valorize a igualdade de direitos”.

Agenda no Senado e impacto político

No Senado, El-Sayed deve se tornar uma das principais vozes por um sistema nacional de saúde pública universal, bandeira que o aproxima de figuras como Bernie Sanders. Ele promete pressionar por um programa nos moldes do Medicare para todos, defender o redirecionamento de parte dos recursos da polícia para políticas de saúde mental e combate à pobreza, e liderar o debate sobre taxação de grandes fortunas.

Sua eleição reforça o peso da ala progressista em um Congresso agora controlado pelos democratas e cria tensão com colegas mais moderados, preocupados com o impacto eleitoral de pautas como corte em verbas policiais e crítica dura à política externa tradicional dos Estados Unidos.

Para grupos conservadores e republicanos, a chegada do senador por Michigan representa um novo foco de resistência no plenário e nas comissões, sobretudo em temas ligados a segurança interna, imigração, armas e apoio militar a aliados estratégicos. A tendência é de confrontos frequentes com senadores alinhados a Donald Trump.

Ao mesmo tempo, a vitória de um muçulmano de origem árabe em um estado-chave pode abrir caminho para candidaturas similares em outros pontos do país, ampliando a diversidade étnica e religiosa no Congresso e pressionando o Partido Democrata a incorporar de vez as pautas de uma base mais jovem, multirracial e inclinada a políticas de bem-estar social.

El-Sayed toma posse em janeiro e chegará a Washington com o desafio de transformar em legislação a plataforma que o levou ao Senado — e de provar, dentro e fora do Partido Democrata, que suas propostas podem ir além da retórica de campanha.

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