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Inteligência Artificial

Vitória democrata derruba bolsas e freia investimentos em IA hoje

Temor de novas regras para data centers após vitória democrata nos EUA derruba Nasdaq, arrasta bolsas da Europa e da Ásia e aumenta pressão sobre o setor de inteligência artificial.

Vitória democrata derruba bolsas e freia investimentos em IA hoje

Mercado Financeiro

A vitória democrata nos EUA provoca queda nas bolsas globais e afeta investimentos no setor de inteligência artificial.

Leia também: Medo de restrições à IA derruba US$ 3 tri em Wall Street hoje

A vitória ampla do Partido Democrata nas eleições legislativas dos Estados Unidos desencadeia nesta sexta-feira (6) uma onda de vendas nas bolsas globais, com o setor de tecnologia e de semicondutores no centro da turbulência e investidores revendo o apetite por apostas em inteligência artificial.

Tecnologia lidera tombo após pior dia do Nasdaq em mais de um ano

O movimento de aversão ao risco ganhou força na véspera, quando o índice Nasdaq, termômetro das gigantes de tecnologia em Wall Street, despencou 5,52%, na sua pior sessão desde abril do ano passado. A pancada se concentrou nos fabricantes de semicondutores, peças-chave para aplicações de IA: Micron e AMD perderam mais de 17%, enquanto Nvidia caiu mais de 9%.

Nesta sexta, houve uma tentativa de alívio. Nos primeiros minutos de pregão em Nova York, o próprio Nasdaq avançava cerca de 1,3%, com alta de Nvidia, AMD e Micron depois do tombo da véspera. A recuperação, porém, não dissipa a sensação de que o setor entrou em uma fase mais instável.

Segundo economistas, a virada política em Washington alimenta a leitura de que virão regras mais duras para centros de dados — infraestrutura que sustenta a inteligência artificial e consome grandes volumes de energia. A perspectiva de exigências ambientais e de eficiência energética mais rígidas pressiona projeções de custo e de expansão das empresas de tecnologia.

Entenda o contexto

Na abertura desta sexta, as principais bolsas europeias refletiam o choque vindo de Wall Street. Por volta do meio da manhã em Brasília, Paris recuava 1,67%, Londres 2,05%, Zurique 2,08% e Frankfurt 2,42%, depois de o índice alemão ter renovado recorde histórico na sessão anterior.

As praças asiáticas seguiram a mesma direção: Tóquio e Seul caíram cerca de 6%, e Taipei perdeu 4,5%, acompanhando a correção das grandes empresas ligadas à IA listadas nos Estados Unidos.

Em entrevista, Christian Parisot, conselheiro econômico da corretora francesa Aurel BGC, avalia que a turbulência expõe o excesso de otimismo recente em torno da inteligência artificial. “É um elemento adicional de risco e uma tendência global, porque o mundo todo se entusiasmou com esses investimentos. Não quero dizer que tenham sido erros de investimento, mas às vezes avançamos rápido demais e com excesso de entusiasmo”, afirma.

Parisot destaca que a reavaliação pode pressionar os preços de componentes eletrônicos e levar empresas a adiar ou redesenhar planos de investimento em IA. Para ele, muito vai depender da evolução da demanda da sociedade e de modelos tecnológicos que consumam menos energia do que se previa.

Setor de IA entrou em “zona de turbulência”

O economista-chefe do banco Oddo BHF, Bruno Cavalier, resume o momento: “O setor de IA entrou em uma zona de turbulência”. Ele chama atenção para o risco de o choque nas bolsas transbordar para a economia real dos Estados Unidos.

Hoje, cerca de 43% da riqueza financeira das famílias americanas está aplicada em ações. Se as quedas se prolongarem e reduzirem o patrimônio das famílias, o consumo — motor central da economia americana — pode esfriar, com impacto direto sobre o crescimento.

Esse risco se soma à mudança de humor em relação às empresas de tecnologia. A perspectiva de regulamentações mais severas para data centers tende a encarecer projetos, afetar margens e reduzir a velocidade de expansão do setor de IA, depois de um ciclo de forte alta em curto espaço de tempo.

Europa mostra resistências e novas vulnerabilidades

Apesar do cenário adverso, parte da cadeia europeia de semicondutores destoou da aversão ao risco. Ações de fabricantes de equipamentos para a produção de chips, como ASML, ASM International, STMicroelectronics, BE Semiconductor Industries e Infineon, operavam em alta, numa reação vista por analistas como sinal de que alguns players podem se beneficiar de um ambiente regulatório mais previsível ou da diversificação geográfica da base de clientes.

Do outro lado, empresas tradicionalmente associadas a estabilidade sofreram com a onda vendedora. A farmacêutica AstraZeneca, a gigante de alimentos Nestlé e a seguradora Allianz registravam perdas consistentes, mostrando que o desconforto dos investidores extrapola o nicho de tecnologia.

O setor de luxo, muito dependente do consumidor americano de alta renda, estava entre os mais pressionados. Em Paris, papéis de LVMH, Kering e Hermès recuavam de forma acentuada, refletindo o temor de que a redução do patrimônio em bolsa leve a um freio nas compras de itens premium.

Mercado de trabalho forte aumenta pressão sobre juros

A aversão ao risco também foi alimentada por dados econômicos robustos divulgados nesta sexta nos Estados Unidos. O relatório mensal de emprego mostrou a criação de 165 mil vagas em outubro, mais que o dobro das cerca de 70 mil esperadas pelos analistas, e queda da taxa de desemprego para 4,1%, abaixo da previsão de 4,2%.

Os números reforçam a leitura de uma economia ainda aquecida, o que pode levar o Federal Reserve a manter juros elevados por mais tempo para segurar a inflação. Taxas mais altas encarecem o crédito, afetam o valor das empresas de crescimento — caso típico das companhias de tecnologia e IA — e elevam o rendimento dos títulos públicos americanos de longo prazo, que voltaram a subir nesta sexta.

No mercado de dívida, o juro dos papéis do Tesouro dos EUA de dez anos rondava 4,87%, em alta, enquanto os retornos de títulos alemães e franceses também avançavam levemente. O petróleo tipo Brent permanecia estável, próximo de US$ 98 o barril, sinal de que, por ora, a correção se concentra mais em ativos financeiros do que em commodities.

Investidores recalibram apostas em tecnologia e consumo

A combinação de nova correlação de forças no Congresso americano, possível endurecimento regulatório sobre data centers e juros altos por mais tempo empurra os mercados para um período de maior incerteza. Gestores começam a recalibrar carteiras, reduzindo exposição a empresas mais sensíveis a custos regulatórios e ao custo de capital, ao mesmo tempo em que buscam oportunidades em segmentos que possam ganhar com uma eventual normalização das expectativas em torno da IA.

Para os próximos dias, o foco estará em sinais concretos sobre o desenho das propostas democratas para o setor de tecnologia e em novas indicações do Federal Reserve sobre o rumo da política monetária. A forma como essas duas frentes se desenharem deve definir se a correção atual ficará restrita a um ajuste após o “excesso de entusiasmo” com a inteligência artificial ou se se aprofundará em uma fase mais longa de volatilidade, com reflexos no consumo americano e no crescimento global.