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Inteligência Artificial

Trio usa IA para clonar vozes e roubar US$ 129 mi nos EUA

Jacob Soall, Sharon Hazan e Guy Sheetrit teriam clonado vozes e imagens de CEOs e advogados para enganar funcionários, desviar US$ 129 milhões e lavar o dinheiro em criptomoedas.

Trio usa IA para clonar vozes e roubar US$ 129 mi nos EUA

Inteligência Artificial

Golpe sofisticado utiliza tecnologia para enganar e desviar milhões em criptomoedas nos Estados Unidos.

Leia também: Falha bloqueia acesso a serviço de IA hoje; veja como agir

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos acusou Jacob Soall, Sharon Hazan e Guy Sheetrit de liderar um esquema que usava inteligência artificial para clonar vozes e imagens de executivos e advogados, enganar funcionários de grandes empresas e desviar US$ 129 milhões (cerca de R$ 708,4 milhões), que depois eram convertidos em criptomoedas.

Como funcionava o golpe com vozes e imagens clonadas

Segundo a acusação, o grupo iniciava o contato com as vítimas se passando por diretores-presidentes (CEOs) de empresas, em geral por telefone. Usando ferramentas de inteligência artificial, eles imitavam a voz e, em alguns casos, a imagem do executivo, para pedir ajuda em uma suposta transação financeira confidencial.

Na sequência, o funcionário era orientado a falar com advogados de grandes escritórios internacionais, que também eram personagens falsos interpretados pelos próprios golpistas. Nessas conversas, novamente com apoio de IA para simular vozes e aparências, os supostos advogados reforçavam a urgência e a legitimidade da transferência.

Com a confiança do funcionário conquistada, um membro da quadrilha, ainda fingindo ser o advogado, indicava contas bancárias específicas para receber valores elevados, como se a operação fizesse parte de um acordo estratégico ou sigiloso da empresa. O dinheiro ia para contas controladas por integrantes do esquema em diversos países, entre eles Espanha, Portugal, Grécia, Emirados Árabes Unidos, Singapura, Áustria, Eslováquia e China.

De acordo com as autoridades americanas, assim que o montante caía nessas contas, Soall, Hazan e Sheetrit convertiam os recursos em criptomoedas, numa tentativa de ocultar origem, propriedade e controle dos valores roubados.

Quem são os acusados e onde foram presos

Jacob Soall, apontado como um dos líderes do esquema, foi preso na Espanha em 17 de junho. Ele também é conhecido pelos apelidos de “Seba Clarke” e “Rocky Balboa”. Sharon Hazan, chamada ainda de “Superman Cash” e “Impossible Mission”, foi detida também em território espanhol em 5 de agosto. O terceiro acusado, Guy Sheetrit, foi preso no Reino Unido em setembro. Os três aguardam processos de extradição para os Estados Unidos.

As autoridades americanas afirmam que os três atuavam com cúmplices para manter a rede de contas bancárias internacionais e operar a conversão dos valores em ativos digitais. A acusação descreve o caso como um exemplo emblemático de uso criminoso de ferramentas de IA de ponta para enganar profissionais treinados e burlar controles internos de companhias grandes e reguladas.

Entenda o contexto

Entre as vítimas listadas estão uma empresa de tecnologia financeira com sede no Reino Unido, sistemas hospitalares nos estados de Missouri e Califórnia, um banco em Rhode Island, uma gestora de fundos mútuos em Massachusetts e uma companhia de alimentos para animais de estimação na Flórida, todas com operações nos Estados Unidos. Os setores mais afetados incluem finanças, tecnologia, saúde e alimentos, o que evidencia a amplitude e a sofisticação do golpe.

“Como alegado, Jacob Soall, Sharon Hazan e Guy Sheetrit abusaram de uma tecnologia de superinteligência inovadora para se passar por pessoas reais e enganar executivos de empresas”, afirmou o procurador dos EUA Jamie McDonald, em comunicado. Para ele, o caso mostra como recursos de IA que antes estavam restritos a laboratórios e grandes empresas agora aparecem nas mãos de quadrilhas especializadas.

O diretor assistente do FBI James C. Barnacle Jr. destacou que o episódio acende um alerta para o mercado corporativo. “O suposto esquema orquestrado por Soall, Hazan e Sheetrit demonstra como o uso de tecnologia avançada pode ser explorado para cometer fraudes em larga escala”, disse.

Impacto e pressão por novas regras de segurança

O roubo de US$ 129 milhões, convertido rapidamente em criptomoedas, expõe a vulnerabilidade de processos internos baseados apenas em confiança hierárquica e comunicações por telefone ou vídeo. Ao conseguir reproduzir a voz e a imagem de CEOs e advogados, os golpistas dificultaram a identificação de sinais clássicos de fraude, como sotaques estranhos, falhas de idioma ou inconsistências no roteiro da conversa.

Para especialistas em segurança, o caso tende a acelerar revisões de políticas internas em empresas do mundo todo, com adoção de múltiplos fatores de autenticação para transações sensíveis, protocolos que exigem confirmação por canais alternativos e treinamentos específicos para reconhecer manipulações digitais. Grandes grupos financeiros já vinham ampliando programas de capacitação em IA e segurança; uma empresa do grupo Itaú Unibanco, por exemplo, afirma ter treinado 92% de seus funcionários em inteligência artificial, movimento que ganha novo peso diante de fraudes desse tipo.

O processo também reforça a necessidade de cooperação internacional no combate a crimes digitais. A atuação coordenada de autoridades dos Estados Unidos, Espanha e Reino Unido nas prisões, somada aos pedidos de extradição em andamento, cria um precedente que pode facilitar futuras investigações de esquemas semelhantes. A expectativa de órgãos reguladores e de segurança é que o caso impulsione o desenvolvimento de ferramentas capazes de detectar vozes e imagens clonadas e alimente o debate sobre regras específicas para uso e monitoramento de sistemas de inteligência artificial em ambientes corporativos e financeiros.