Caverna de Denisova revela nova espécie bovina da Era Glacial
DNA antigo revela o Yak X, bovino da Era Glacial achado na Caverna de Denisova, enquanto caverna romena Movile abriga ecossistema tóxico que vive sem luz solar.

Paleontologia
Descoberta de uma nova espécie bovina na Era Glacial amplia o conhecimento sobre a fauna pré-histórica.
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Fragmentos de ossos anônimos da Caverna de Denisova, na Sibéria, renderam a identificação de uma nova espécie bovina da Era Glacial, batizada de “Yak X”, ao mesmo tempo em que outro laboratório europeu detalha o funcionamento de um ecossistema subterrâneo extremo na Caverna Movile, na Romênia, onde a vida prospera sem luz solar em um ar que seria perigoso para humanos.
Quais restos mortais foram encontrados na famosa caverna da Sibéria?
Na Caverna de Denisova, nas Montanhas Altai, no sul da Sibéria, pesquisadores do Centro de Paleogenética analisaram 20 fragmentos ósseos tão quebrados que nem sequer permitiam reconhecer o tipo de animal a olho nu. O sequenciamento de DNA desses ossos revelou que todos pertenciam a uma espécie bovina desconhecida, intimamente aparentada ao iaque moderno.
Os cientistas conseguiram gerar 20 genomas antigos a partir do material, algo considerado um feito técnico. A partir desses dados, concluíram que o Yak X forma uma linhagem própria, distinta de todos os bovinos vivos e extintos já descritos, e que se separou dos ancestrais do iaque atual há cerca de 400 mil anos.
Os fósseis mais antigos do Yak X encontrados na região têm idade estimada entre 250 mil e 200 mil anos, e o mais recente em torno de 27 mil anos. Isso indica que a espécie atravessa praticamente toda a Era Glacial, dividindo o mesmo cenário com humanos arcaicos e outros gigantes do gelo.
Foi na mesma Caverna de Denisova que surgiram os primeiros vestígios dos denisovanos, uma linhagem humana extinta. O Yak X teria convivido com esses hominíneos, além de mamutes-lanosos, rinocerontes-lanosos, cavalos e grandes predadores, como hienas-das-cavernas e ursos-pardos.
“É incomum, especialmente reconhecer uma espécie de mamífero de grande porte a partir de fragmentos pequenos e não identificáveis”, afirma o geneticista evolutivo Love Dalén, do Centro de Paleogenética, que reúne a Universidade de Estocolmo e o Museu Sueco de História Natural.
Segundo Dalén, pela proximidade genética com o iaque, o Yak X provavelmente se parecia mais com um iaque robusto do que com um bisão: corpo pesado, pelagem longa para enfrentar o frio intenso e chifres bem desenvolvidos.
Entenda o contexto
A Caverna de Denisova se tornou um dos sítios mais importantes do mundo para estudar a evolução humana e da megafauna. Além dos denisovanos — parentes próximos de neandertais e humanos modernos —, o local já havia revelado fósseis de mamutes, rinocerontes e outros grandes herbívoros da estepe gelada que cobria boa parte da Sibéria no auge do frio.
O Yak X se soma a esse mosaico, ajudando a reconstruir um ecossistema hoje desaparecido. Dalén lembra que alguns grupos humanos atuais ainda carregam traços de DNA denisovano, sinal de cruzamentos antigos, e que parte da alimentação desses hominíneos provavelmente vinha justamente de animais como o Yak X. “Parece razoável que o Yak X fizesse parte do cardápio dos denisovanos”, diz o pesquisador.
Como os cientistas identificaram uma espécie só pelo DNA
O trabalho mostra o salto tecnológico da paleogenética, campo que combina genética e paleontologia para estudar DNA preservado em fósseis. “Eu diria que isso está relacionado aos avanços no campo do DNA antigo, já que a genética é uma nova e poderosa fonte de informação aplicada a materiais antigos”, afirma Alexandre Gilardet, doutorando do Centro de Paleogenética e coautor do estudo.
Sem formas reconhecíveis, os ossos do Yak X poderiam ter sido descartados como “indeterminados” em uma escavação tradicional. Com o sequenciamento de DNA, porém, a equipe conseguiu não só identificar o grupo a que pertenciam como mapear a história evolutiva do animal.
Os pesquisadores observaram ainda o impacto de mudanças climáticas naturais sobre a espécie. “Com base no longo período de 200 mil anos de nossa amostragem, podemos observar que a espécie pode ter sofrido um declínio populacional durante um período de aquecimento há cerca de 120 mil anos e se extinguiu algum tempo depois de nossa amostra mais recente, há cerca de 27 mil anos”, explica Jonas Oppenheimer, pesquisador de pós-doutorado e coautor principal.
O Yak X teria dividido as planícies geladas com outros bovídeos, como o bisão das estepes e o auroque, ancestral selvagem do gado doméstico, em um ambiente conhecido como “estepe dos mamutes” — uma imensa faixa de pastagens frias, com invernos rigorosos e vegetação rasteira.
Por ora, o animal não recebe um nome científico formal: a equipe prefere usar o apelido “Yak X”, porque a descrição oficial de uma espécie costuma exigir características físicas detalhadas, algo difícil de obter com ossos tão fragmentados. Mesmo assim, a linhagem é considerada distinta pelas evidências genéticas.
Por que o ar dentro da caverna escondida sob um terreno comum pode ser perigoso para humanos?
Na Caverna Movile, perto de Mangalia, a poucos quilômetros da costa romena do Mar Negro, o perigo para humanos está na própria atmosfera subterrânea: pouco oxigênio e altas concentrações de gases como sulfeto de hidrogênio tornam o ar potencialmente tóxico sem proteção adequada.
Movile fica a cerca de 21 metros de profundidade e funciona como uma janela para um sistema de aquíferos subterrâneos maiores, ricos em enxofre. Lá embaixo, o ar é carregado por vapores que subem da água escura, formando um ambiente sufocante. A entrada é rigidamente controlada, e apenas equipes treinadas, com equipamentos de segurança, podem descer.
Apesar de hostil para pessoas, o lugar abriga um ecossistema único no planeta. Em vez de depender da luz solar, como quase todos os ambientes conhecidos na superfície, a Caverna Movile é sustentada por microrganismos que fazem quimiossíntese — um processo em que bactérias e arqueias usam a energia liberada pela oxidação de substâncias químicas, como sulfeto de hidrogênio, metano e amônio, para produzir matéria orgânica.
É como se a fotossíntese fosse substituída por uma “quimiofábrica” invisível. Sobre a água, uma película microbiana espessa cobre a superfície escura, alimentando uma cadeia alimentar inteira. Estima-se que 51 espécies de invertebrados vivam no sistema, 35 delas endêmicas, ou seja, que não existem em nenhum outro lugar.
Entenda o contexto
A Caverna Movile foi descoberta por acaso durante estudos de solo para a construção de uma usina, na década de 1980, e desde então se tornou referência em pesquisas sobre vida em ambientes extremos. O sistema guarda sinais de processos iniciados há entre 5,5 e 5,2 milhões de anos, quando mudanças geológicas na região do Mediterrâneo alteraram drasticamente o nível do mar e a circulação de águas subterrâneas.
Ao mostrar um ecossistema complexo sustentado sem luz, Movile interessa não só à biologia e à ecologia, mas também à astrobiologia — área que investiga como a vida poderia existir em outros planetas ou luas, onde a luz solar quase não chega à superfície. A lógica é parecida com a de fontes hidrotermais no fundo do oceano: se microrganismos conseguem aproveitar energia química em rochas e águas profundas na Terra, algo semelhante pode ocorrer em mundos como Europa (lua de Júpiter) ou Encélado (lua de Saturno).
Por ser tão singular e frágil, a caverna romena é tratada como laboratório natural. Qualquer alteração no ar, na água ou na temperatura poderia comprometer espécies que evoluíram isoladas por milhões de anos. Por isso, as autoridades científicas e ambientais do país mantêm acesso restrito e protocolos rígidos de visita.
Como as descobertas em cavernas ajudam a entender a Era Glacial
Denisova e Movile mostram, cada uma à sua maneira, por que cavernas são arquivos naturais da história da Terra. No caso siberiano, sedimentos preservam ossos minúsculos e traços de DNA que revelam espécies inteiras, como o Yak X, e ajudam a reconstruir a fauna que conviveu com humanos antigos em períodos de frio extremo e aquecimentos intermediários.
Na Romênia, a geologia e a química registrados dentro da caverna contam como mudanças no nível do mar e no fluxo de águas subterrâneas moldaram um ambiente fechado, capaz de sustentar vida independente do Sol. Esses dados alimentam modelos climáticos, estudos sobre ciclos de carbono e enxofre, e hipóteses sobre como a biosfera responde a transformações graduais que ocorrem ao longo de milhões de anos.
Na prática, os novos estudos tendem a estimular buscas semelhantes em outros sítios, inclusive em cavernas e abismos ainda pouco explorados na Ásia, Europa e também nas cavernas do Brasil, que podem guardar tanto fósseis de grandes mamíferos quanto microrganismos adaptados a condições extremas.
Ao mesmo tempo, cresce a pressão por políticas de conservação mais rígidas para ambientes subterrâneos. No caso de Denisova, a preocupação é preservar camadas de sedimentos que ainda podem esconder DNA de espécies desconhecidas. Em Movile, o desafio é equilibrar a curiosidade científica com o risco de perturbar um ecossistema que sobrevive, há milhões de anos, escondido sob um terreno aparentemente comum.


