Nasa prevê reentrada do satélite Swift hoje com risco no Brasil
Observatório Neil Gehrels Swift, da Nasa, deve reentrar de forma descontrolada na atmosfera nesta quarta (4), com baixa chance de destroços atingirem áreas habitadas, inclusive no Brasil.

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Satélite Swift pode cair na Terra hoje, com baixa probabilidade de impacto em regiões habitadas do Brasil.
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O satélite Neil Gehrels Swift Observatory, da Nasa, deve reentrar de forma descontrolada na atmosfera terrestre nesta quarta-feira (4), por volta das 5h30 no horário de Brasília, encerrando 22 anos de observações de explosões de raios gama e outros fenômenos extremos do Universo. A estimativa tem margem de erro de 11 horas, e há possibilidade de destroços atingirem a superfície em uma faixa que inclui parte do Brasil.
Satélite cai em faixa que inclui o Brasil
Com cerca de 1,45 tonelada, o Swift orbitava a Terra em baixa altitude, em uma trajetória inclinada cerca de 20,6° em relação à Linha do Equador. Isso restringe a área potencial de queda a uma faixa entre as latitudes 20,6° Norte e 20,6° Sul, que passa por regiões da América do Sul, da África e por vastas áreas oceânicas. No Brasil, essa faixa vai aproximadamente do Amapá até a altura de Vitória (ES).
A maior parte da estrutura deve se desintegrar ao atingir a atmosfera, viajando a cerca de 27 mil km/h e formando uma bola de fogo visível em caso de reentrada sobre áreas escuras. Componentes mais resistentes, como peças de tungstênio e partes dos espelhos, podem sobreviver ao aquecimento e alcançar o solo.
A Nasa estima em 1 em 2.100 a probabilidade de algum fragmento atingir e ferir uma pessoa em qualquer lugar do planeta — um risco considerado baixo pelos padrões internacionais de segurança espacial. Mesmo assim, agências espaciais e órgãos de defesa acompanham a trajetória em tempo real.
Segundo o Prof. Dr. Marcos Calil, do Setor de Observatório da Urânia Planetário, não há motivo para pânico, embora a faixa de reentrada inclua território brasileiro. “É importante separar possibilidade de previsão. O Brasil não pode ser descartado simplesmente por estar parcialmente dentro da faixa orbital do Swift, mas hoje não existe qualquer dado que permita afirmar que os destroços cairão no país”, afirma.
Entenda o contexto
O Swift foi lançado para uma missão inicial de dois anos em órbita baixa, dedicada a localizar com rapidez explosões de raios gama — eventos extremamente energéticos associados, por exemplo, à formação de buracos negros e à colisão de estrelas de nêutrons. Ao longo de 22 anos, o observatório detectou e acompanhou mais de 2 mil dessas explosões e forneceu dados usados em cerca de 7 mil artigos científicos, além de contribuir para estudos de supernovas, buracos negros supermassivos, cometas e asteroides.
O satélite acabou rebatizado em homenagem a Neil Gehrels, astrofísico que liderou a missão até sua morte. A equipe da Universidade Estadual da Pensilvânia coordenou as operações científicas ao longo de toda a vida útil do observatório.
O fim da missão foi oficializado em 20 de outubro, quando o Swift, a cerca de 275 km de altitude, entrou em modo de segurança e deixou de fazer observações. A essa altura, o satélite já havia perdido capacidade de manter a órbita, vítima do arrasto cada vez maior da atmosfera.
Por que o Swift está caindo?
Como a maioria dos satélites em órbita baixa, o Swift não tinha motores para correções frequentes de altitude. Ele foi colocado em órbita por um foguete e se manteve lá graças à alta velocidade, de aproximadamente 8 km por segundo. Aos poucos, porém, o atrito com as camadas superiores da atmosfera foi reduzindo essa velocidade, o que fez a órbita encolher.
Esse processo se acelerou com o aumento da atividade solar em 2024. As erupções do Sol aqueceram e expandiram as camadas altas da atmosfera, empurrando o ar para altitudes maiores. Com mais moléculas de ar no caminho, o satélite passou a sofrer mais arrasto do que o previsto, perdendo altitude mais rápido.
Para tentar salvar o observatório, a Nasa contratou a empresa Katalyst Space, por cerca de US$ 30 milhões, para desenvolver um satélite robótico de resgate, o LINK. A missão, lançada em julho, tinha como objetivo “agarrar” o Swift com braços robóticos e empurrá-lo para uma órbita mais alta. Problemas de controle de orientação e consumo excessivo de combustível, porém, inviabilizaram a manobra, que acabou cancelada em agosto.
Enquanto aguardava o resgate, a equipe responsável pelo Swift havia reduzido as observações e posicionado o satélite de forma mais aerodinâmica, para cortar o ar com menor resistência. Com o fracasso da tentativa, os cientistas decidiram religar os instrumentos para aproveitar os últimos meses de dados — manobras que, ao mudar repetidamente a orientação do satélite, acabaram acelerando ainda mais a queda.
Fim de uma era para a astronomia de altas energias
A reentrada descontrolada do Swift marca o fim de uma era na astronomia de raios gama e no estudo de fenômenos cósmicos de curtíssima duração. O observatório se tornou peça central de uma rede global de monitoramento: quando detectava uma explosão de raios gama, enviava alertas em segundos, permitindo que telescópios em solo e no espaço, como Hubble e James Webb, fossem rapidamente apontados para a mesma região do céu.
Com sua desativação, a comunidade científica perde uma ferramenta sem substituto imediato para esse tipo de detecção rápida. Pesquisadores avaliam que isso pode criar uma lacuna temporária na observação de alguns dos eventos mais energéticos do Universo, ao mesmo tempo em que pressiona por novos investimentos em missões dedicadas à astronomia de altas energias.
O episódio também joga luz sobre os desafios técnicos de prolongar a vida útil de satélites em órbita baixa e de realizar operações de resgate robótico em grande escala. O fracasso da missão do LINK tende a alimentar revisões de protocolos e o desenvolvimento de tecnologias mais robustas para serviços em órbita, área vista como estratégica por agências espaciais e empresas privadas.
Nesta quarta-feira, o foco de Nasa, Força Espacial dos Estados Unidos e agências parceiras está em acompanhar a janela de reentrada, atualizando em tempo real as estimativas de horário e local de queda dos destroços, caso algum fragmento chegue intacto ao solo.


