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China esconde US$ 400 bi em US bonds fora dos EUA, entenda como

China reduz oficialmente posição em títulos do Tesouro dos EUA para US$ 591 bi, mas uso de bancos no Canadá e Europa indica que parte das reservas segue aplicada, longe dos radares americanos.

China esconde US$ 400 bi em US bonds fora dos EUA, entenda como

Economia Global

País utiliza bancos estrangeiros para manter investimentos em títulos do Tesouro americano, apesar da redução oficial.

Leia também: França tenta evitar intervenção com dívida recorde de US$ 4 tri

A China and US bonds voltam ao centro das atenções depois que as reservas oficiais chinesas em títulos do Tesouro dos Estados Unidos caem para US$ 591 bilhões em agosto de 2026, enquanto saltos nas posições de Canadá e países europeus sugerem que Pequim segue comprando dívida americana por meio de custodiantes no exterior, longe do radar estatístico de Washington.

Os dados divulgados pelas autoridades americanas indicam uma queda expressiva em cinco anos, a partir de um pico de cerca de US$ 1 trilhão em títulos do Tesouro, em abril de 2022, para os atuais US$ 591 bilhões — bem abaixo dos US$ 700 bilhões registrados em agosto do ano passado. Na prática, porém, analistas veem mais mudança de rota do dinheiro do que retirada real.

O movimento ocorre em meio a tensões comerciais e geopolíticas entre as duas maiores economias do mundo e à ofensiva da China para reduzir a dependência do dólar, ao mesmo tempo em que o país precisa reciclar um superávit comercial recorde: foram US$ 1,2 trilhão em 2025 e já somam US$ 938 bilhões nos primeiros nove meses de 2026.

Por que a China estaria vendendo títulos do Tesouro dos EUA oficialmente, mas acumulando em custodiantes no Canadá e Bélgica?

Oficialmente, o Tesouro dos EUA só enxerga com clareza títulos custodiados em instituições com base no próprio país, o que faz com que papéis mantidos em bancos no exterior sejam registrados no nome do país do custodiante — e não do verdadeiro dono, como a China. É essa brecha estatística que Pequim estaria explorando para reduzir a exposição direta a sanções sem, necessariamente, abandonar os títulos americanos.

Nos últimos anos, o Canadá viu suas reservas em títulos do Tesouro darem um salto: passaram de US$ 169 bilhões em agosto de 2021 para US$ 465 bilhões em agosto de 2026. A Bélgica foi na mesma direção, de US$ 228 bilhões para US$ 490,5 bilhões no mesmo intervalo. Movimentos tão rápidos em centros financeiros usados tradicionalmente como praças de custódia levantam a suspeita de que parte desse dinheiro seja, na verdade, chinês.

“A evidência de que a China usa um custodiador canadense para algumas de suas agências é especialmente forte — note o salto repentino nas participações do Canadá e o grande impacto da pesquisa detalhada de junho em alguns pontos iniciais”, afirma Brad Setser, senior fellow no Council on Foreign Relations e ex-funcionário do Tesouro dos EUA.

Segundo Setser, desde 2020 há um aumento “enorme” de títulos americanos mantidos em custodiantes no Reino Unido, França, Luxemburgo e Bélgica. Quando somadas as posições oficiais da China com as fatias registradas nesses centros de custódia e no Canadá, as reservas reais de Pequim em dívida americana podem chegar a algo próximo de US$ 500 bilhões. Ele estima que, mesmo com ajustes de prazo e composição, os ativos em títulos e outros papéis americanos ainda representem de 50% a 55% do portfólio total de reservas chinesas.

“Ambos os portfólios do Tesouro e das Agências precisam ser ajustados para os títulos que a China mantém em custódia no Canadá e na Europa. Isso aumenta a incerteza em torno da estimativa, pois parece provável que a China esteja usando múltiplos custodiantes fora dos EUA para mascarar suas verdadeiras participações”, diz o economista.

Como a China pode ser uma compradora oculta de títulos do Tesouro dos EUA apesar dos dados oficiais mostrarem vendas?

A China consegue seguir como importante compradora de títulos americanos ao direcionar a maior parte de suas novas aplicações e parte das roladas de dívida para bancos globais com sede em países terceiros, como Canadá, Bélgica, Reino Unido, França e Luxemburgo. Na estatística oficial americana, essas posições aparecem como “reservas canadenses” ou “reservas belgas”, ainda que o beneficiário final seja o Banco Popular da China ou outras instituições estatais do país.

O mecanismo funciona assim: em vez de manter os papéis em contas abertas diretamente em custodiante americano em nome de uma autoridade chinesa, Pequim contrata um banco global com base em outra jurisdição. Esse banco compra e guarda os títulos do Tesouro dos EUA e de agências hipotecárias americanas em nome de veículos ligados à China, mas a posição entra na base de dados como ativo estrangeiro daquele centro financeiro, e não como ativo chinês.

Desse modo, os relatórios mensais de posições estrangeiras publicados nos EUA registram uma queda contínua das “reservas chinesas”, ao mesmo tempo em que mostram o aumento acelerado das posições de países que abrigam grandes custodiantes. Para analistas, esse descolamento sugere que Pequim está menos interessada em reduzir, de fato, a exposição à dívida americana e mais focada em tirar seus ativos da linha direta de fogo de sanções financeiras, caso o conflito com Washington escale.

Entenda o contexto

A ofensiva chinesa acontece após uma sucessão de choques: sanções financeiras amplas contra a Rússia, a partir de 2022, mostraram o poder de corte do sistema financeiro dominado pelo dólar; a guerra comercial iniciada pelo governo Donald Trump expôs a vulnerabilidade das cadeias de exportação chinesas; e, internamente, o país enfrenta demanda doméstica fraca, crise imobiliária prolongada e dívida elevada, reforçando a dependência das exportações.

Com superávits gigantescos e necessidade de aplicar esse dinheiro em ativos líquidos e seguros, os títulos do Tesouro dos EUA continuam quase insubstituíveis. Ao mesmo tempo, o governo chinês tenta acelerar a compra de ouro e diversificar parte da carteira em outras moedas e instrumentos. O uso de custodiantes em terceiros países aparece, nesse cenário, como um meio-termo: mantém a ancoragem no mercado de Treasuries, mas reduz a exposição política e a visibilidade dos dados para Washington.

Para os Estados Unidos, a dispersão geográfica das reservas chinesas torna mais difícil medir a real dependência de Pequim da dívida americana e a velocidade de qualquer processo de “desdolarização”. Para o mercado global, cresce a importância de praças como Toronto, Bruxelas, Londres, Paris e Luxemburgo como hubs discretos de reciclagem das reservas asiáticas.

A tendência, apontam analistas, é que a China amplie o uso de custodiantes internacionais e ajuste continuamente a composição de sua carteira entre Treasuries de longo prazo, títulos de curto prazo e outros papéis de agências, numa estratégia que mistura gestão de risco financeiro, cálculo geopolítico e uma tentativa de manter margem de manobra em eventual escalada de sanções ou novas rodadas da disputa com os EUA.

Fonte: matéria original