Egito se prepara para enviar tropas à guerra no Iêmen
Conselho de Defesa do Egito promete “todas as formas possíveis de apoio” à Arábia Saudita contra os houthis. Ataques aéreos matam crianças no Iêmen e tensão cresce no Oriente Médio.

Conflitos Internacionais
Egito intensifica apoio militar à Arábia Saudita em meio a crescentes ataques no Iêmen.
Leia também: Satya Nadella reflete sobre liderança e cultura de voz na Microsoft
O Conselho Nacional de Defesa do Egito autorizou neste domingo o apoio militar à Arábia Saudita na nova escalada da guerra contra os houthis no Iêmen e pediu ao parlamento permissão para enviar tropas e equipamentos ao exterior, após ataques aéreos que mataram civis, incluindo crianças, na província de Saada.
Egito endurece apoio à Arábia Saudita
Reunido sob a liderança do presidente Abdel-Fattah el-Sissi, o Conselho afirmou que fornecerá “todas as formas possíveis de apoio” para ajudar Riad a defender sua “segurança e estabilidade”. A nota não detalha números de soldados ou tipos de armamento, mas abre caminho para um envolvimento direto maior do Exército egípcio no conflito.
El-Sissi já havia dito que seu governo está pronto para adotar “qualquer medida” para defender a Arábia Saudita, um dos principais aliados regionais do Cairo. Para isso, solicitou que o parlamento, reunido desde este domingo e com deliberações previstas também para segunda-feira, autorize o envio de tropas e meios militares para fora do país.
Ao mesmo tempo, a presidência egípcia afirma que continuará a atuar em frentes diplomáticas, em coordenação com países da região e potências globais, numa tentativa de conter a escalada – ainda que a decisão de apoiar militarmente a coalizão saudita tenda a aumentar a intensidade dos combates.
Bombardeio mata crianças e encerra trégua no Iêmen
No terreno, a retomada da guerra já cobra um preço alto entre civis. Na província de Saada, reduto houthi no norte do Iêmen, um ataque aéreo atingiu uma casa no distrito de Sahar e matou ao menos nove pessoas, segundo o Ministério da Saúde controlado pelos rebeldes.
O porta-voz da pasta, Anees al-Asbahi, disse que entre os mortos estão cinco crianças e duas mulheres. Outras 19 pessoas ficaram feridas, incluindo 11 crianças, algumas em estado crítico. Al-Asbahi atribuiu o bombardeio à Arábia Saudita. Até o momento, o governo saudita não comentou o episódio.
O ataque marca o fim de um cessar-fogo de quatro anos na guerra civil iemenita e reacende um conflito que já provocou uma das piores crises humanitárias do mundo, com milhões de pessoas dependentes de ajuda internacional para sobreviver.
Queda de helicóptero aumenta tensão na fronteira
A escalada também atinge o território saudita. Um helicóptero de ataque caiu na região de Najran, no sudoeste do país, perto da fronteira com o Iêmen, matando os dois tripulantes. A aeronave operava em uma zona marcada por confrontos intensos entre os houthis e a coalizão liderada por Riad.
O porta-voz da coalizão, general Turki al-Maliki, afirmou que a queda foi causada por uma falha técnica. Horas antes, os houthis haviam reivindicado ter derrubado o helicóptero. A discrepância nas versões ocorre em meio à disputa narrativa entre os dois lados sobre quem detém vantagem militar na linha de frente.
Entenda o contexto
Os houthis, movimento político e religioso originário do norte do Iêmen, são apoiados pelo Irã e enfrentam o governo iemenita internacionalmente reconhecido, sustentado por uma coalizão chefiada pela Arábia Saudita. O Egito, aliado estratégico de Riad, vinha limitando seu papel sobretudo ao apoio político e logístico.
Com a decisão do Conselho de Defesa, o Cairo sinaliza disposição de assumir um papel mais ativo no campo de batalha, o que pode alterar o equilíbrio de forças e elevar o custo humano do conflito. Ao mesmo tempo, a movimentação tende a piorar as relações com Teerã, que tenta se projetar como peça central em qualquer negociação de cessar-fogo.
Para o Egito, o envolvimento direto traz riscos militares e políticos internos: o país pode se tornar alvo de retaliações de grupos ligados aos houthis e a outros atores alinhados ao Irã, além de enfrentar questionamentos domésticos sobre o custo e os objetivos da intervenção.
Colonos israelenses atacam fotógrafa e palestinos na Cisjordânia
Enquanto a guerra se intensifica no Iêmen, a tensão cresce também na Cisjordânia ocupada. Durante uma colheita de azeitonas na vila de Abu Falah, colonos israelenses atacaram palestinos e a fotojornalista americana Heidi Levine, que trabalhava para um veículo norte-americano.
Levine sofreu fraturas e passou por cirurgia na mão, além de ter costelas quebradas e outros ferimentos. Segundo ela, os agressores a derrubaram no chão e a espancaram por mais de dez minutos, roubando ainda sua câmera, passaporte e celular.
O embaixador dos Estados Unidos em Israel, Mike Huckabee, classificou o ataque como “um ato desprezível de terror cometido por covardes mascarados” e cobrou “investigação completa, prisão e julgamento até o limite da lei de todos que participaram” da ação. A polícia israelense também apura um ataque de colonos contra diplomatas europeus em outra comunidade da Cisjordânia.
O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu condenou “a violência contra qualquer pessoa”, mas se referiu ao ataque à fotógrafa como um incidente “supostamente” ocorrido, afirmando que as circunstâncias ainda precisam ser esclarecidas. Organizações de direitos humanos criticam a baixa taxa de responsabilização em casos de violência de colonos contra palestinos.
Os ataques acontecem em meio ao aumento da tensão antes das eleições israelenses marcadas para 27 de outubro, período historicamente associado à intensificação de disputas por terra e segurança na região.
Irã avalia proposta de fim de guerra com os EUA
No tabuleiro diplomático, o Irã afirma estar examinando a resposta dos Estados Unidos a uma proposta para encerrar a guerra que já se arrasta há oito meses em outra frente de conflito regional. Segundo o chanceler Abbas Araghchi, Teerã condiciona a reabertura de um importante estreito da região ao fim do bloqueio de seus portos, à liberação de ativos iranianos congelados e à suspensão de sanções sobre a venda de petróleo.
O presidente americano Donald Trump rejeitou publicamente as condições, mas a troca de mensagens indiretas continua, sinalizando que portas seguem entreabertas para uma negociação mais ampla sobre segurança regional e sanções econômicas.
Teerã também tenta reorganizar sua estrutura de defesa após a morte, em ataques anteriores, de seu antigo ministro da Defesa e de outras lideranças militares. O novo titular da pasta, Mehrdad Akhlaghi, prometeu uma resposta “surpreendente e extensa” a qualquer “erro de cálculo” de Israel ou dos Estados Unidos, enquanto o presidente iraniano Masoud Pezeshkian afirmou que o país não cederá a pressões externas.
A combinação de ofensivas militares no Iêmen, ataques de colonos na Cisjordânia e impasses diplomáticos entre Irã e Estados Unidos reforça o quadro de instabilidade generalizada no Oriente Médio, elevando o risco de que crises locais se conectem e dificultem qualquer esforço de desescalada nas próximas semanas.
Fonte: matéria original


