Decisão de Zanin pode elevar dólar hoje e agitar bolsa até 19h
Extensão do horário de votação para 19h no segundo turno acentua incerteza política, afeta humor de investidores e coloca em xeque o rali da bolsa e do dólar abaixo de R$ 5.

Mercado Financeiro
Ampliação do horário de votação no segundo turno gera volatilidade no câmbio e na bolsa de valores.
Leia também: PGFN libera renegociação com até 70% de desconto até jan/2027
A decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, de estender o horário de votação do segundo turno das eleições presidenciais das 17h para as 19h aumenta a incerteza sobre a apuração e a legitimidade do pleito, e já entra no radar de investidores que voltam a trabalhar com um cenário de maior volatilidade para a Bolsa de Valores de São Paulo (B3) e para o dólar na abertura desta segunda-feira.
No último pregão antes do segundo turno, a bolsa brasileira fechou em alta e o dólar ficou abaixo de R$ 5, sustentados pela combinação de expectativa de ajuste fiscal, possível queda da Selic e rali de ações de menor capitalização. A decisão judicial, porém, adiciona o risco de uma apuração mais longa e contestada, capaz de reverter parte desse movimento.
Como a incerteza na apuração das eleições afeta a bolsa de valores?
A ampliação do horário de votação para as 19h torna a apuração potencialmente mais lenta, mantém a disputa política em aberto por mais tempo e eleva o prêmio de risco exigido pelos investidores para ficar em ações brasileiras. Na prática, o mercado passa a precificar não só quem será o próximo presidente, mas também o risco de contestação do resultado e de ruídos institucionais.
Matheus Spiess, estrategista de ações da Empiricus Research, avalia que a esticada no horário, somada às dúvidas sobre como a decisão será aplicada, tende a reforçar a cautela. “A extensão do horário de votação, acompanhada de dúvidas sobre a aplicação da decisão e o andamento da apuração, pode intensificar esse movimento”, afirma. Para ele, “o cenário se tornou mais complexo diante dos questionamentos sobre o processo eleitoral”.
O aumento da incerteza torna mais difícil para o investidor formar convicção sobre política fiscal, trajetória dos juros e composição do próximo governo. Isso costuma se traduzir em realização de lucros na bolsa, busca por proteção em dólar e juros futuros mais altos, ao menos num primeiro momento. Spiess alerta que “a leitura inicialmente favorável do mercado pode perder força caso o episódio amplie a ansiedade dos investidores e prolongue a indefinição política”.
O reflexo já apareceu fora do país. O ETF EWZ, que replica ações brasileiras em Nova York e costuma servir de termômetro do apetite estrangeiro por Brasil, perdeu força após a notícia da decisão de Zanin, inclusive em sua versão tokenizada negociada no mercado de criptoativos, sinalizando mudança rápida de humor em relação aos ativos locais.
Por que o Ibovespa fechou em alta antes do segundo turno das eleições?
O Ibovespa fechou o último pregão antes do segundo turno em alta porque o mercado vinha apostando em ajuste fiscal a partir do novo governo e em uma queda mais forte da taxa Selic, cenário considerado pró-bolsa e, em especial, favorável às small caps. Desde o primeiro turno, o resultado das urnas e o ambiente de juros em queda alimentavam um rali concentrado em empresas menores e ligadas ao ciclo doméstico.
Após o primeiro turno, o Ibovespa acumulou alta de mais de 7%, enquanto o dólar caiu quase 5% e os juros futuros recuaram, movimento que beneficiou fundos multimercados posicionados no chamado “kit Brasil” — alta da bolsa, queda de juros e valorização do real. Em outubro, o índice Small Cap (SMLL) sobe 16%, desempenho bem acima dos 9% do próprio Ibovespa.
Mesmo com a disparada recente, as ações de menor capitalização ainda negociam com desconto relevante: as small caps são precificadas com deságio de 72% em relação às grandes empresas da bolsa, o que abre espaço para recuperação adicional, mas também expõe maior vulnerabilidade caso o corte de juros não venha na intensidade esperada.
Felipe Miranda, fundador da Empiricus, enxerga um ciclo de alta em andamento no mercado acionário local. “A Bolsa brasileira já entrou em um ciclo de alta e pode avançar mais 35%, impulsionada pela expectativa de ajuste fiscal após as eleições”, diz. Ao mesmo tempo, ele ressalva que “caso não haja ajuste fiscal, ele vê riscos para a renda fixa brasileira e prefere proteção em dólar, ouro, criptomoedas e ativos reais”.
Reação do dólar agora e dos juros em meio à disputa eleitoral
Entre o primeiro e o segundo turno, o dólar hoje real oscilou em queda, chegando a ser negociado abaixo de R$ 5, em sintonia com o maior apetite por risco no Brasil. A percepção era de que um governo comprometido com as contas públicas abriria espaço para corte mais agressivo da Selic, estimulando a entrada de capital estrangeiro em renda variável e reduzindo a busca por proteção cambial.
O movimento também foi acompanhado por uma trégua na curva de juros futuros, com taxas mais baixas refletindo a leitura de menor risco fiscal e inflação sob controle no horizonte relevante. Esse alívio ajudou a impulsionar setores sensíveis a juros, como varejo, construção civil e bancos médios, além das small caps em geral.
A decisão de Cristiano Zanin surge como um ponto de inflexão potencial nesse quadro. Se a extensão do horário de votação for percebida como gatilho para questionamentos prolongados do resultado, o mercado pode reverter parte do otimismo, com dólar em alta, juros em aperto e correção de preços na Bolsa de Valores Brasil já no início da semana.
Entenda o contexto
A disputa entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chega ao segundo turno com diferença apertada e forte polarização. Ao longo da apuração, parciais oficiais indicam vantagem do petista. Em um recorte com 76,98% das urnas contadas, Lula aparece com 51,17% dos votos válidos, ante 48,83% de Flávio Bolsonaro. Em outro momento, com 99,32% das urnas apuradas, a distância se mantém: 51,75% para Lula e 48,25% para o candidato do PL.
Para o mercado, o ideal é um desfecho rápido e incontestável, que permita concentrar a análise nas propostas econômicas do vencedor e no desenho da política fiscal a partir do próximo mandato. Quanto maior a sombra de judicialização, mais lenta tende a ser essa transição, o que se traduz em prêmios de risco mais altos para ações, câmbio e juros.
Diferenças de estratégia entre gestores refletem esse quadro. Casas como Legacy Capital, Opportunity e Dahlia aproveitaram o rali das small caps e mantêm exposição relevante à Bolsa de Valores São Paulo, apostando em queda estrutural dos juros e recuperação da economia doméstica. Já gestores como Reach Capital e Occam preferiram reduzir a parcela de bolsa em seus portfólios diante da combinação de incerteza política interna e ambiente externo mais frágil.
Cenário externo: fragilidade dos EUA eleva aversão global ao risco
Enquanto a política brasileira concentra a atenção local, a economia dos Estados Unidos dá sinais de perda de fôlego que também pesam sobre o apetite por risco em mercados emergentes, incluindo o Brasil. A inflação ao consumidor americana acelerou de 3,4% para 3,7% em setembro, o que dificulta uma queda mais rápida dos juros por lá, ao mesmo tempo em que alguns indicadores de atividade começam a enfraquecer.
Mark Zandi, da Moody’s Analytics, chama atenção para o mercado de trabalho. “A criação de empregos ficou praticamente estagnada no último ano quando excluído o setor de saúde”, afirma. A confiança das pequenas empresas também recuou em setembro, com empresários relatando desaceleração das vendas, movimento que historicamente antecede períodos de contração econômica.
Esse quadro de inflação ainda relativamente alta com atividade perdendo força alimenta a aversão global ao risco. Em Nova York, as bolsas têm alternado sessões de queda, e a busca por ativos considerados seguros, como títulos do Tesouro americano, limita o fluxo de capital para a Bolsa de Valores Brasil e pressiona o valor do dólar hoje nos mercados emergentes.
Para o investidor local, o recado é duplo: além de acompanhar de perto a evolução da apuração e a resposta das instituições à decisão de Zanin, será preciso monitorar o humor lá fora. A combinação de incerteza eleitoral, necessidade de ajuste fiscal e economia global mais fraca pode tornar os próximos pregões de Notícias bolsa de valores hoje especialmente sensíveis a qualquer manchete nova, seja em Brasília, seja em Washington.


