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Política

Derrotado por Lula, Flávio Bolsonaro perde foro em 2027

Após perder a eleição presidencial para Lula e encerrar o mandato no Senado em fevereiro de 2027, Flávio Bolsonaro ficará sem cargo público e sem foro privilegiado pela primeira vez em 24 anos.

Derrotado por Lula, Flávio Bolsonaro perde foro em 2027

Política

Flávio Bolsonaro deixará de ter foro privilegiado e cargo público após o fim do mandato no Senado em 2027.

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Derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva na eleição presidencial, com 48,21% dos votos contra 51,79%, o senador Flávio Bolsonaro deixará de exercer cargo público e perderá o foro privilegiado a partir de fevereiro de 2027, abrindo caminho para que responda a investigações na justiça comum, sobretudo no Rio de Janeiro.

Derrota apertada, contestação e fim de ciclo

Com 100% das urnas apuradas, Lula somou 64,3 milhões de votos, enquanto Flávio recebeu 59,8 milhões. A diferença consolidou a vitória do petista, mas o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro não reconhece o resultado. Ele chamou a apuração de “sacanagem” e afirmou ser “impossível” admitir a derrota, anunciando que tentará anular o pleito.

Flávio permanece senador até a posse dos eleitos, em fevereiro de 2027. Encerrado o mandato, será a primeira vez em 24 anos que ele ficará fora de qualquer cargo eletivo, desde que iniciou a carreira na política em 2003 como deputado estadual no Rio de Janeiro, posição que ocupou por quatro mandatos antes de chegar ao Senado.

No plenário, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, reconheceu o peso político da votação alcançada por Flávio em meio à polarização. “O Senado viu um de seus membros disputar a eleição num país dividido. Um colega senador disputou e teve 60 milhões de votos, e isso não é pouca coisa”, disse Alcolumbre, ao também parabenizar Lula pela vitória.

O que muda com o fim do foro privilegiado

Até fevereiro de 2027, Flávio segue com foro privilegiado junto ao Supremo Tribunal Federal (STF), por ocupar cargo de senador. A partir do fim do mandato, perde essa proteção e volta a poder ser investigado e processado pela justiça comum em novos casos.

As apurações já abertas no STF, contudo, permanecem nos tribunais superiores. Em decisão tomada em 2025, a Corte fixou que investigações sobre crimes supostamente cometidos no exercício e em razão do cargo continuam sob competência das instâncias superiores mesmo após o político deixar a função.

Na prática, o encerramento do mandato tende a facilitar o avanço de novos inquéritos e ações penais em primeira instância, enquanto os procedimentos já em curso no STF seguem seu ritmo, agora sem a blindagem política que o cargo no Senado confere.

Entenda o contexto

Hoje, foro privilegiado é a regra que define que certas autoridades — como presidente, ministros e parlamentares federais — são julgadas por tribunais superiores, e não por juízes de primeira instância. A justificativa formal é proteger o exercício do cargo de eventuais perseguições, mas o mecanismo é alvo de críticas por ser visto como um escudo para retardar ou barrar investigações.

No caso de Flávio, a mudança de foro coincide com o momento em que ele deixa o Congresso após duas décadas de mandatos consecutivos. O fim dessa sequência também reconfigura o peso da família Bolsonaro no Parlamento, reduzindo a presença direta do clã nos debates e articulações legislativas.

Investigações sobre filme e suspeita de lavagem

Flávio Bolsonaro é formalmente alvo de duas investigações no STF. A primeira envolve o financiamento do filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Áudios e documentos apontam que o senador negociou com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro um investimento de R$ 130 milhões no projeto. Desse montante, Vorcaro chegou a pagar R$ 61 milhões.

Em um dos áudios atribuídos ao senador, ele fala diretamente ao empresário sobre a pressão em torno dos repasses. “Irmão, preferi te mandar o áudio aqui para você ouvir com calma. […] Eu sei que você está passando por um momento dificílimo aí também, essa confusão toda, você sem saber exatamente como é que vai caminhar isso tudo. E apesar de você ter dado a liberdade, Daniel, de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando, tá?”, diz Flávio em mensagem enviada a Vorcaro.

Os investigadores apuram se o esquema de financiamento do filme configurou uso irregular de recursos e eventual vantagem indevida para o grupo político da família Bolsonaro.

A segunda frente de apuração diz respeito ao advogado Willer Tomaz, investigado por suspeita de lavagem de dinheiro. A Polícia Federal encontrou troca de e-mails que apontam Flávio como “usuário master” de uma conta bancária ligada a Tomaz, o que, para os investigadores, indicaria “acesso operacional relevante” ao dinheiro movimentado e possível participação econômica de fato na empresa associada à conta.

Flávio e Willer Tomaz afirmam ser amigos, mas negam qualquer sociedade ou negócio em conjunto.

Atuação discreta no Senado e aumento patrimonial

Metade do mandato de oito anos de Flávio no Senado coincidiu com a presidência de Jair Bolsonaro. Nesse período, ele assumiu a presidência da Comissão de Segurança Pública, área que sempre apresentou como sua principal bandeira.

A atividade legislativa, no entanto, foi considerada modesta: em todo o mandato, apenas dois projetos de sua autoria viraram lei, nenhum deles diretamente ligado à segurança pública. Ao mesmo tempo, o patrimônio declarado do senador cresceu de R$ 1,7 milhão para R$ 8,1 milhões.

Esse salto patrimonial e as suspeitas envolvendo operações financeiras reforçam, entre investigadores e adversários políticos, a expectativa de que a saída de Flávio do Senado e o fim do foro especial abram espaço para aprofundar a apuração sobre a origem dos recursos do ex-candidato à Presidência.

Pressão jurídica e disputa política à frente

Ao rejeitar o resultado das urnas e anunciar que tentará anulá-lo, Flávio alimenta um contencioso que pode se prolongar na Justiça Eleitoral e manter o ambiente político tensionado. Paralelamente, o calendário joga contra ele: dentro de pouco mais de três meses, termina o mandato e começa um novo capítulo, em que o ex-senador passa a responder como qualquer cidadão às investigações que não estejam no STF.

Enquanto aliados se mobilizam para manter sua influência na direita e reorganizar o grupo bolsonarista sem a vitrine de um mandato federal, o Judiciário ajusta o tabuleiro para lidar com um investigado de alto perfil já sem as proteções do foro privilegiado.