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Inteligência Artificial

Desigualdade em IA afeta 30% das classes D/E no Brasil hoje

Índice Reglab mostra avanço no conhecimento sobre tecnologia e inteligência artificial no Brasil, mas revela forte desigualdade entre classes sociais e alerta para letramento tecnológico.

Desigualdade em IA afeta 30% das classes D/E no Brasil hoje

Inteligência Artificial

Estudo revela disparidades no acesso à tecnologia entre diferentes classes sociais brasileiras.

Leia também: Uso de IA no marketing cresce 88% em 2 anos, mas falta preparo

A terceira edição do Índice Reglab de Confiança e Segurança na Economia Digital mostra que o conhecimento dos brasileiros conectados sobre o ecossistema digital cresceu, mas escancara uma nova face da exclusão: enquanto o acesso e a familiaridade com ferramentas de inteligência artificial são quase universais na classe A, quase um terço das pessoas das classes D/E ainda desconhece as principais tecnologias de IA em uso no país.

Conhecimento digital cresce, mas com forte recorte de classe

De acordo com o levantamento, 69,2% dos brasileiros conectados afirmam conhecer todas as 26 plataformas avaliadas no terceiro trimestre de 2026, alta em relação ao trimestre anterior. Quando o recorte é por renda, porém, o cenário muda: 83,6% dos entrevistados da classe A conhecem todas as plataformas, contra 62,8% nas classes D/E.

A distância aumenta quando entram em cena as ferramentas de inteligência artificial. Entre os mais ricos, 97,3% dizem conhecer tecnologias de IA. Nas classes D/E, essa fatia cai para 85,4%. Considerando especificamente as quatro principais ferramentas avaliadas — ChatGPT, Gemini, Claude e Perplexity —, 92,7% dos entrevistados da classe A conhecem todas, enquanto apenas 69,2% das pessoas das classes D/E têm essa familiaridade.

Na prática, quase um terço dos brasileiros das classes mais baixas segue à margem do uso das principais ferramentas de IA. Para Marina Garrote, diretora de operações e pesquisa do Reglab, esse cenário exige ação imediata. “É necessário letramento tecnológico para evitar que as classes mais baixas fiquem para trás no conhecimento sobre IA”, afirma.

Entenda o contexto

O índice mede, trimestre a trimestre, o quanto os brasileiros conectados conhecem e confiam em 26 plataformas digitais, entre redes sociais, serviços de streaming, ferramentas de inteligência artificial e serviços de governo digital. A pesquisa é quantitativa, com recorte por classe social e faixa etária, e busca orientar políticas públicas e estratégias privadas para a economia digital.

Em média, o conhecimento sobre ferramentas de IA vem avançando de forma consistente. O percentual de brasileiros conectados que dizem conhecer esse tipo de tecnologia subiu de 84,7% no primeiro trimestre de 2026 para 89,5% no terceiro. Mesmo assim, o ritmo de inclusão é desigual e tende a reproduzir as já conhecidas clivagens sociais do país.

Plataformas mais e menos conhecidas

Entre as plataformas avaliadas, serviços populares e consolidados aparecem no topo da lista de conhecimento: YouTube é citado por 99,9% dos entrevistados, seguido por Gov.br (99,7%), Instagram (99,5%), Facebook (99,2%), iFood (99,1%) e Netflix (98,9%). Nesses casos, a distância entre as classes é menor, assim como nas categorias de streaming e governo digital, em geral.

Na outra ponta, as ferramentas de IA mais recentes ainda têm alcance limitado, especialmente entre os mais pobres. Perplexity é conhecida por 80,8% dos brasileiros conectados e Claude, por 81,2%, índices bem inferiores aos das grandes plataformas de vídeo, redes sociais e serviços públicos digitais.

Confiança em redes sociais sobe, mas conteúdo segue sob desconfiança

O Índice Reglab também mapeia o grau de confiança dos brasileiros nas plataformas e nos conteúdos digitais. Nas redes sociais, a pesquisa identifica um comportamento particular: os usuários confiam mais no ambiente das plataformas do que nas publicações que circulam nelas.

Da segunda para a terceira edição do estudo, a confiança nas redes sociais subiu de 63% para 73%. Já a confiança nos conteúdos publicados nelas avançou de 55% para 72%. Ainda que a distância tenha diminuído, a avaliação segue mais crítica quando o foco é o que aparece no feed.

Para Thais Palanca, pesquisadora e autora do estudo, a explicação está na própria lógica das redes, baseadas em conteúdo publicado diretamente pelos usuários, sem mediação prévia. “O problema não é o funcionamento da plataforma, mas a qualidade da informação. As regras de moderação e transparência precisam focar na qualidade do conteúdo que chega ao usuário”, diz.

Esse padrão contrasta com outras categorias analisadas — como streaming, inteligência artificial e governo digital —, em que a confiança na plataforma e no conteúdo tende a ficar em patamares mais próximos.

Classe social ainda dita quem confia mais no digital

A pesquisa aponta que a classe social continua sendo o principal fator de diferenciação na confiança em ambientes digitais. A classe A registra os maiores níveis de confiança, seguida por B, C e, por último, D/E. Ou seja, quem tem mais renda não só conhece mais ferramentas como também se sente mais seguro ao usá-las.

O recorte etário mostra um movimento de aproximação entre gerações. No início do ano, a diferença de confiança em IA entre jovens de 18 a 34 anos e pessoas com 45 anos ou mais era de 7,1 pontos. Nos trimestres seguintes, essa distância encolheu para patamares próximos de 2,5 pontos, resultado de um aumento da confiança entre os mais velhos e de uma leve queda entre os mais jovens.

Confiança digital muda pouco e exige ações de longo prazo

Um dos recados mais contundentes do Índice Reglab é que confiança digital não se altera da noite para o dia. A maioria dos entrevistados manteve, no terceiro trimestre, a mesma avaliação que já tinha feito das plataformas anteriormente.

Entre quem demonstrava menor confiança, 77% permaneceram com a mesma percepção. Entre aqueles com níveis mais altos de confiança, 70% também mantiveram sua posição. Para Pedro Henrique Ramos, diretor-executivo do Reglab, isso mostra que campanhas pontuais têm alcance limitado. “A confiança no ambiente digital se parece mais com uma característica estável de cada pessoa do que com uma opinião que muda conforme o momento”, afirma.

Na avaliação do pesquisador, o dado tem implicações diretas para governos e empresas que atuam no setor. Estratégias baseadas apenas em ações isoladas tendem a produzir pouco efeito. Construir (ou recuperar) confiança demanda investimento constante em segurança, transparência e qualidade da informação oferecida aos usuários.

Letramento tecnológico e inclusão como próximos passos

Os resultados da terceira edição do índice reforçam a urgência de políticas de letramento tecnológico que cheguem especialmente às classes D/E. Sem esse movimento, a popularização de ferramentas de IA pode aprofundar desigualdades já existentes em educação, trabalho e acesso a serviços públicos digitais.

Pesquisadores e especialistas ligados ao estudo defendem que iniciativas públicas e privadas foquem não apenas em ampliar o acesso físico às tecnologias, mas também em ensinar o uso crítico e produtivo dessas ferramentas, desde a escola até programas de qualificação profissional. Ao mesmo tempo, reforçam que uma regulação voltada à qualidade da informação nas plataformas é peça central para que a confiança no ambiente digital possa, aos poucos, acompanhar o avanço do conhecimento tecnológico.