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Política

MP pede 51 anos de prisão para Renato Cariani por tráfico em SP

Ministério Público de SP pede condenação de Renato Cariani por associação para o tráfico, tráfico de insumos químicos e lavagem de dinheiro em esquema ligado à produção de crack e cocaína.

MP pede 51 anos de prisão para Renato Cariani por tráfico em SP

Justiça

Ministério Público de São Paulo solicita longa pena para Renato Cariani em caso de tráfico e lavagem de dinheiro.

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O Ministério Público de São Paulo apresentou nesta quarta-feira (28) as alegações finais do processo contra o empresário e influenciador digital Renato Cariani e pediu sua condenação por associação para o tráfico, tráfico de insumos químicos usados na produção de drogas e lavagem de dinheiro, em um caso que envolve o desvio de produtos da empresa Anidrol para o refino de crack e cocaína em Diadema, na Grande São Paulo.

De acordo com a acusação, a soma das penas requeridas pode levar Cariani a cumprir até 51 anos de prisão em regime fechado. Ele responde ao processo em liberdade e nega todas as acusações.

Quem é Renato Cariani e qual a acusação contra ele?

Renato Cariani é empresário do ramo de produtos laboratoriais, sócio da Anidrol Produtos para Laboratórios, em Diadema, e influenciador digital com mais de 11 milhões de seguidores no Instagram, conhecido no universo fitness. Para o MP-SP, porém, ele também é um dos responsáveis por um esquema que teria desviado insumos químicos para abastecer o narcotráfico com matéria-prima para crack e cocaína.

O caso é fruto da Operação Hinsberg, deflagrada pela Polícia Federal em dezembro de 2023, que mirou fraudes na venda de reagentes químicos de uso controlado. Segundo a denúncia, a Anidrol simulou 59 vendas de insumos a empresas que não haviam feito pedidos, apenas para justificar, nos registros fiscais, a saída do material que, na prática, seria entregue a grupos ligados ao tráfico.

Esses insumos, ainda conforme a promotoria, eram usados em larga escala no refino de cocaína e na produção de crack, o que, para os investigadores, tem impacto direto na segurança pública e na saúde da população, por alimentar a oferta de drogas ilícitas.

Como o caso de desvio de insumos está relacionado a Renato Cariani?

Os promotores do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) afirmam que Cariani não apenas sabia do desvio, como participou ativamente. No processo nº 1007223-86.2023.8.26.0161, o MP descreve que, por 59 vezes, a empresa simulou vendas a clientes que não reconheceram as operações, e que o próprio empresário teria feito pedidos fictícios para dar aparência de legalidade à saída dos produtos.

Mensagens extraídas do celular de Cariani são usadas como peça central da acusação. De acordo com o Gaeco, essas conversas mostram que ele mantinha relação próxima com o policial civil Anadré Dziuba, ligado à área de controle de produtos químicos usados no refino de drogas. Nas trocas de mensagens, Cariani receberia informações sobre diligências, opinaria sobre fiscalizações e chegaria a sugerir empresas para serem alvo de inspeções, o que, para os promotores, indicaria tentativa de proteger a própria cadeia de fornecimento e prejudicar concorrentes.

Em uma das conversas citadas pela promotoria, ao ser questionado pelo policial sobre determinada substância, Cariani teria respondido que o produto era “utilizado para aumentar o rendimento da cocaína”. Para o MP, isso demonstra que ele tinha plena ciência do uso ilícito dos insumos fornecidos pela empresa.

Entenda o contexto

A Operação Hinsberg foi aberta depois que a farmacêutica AstraZeneca comunicou ao Ministério Público movimentações suspeitas em notas fiscais emitidas pela Anidrol, de produtos químicos que a empresa não reconhecia como seus. A partir daí, a PF rastreou pagamentos, e-mails e depósitos em espécie associados a vendas simuladas de reagentes.

Para o Gaeco, o esquema funcionava em cadeia: a Anidrol emitia notas falsas, intermediadores cuidavam da ligação com compradores do tráfico e um operador financeiro movimentava o dinheiro, sempre buscando dar aparência de legalidade às transações. O modelo, segundo a acusação, escancara fragilidades no controle de insumos sensíveis, com potencial de abastecer laboratórios ilegais de drogas em grande escala.

O que o Ministério Público de São Paulo acusa Renato Cariani de fazer?

O MP-SP atribui a Cariani três tipos de crime principais: associação para o tráfico, tráfico de insumos químicos destinados à fabricação de drogas e lavagem de dinheiro. A acusação sustenta que ele integrava uma associação criminosa dedicada a fraudar a comercialização de substâncias controladas, com atuação reiterada e organizada.

Na peça de alegações finais, os promotores afirmam que a empresa de Cariani “simulou” dezenas de vendas para ocultar que os produtos seriam remetidos a grupos ligados ao narcotráfico. A cada nota forjada, haveria um desvio de material para abastecer cozinhas de refino de cocaína e laboratórios de crack.

O documento também descreve que o influenciador tinha conhecimento de falhas internas no próprio controle de estoque da Anidrol, e que isso permitia saídas de produtos sem registro adequado. Para o MP, esse cenário reforça a tese de que não se tratava apenas de descuido administrativo, mas de um esquema estruturado para desviar insumos.

Qual é o envolvimento de Fábio Spindola Mota e Rodrigo Gomes Pereira?

Além de Cariani, o MP-SP pede a condenação de Fábio Spindola Mota e Rodrigo Gomes Pereira pelos mesmos crimes. Fábio é apontado como o elo entre a Anidrol e compradores ligados ao tráfico. Ele teria sido responsável pela venda prática dos insumos, pela criação de um e-mail falso em nome de um suposto funcionário da AstraZeneca e pela negociação da entrega dos produtos para grupos criminosos.

Rodrigo, por sua vez, é acusado de operar a parte financeira do esquema. De acordo com a acusação, ele realizava depósitos em espécie e promovia operações bancárias destinadas a “esquentar” os valores obtidos com as vendas irregulares, caracterizando o crime de lavagem de dinheiro.

O Gaeco sustenta que a atuação combinada dos três permitia que o desvio funcionasse em larga escala: a empresa liberava os produtos, o intermediador encaminhava ao mercado ilegal e o operador financeiro tentava desligar o dinheiro de sua origem criminosa.

Qual a pena que Renato Cariani pode receber pelo tráfico de drogas?

Se a Justiça aceitar integralmente o pedido do Ministério Público, Renato Cariani e os demais réus podem receber penas que vão de 16 anos e 4 meses até 51 anos e 8 meses de prisão, além do pagamento de multas. O cálculo inclui a acusação de associação para o tráfico, 59 crimes de tráfico de insumos químicos e 59 crimes de lavagem de dinheiro.

Segundo o advogado criminalista Anderson Almeida, ouvido pela reportagem, o valor final considera ainda um aumento pela chamada continuidade delitiva, quando a Justiça entende que vários crimes da mesma espécie formam uma sequência ligada. “Se a Justiça aceitar integralmente o pedido do Ministério Público, cada réu poderá receber uma pena de 16 anos e 4 meses a 51 anos e 8 meses de prisão, além de multas”, disse o especialista.

Mesmo assim, o cumprimento efetivo da pena tem um teto: pela legislação penal, o limite máximo de encarceramento é de 40 anos, independentemente da soma das penas fixadas na sentença.

Qual é a defesa de Renato Cariani diante das acusações de tráfico e lavagem de dinheiro?

A defesa de Renato Cariani afirma que o pedido de condenação não surpreende e que vai trabalhar para demonstrar a improcedência das acusações. Em nota, o advogado Aldo Romani Netto declarou “receber com naturalidade o pedido de condenação formulado pelo Ministério Público”.

“Como parte acusadora, o órgão sustentou a tese que vinha defendendo desde o início da ação penal, e o pedido não representa nenhuma surpresa. O processo se encontra agora em fase de alegações finais defensivas. Nela, a defesa irá responder a cada uma das teses apresentadas pelo Ministério Público e demonstrar, com base na prova produzida ao longo da instrução, que elas são improcedentes”, afirmou Romani.

Ele acrescentou ainda: “Confiamos que o Poder Judiciário fará, ao final, um julgamento justo, pautado pela análise isenta da prova. Temos convicção de que esse julgamento conduzirá à absolvição de Renato Cariani”.

A defesa dos outros dois réus ainda não se manifestou publicamente. O MP-SP, por outro lado, pediu a absolvição de duas ex-investigadas: Roseli Dorth, sócia de Cariani na Anidrol, e Andréia Domingues Ferreira, que haviam sido citadas na fase inicial das apurações.

Com a entrega das alegações finais da acusação, o processo entra na etapa das manifestações da defesa. Depois dessa fase, o caso fica pronto para sentença, que caberá ao Judiciário de São Paulo e pode se tornar um dos julgamentos mais emblemáticos sobre desvio de insumos químicos e abastecimento do tráfico no estado.