Flávio Bolsonaro foge e divulga carta golpista nos EUA hoje
Derrotado por 4,4 milhões de votos, senador saiu do Brasil driblando ordem para entregar passaporte, se diz perseguido, questiona eleição sem provas e promete liderar oposição dos EUA.

Política
Senador Flávio Bolsonaro deixa o Brasil após derrota eleitoral e divulga carta contestando resultados e prometendo oposição nos EUA.
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Derrotado na eleição presidencial por Luiz Inácio Lula da Silva, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deixou o Brasil rumo aos Estados Unidos após uma operação de fuga e divulgou nesta quarta-feira (28) uma carta de teor golpista em que primeiro se autoproclama “presidente eleito” e depois se rebatiza como “líder do Brasil”, contestando sem apresentar provas a legitimidade do resultado.
Fuga em rota pela Argentina e chegada a Miami
Flávio saiu de Brasília na terça-feira, em meio à ordem do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para recolhimento de seu passaporte no âmbito de uma investigação por suspeita de lavagem de dinheiro, acusação que ele nega. O senador seguiu por terra até a fronteira com a Argentina, onde embarcou em um avião particular rumo ao Equador e, de lá, para os Estados Unidos.
O desembarque em Miami, na Flórida, ocorreu na manhã desta quarta. Já em solo americano, o parlamentar afirmou que permanecerá no exterior para, segundo ele, continuar atuando politicamente sem risco de prisão no Brasil. Na carta e em mensagens a aliados, rejeitou o termo “fuga” e tentou enquadrar sua saída como exílio político.
“Não fugi do Brasil, eu saí pelo Brasil, saí de um regime de exceção para poder ser o líder que o meu povo merece, pois calado, preso e censurado, como meu pai está, eu não poderia ser essa liderança”, afirmou o senador.
Carta muda de “presidente eleito” para “líder do Brasil”
A manifestação escrita foi publicada horas após a chegada aos EUA. Na primeira versão, divulgada em sua conta no X, Flávio se apresentou à comunidade internacional como “verdadeiro presidente eleito do Brasil”, apesar da derrota por 4,4 milhões de votos para Lula no segundo turno. Em seguida, editou o texto e trocou o termo por “líder do Brasil”.
Em um dos trechos, manteve o tom de autoproclamação e convocação de seguidores: “Este é apenas o começo da nossa luta pela democracia, pelos direitos humanos e pela liberdade no Brasil. Quero dizer, não só para os meus 60 milhões de eleitores, mas para o povo brasileiro, que eu sou o presidente eleito e os criminosos que roubaram a eleição do Brasil são parte de uma organização criminosa que implementou uma tirania. Vocês que almejavam a mudança, e eu não vou abandoná-los, eu serei a voz e a liderança livre da nossa nação”, escreveu.
Em outro momento, Flávio compara sua situação à de lideranças que atuaram no exílio, citando nomes como o jurista Rui Barbosa e opositores venezuelanos, entre eles Juan Guaidó, numa tentativa de sustentar que sua saída é parte de uma “estratégia de resistência” e não fuga de investigações.
Erro com brasão antigo e “Estados Unidos do Brazil”
A carta também chamou atenção pelo simbolismo escolhido. Na primeira versão, Flávio estampou um brasão antigo do Brasil, já sem validade oficial desde 28 de maio de 1968, acompanhado da legenda “Estados Unidos do Brazil”, com grafia arcaica. Só em versões posteriores o documento passou a exibir o brasão em vigor, adotado oficialmente em 1º de setembro de 1971, e a grafia atual “Brasil”.
O uso do símbolo desatualizado e da expressão “Estados Unidos do Brazil” alimentou críticas de adversários e virou motivo de chacota nas redes sociais, levando aliados a apressarem a substituição pela arte correta.
Acusações sem provas contra eleição e Judiciário
Ao longo do texto, Flávio Bolsonaro sustenta que houve fraude no segundo turno, sem apresentar qualquer evidência. Ele afirma ter visto “uma fraude eleitoral se concretizar” na noite da votação, ataca a Justiça Eleitoral, acusa o governo Lula de abuso de poder político e econômico e defende a cassação da chapa adversária.
Um dos focos das críticas é a decisão que prorrogou o horário de votação em seções específicas até as 19h, tomada pelo ministro Cristiano Zanin, do STF, a pedido do PT, por causa da ausência de transporte público na Bahia, e confirmada pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques. Flávio alega, sem base, que a medida teria alterado o resultado e afirma que a atuação do ministro foi “ilegítima e ilegal”.
“A atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula permitiu que uma impossibilidade matemática se concretizasse e Lula acrescentasse mais de 10 milhões de votos do primeiro para o segundo turno”, atacou o senador.
Dados oficiais do TSE, porém, indicam que apenas 34 mil votos foram registrados após as 17h no dia da eleição — número considerado irrelevante para a disputa nacional que terminou com vitória de Lula por 4,4 milhões de votos. A eleição foi reconhecida pelo Congresso, pela comunidade internacional e pelo próprio PL, em nota assinada pelo presidente da sigla, Valdemar Costa Neto.
Entenda o contexto
A carta e a fuga ocorrem três dias depois do segundo turno, em meio à escalada de declarações de Flávio contra o sistema eleitoral. Logo após o resultado, ele anunciou que não aceitaria a derrota e prometeu pedir a anulação do pleito, o que não foi levado adiante por sua equipe jurídica. Também propagou informações falsas sobre suposta expulsão de fiscais do PL de seções eleitorais, desmentidas posteriormente pela Justiça Eleitoral.
Paralelamente, o senador é alvo de investigações que incluem suspeita de lavagem de dinheiro, o que motivou a ordem de recolhimento de passaporte por Alexandre de Moraes. Flávio diz ser vítima de perseguição política e afirma que permanecer no Brasil significaria “tornozeleira, prisão domiciliar e eventual condenação”, ainda que não haja mandado de prisão contra ele.
TSE reage e reafirma legitimidade do pleito
Poucas horas após a divulgação do texto, o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, divulgou nota pública defendendo o processo eleitoral. Sem citar o nome do senador, o ministro reforçou que a disputa foi limpa e que os questionamentos apresentados pelos candidatos serão analisados dentro da lei.
“Ressalto o compromisso de toda a Justiça Eleitoral com a vontade soberana do eleitorado, que foi às urnas e legitimamente escolheu seus representantes”, afirmou Nunes Marques.
Além do TSE e do Congresso Nacional, partidos de diferentes espectros já reconheceram formalmente o resultado, o que isola a narrativa de fraude sustentada por Flávio e por parte de sua base mais radicalizada. Dentro do PL, dirigentes tentam conter o dano político e reforçar que a legenda seguirá atuando institucionalmente como oposição no país, mesmo com o senador no exterior.
Apoio de Milei, cautela de Trump e oposição no exílio
Da Flórida, Flávio agradeceu publicamente a dois líderes estrangeiros alinhados ideologicamente a ele. “Antes de mais nada, queria agradecer ao presidente Milei, pela coragem, senso de justiça e legalidade, ao presidente Trump e ao maravilhoso povo americano por me acolher”, disse.
O ex-presidente dos EUA Donald Trump confirmou ter autorizado a entrada do senador e de sua família no país, mas evitou se comprometer com a ofensiva política contra o governo brasileiro. “Não vou comentar sobre isso, mas sei que demos a ele autorização para entrar no país, então veremos. Mas não vou me envolver. Foi uma eleição muito estranha, com certeza”, declarou.
Javier Milei, presidente da Argentina, não se manifestou publicamente sobre os detalhes da operação de saída de Flávio pela fronteira, mas foi citado diversas vezes pelo senador como peça-chave para viabilizar o trajeto até o embarque no avião particular.
Instalado em Miami, Flávio promete se comportar como uma espécie de líder da oposição em exílio autoimposto, com recados diretos a parlamentares e governadores aliados — citando nominalmente o senador Rogério Marinho (PL-RN) como seu candidato à Presidência do Senado. “Por isso, liderarei a oposição daqui. Direi o que vocês, aí, não podem dizer, e assumirei os riscos que vocês não podem correr”, prometeu.
Ele também anunciou que manterá comunicação frequente com sua base e prometeu, “nos próximos dias”, apresentar uma estratégia de mobilização da oposição ao governo Lula “por todos os meios pacíficos e legítimos”.
Crise política e risco de radicalização
A combinação entre a carta de teor golpista, a autoproclamação de liderança nacional a partir do exterior e o ataque direto às instituições intensifica a tensão no pós-eleição. A ofensiva de Flávio tenta reabrir a disputa encerrada nas urnas e pode alimentar a desconfiança de parte de seus apoiadores em relação ao sistema eleitoral e ao Judiciário, num momento em que o Congresso e os tribunais buscam sinalizar estabilidade.
Para o governo Lula e para as cortes superiores, o episódio representa ao mesmo tempo um teste e uma oportunidade: de um lado, exige reação firme contra ameaças à ordem democrática e contra a desinformação; de outro, abre espaço para reafirmar a confiança nas regras do jogo e isolar manifestações que afrontam o resultado das urnas.


