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Lançamentos de IA

IPO da Anthropic deve multiplicar lucro da Amazon a US$ 100 bi

Abertura de capital da Anthropic, avaliada em US$ 965 bi, deve render ganhos bilionários a fundos de risco, mas consolida Amazon e Google como principais beneficiárias, também via contratos de nuvem.

IPO da Anthropic deve multiplicar lucro da Amazon a US$ 100 bi

Mercado Financeiro

A oferta pública inicial da Anthropic promete ganhos bilionários e fortalece a posição da Amazon no setor de tecnologia.

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A abertura de capital da Anthropic, gigante de inteligência artificial avaliada em cerca de US$ 965 bilhões, expõe uma estrutura acionária atípica no Vale do Silício e consolida a Amazon como principal vencedora financeira e estratégica do IPO, enquanto Google e fundos de venture capital também se preparam para ganhos bilionários.

Como a Amazon vai lucrar com o IPO da Anthropic?

A Amazon deve transformar um investimento total de aproximadamente US$ 18 bilhões em uma posição avaliada perto de US$ 100 bilhões, além de garantir décadas de receita em nuvem por meio de contratos obrigatórios com a Anthropic.

O coração desse ganho está nas notas conversíveis. De acordo com o formulário S-1 da Anthropic, “Amazon holds convertible notes with $6.2 billion in principal outstanding as of June 30”. Essas notas são um tipo de dívida que vira ação automaticamente na abertura de capital ou em uma venda da companhia.

Com a disparada da avaliação da Anthropic, essas notas foram reprecificadas. Em documentos próprios, a Amazon registrou que “Amazon’s own filings valued its note holdings at $97.9 billion as of June 30”. Ou seja, um crédito de US$ 6,2 bilhões passou a ser tratado como um ativo que beira US$ 100 bilhões no balanço, refletindo o valor potencial das ações após o IPO.

Pelo S-1, as notas podem ser convertidas em até 1,84 bilhão de ações da Anthropic. Há, porém, um limite contratual que restringe a participação da Amazon a 12% do capital social parcialmente diluído. O próprio documento ressalta que “Amazon can waive the cap”, ou seja, a empresa pode abrir mão desse teto se houver interesse mútuo e condições para isso. O excedente que não for convertido de imediato permanece como dívida e pode virar ação em trimestres seguintes, ainda sob o mesmo limite.

Além das notas, a Amazon reforçou a aposta ao comprar US$ 10 bilhões em ações preferenciais sem direito a voto, distribuídos em duas rodadas recentes de captação. Somados aos aportes anteriores em notas desde o primeiro compromisso, o cheque acumulado chega a cerca de US$ 18 bilhões investidos na Anthropic.

Esse retorno não é apenas contábil. A variação de valor das notas obrigou a Anthropic a reconhecer no resultado um ajuste de US$ 72,4 bilhões na linha de “mudança no valor justo de notas conversíveis, passivos derivados e SAFEs” no primeiro semestre do ano. No S-1, a companhia enfatiza que “The charge is non-cash, meaning no money left the company”: é um efeito contábil, que não envolve saída de caixa agora, mas espelha o tamanho da vantagem que a Amazon conquistou.

Em paralelo, os contratos comerciais de nuvem blindam um fluxo massivo de receita para os cofres da big tech. Em seus acordos, a Anthropic “has committed to spend at least $110 billion on AWS over the next 10 years”. Ou seja, a mesma empresa que lucra com a valorização do ativo também fatura com a infraestrutura que torna possível treinar e rodar os modelos de IA da Anthropic.

Qual a participação da Amazon na Anthropic?

O limite formal atual é de 12% do capital parcialmente diluído, mas a estrutura com notas conversíveis e ações preferenciais coloca a Amazon como a maior beneficiária financeira, mesmo que a fatia em percentuais pareça modesta diante da avaliação recorde da empresa de IA.

Pelo S-1, as notas podem ser convertidas em até 1,84 bilhão de ações, sujeitas ao teto de 12%. Esse limite é relevante porque, com uma avaliação privada de US$ 965 bilhões, cada ponto percentual da Anthropic vale quase US$ 10 bilhões. Assim, uma participação de dois dígitos em termos de porcentagem já representa um valor superior ao de muitas empresas listadas sozinhas nas bolsas americanas.

Além das notas, a Amazon detém ações preferenciais adquiridas em rodadas recentes, num total de US$ 10 bilhões. Embora essas ações não deem direito a voto, elas participam economicamente da valorização da empresa, reforçando a exposição da big tech à alta da Anthropic. O desenho faz com que a Amazon concentre a maior parte do valor financeiro, ainda que outros investidores também tenham posições relevantes.

Por que os investidores de risco vão ganhar bilhões com o IPO da Anthropic?

Os fundos de venture capital investiram cedo em uma empresa que hoje vale US$ 965 bilhões, o que transforma participações inferiores a 5% em posições bilionárias na abertura de capital.

O caso mais emblemático é o da Menlo Ventures, que tem um bloco de ações estimado em cerca de US$ 14 bilhões, equivalente a aproximadamente 1,5% da Anthropic. Em um IPO tradicional de tecnologia, líderes de rodada costumam sair com fatias de dois dígitos. Aqui, ninguém entre os grandes fundos ultrapassa 5% — tanto que nenhum aparece na tabela de principais acionistas do S-1.

Essa dispersão é resultado direto do tamanho da Anthropic. Com a avaliação atual, cada 1% da empresa vale quase US$ 10 bilhões. Assim, mesmo participações que, em qualquer outro contexto, seriam consideradas “pequenas” em termos relativos garantem retornos fora da curva para casas como Menlo Ventures, Sequoia, Sound Ventures e Spark Capital. Elas entram na linha de frente dos ganhadores, mas sem o peso societário que usualmente acompanha cheques de venture capital em empresas de tecnologia.

Entenda o contexto

A Anthropic é uma das startups mais valiosas do mundo na corrida pela inteligência artificial generativa, área que demanda enorme capacidade computacional e capital intensivo. Para sustentar o crescimento, a empresa fez acordos profundos com provedores de nuvem, que se tornaram simultaneamente acionistas, financiadores e fornecedores.

A Amazon inaugurou essa relação com um compromisso inicial de investir até US$ 4 bilhões e, desde então, ampliou a exposição com novas notas conversíveis e ações preferenciais. O Google seguiu caminho semelhante: documentos judiciais indicam que “Google held about 14% of Anthropic as of early last year”, e a empresa aportou mais recursos, incluindo US$ 10 bilhões em abril. Analistas estimam que, após sucessivas rodadas, essa participação tenha caído para algo em torno de 5,6%.

Assim como a AWS, o Google Cloud também saiu da negociação com um contrato robusto. Pelos acordos, “It has also secured at least $114 billion in cloud commitments from the Anthropic through 2033”. Na prática, isso significa que tanto Amazon quanto Google ganham duas vezes: com a valorização das ações e com a venda de infraestrutura de nuvem que alimenta os modelos da Anthropic.

O próprio S-1 da companhia faz um alerta de governança: alguns desses provedores de nuvem também desenvolvem modelos de IA concorrentes, o que pode gerar conflitos de interesse, já que as prioridades estratégicas de uma big tech nem sempre coincidem com as de uma startup que depende de sua infraestrutura para crescer.

Qual o impacto do IPO da Anthropic no mercado de tecnologia?

O IPO da Anthropic consolida a lógica de que a nova geração de campeãs de IA nasce ancorada em gigantes de nuvem, deslocando poder de fundos de risco tradicionais para big techs como Amazon e Google.

Do ponto de vista financeiro, a listagem testa o apetite do mercado para uma avaliação próxima de US$ 1 trilhão em uma empresa jovem, ainda em ritmo acelerado de investimento e com forte dependência de infraestrutura de terceiros. Se a operação for bem-sucedida, tende a puxar para cima preços e expectativas em todo o setor de IA generativa, estimulando novas captações e aberturas de capital.

Estrategicamente, o desenho sinaliza uma mudança de equilíbrio nas relações entre startups e grandes provedores. Em vez de apenas vender serviços de nuvem, Amazon e Google passam a assumir papéis de sócios majoritários em valor, com direito a contratos de longo prazo que amarram o consumo de seus serviços. Isso pode dificultar a entrada de novos players de infraestrutura e acentuar a concentração do mercado de computação em nuvem em torno de poucos grupos.

O S-1 da Anthropic reconhece, ainda, que a dependência de provedores que também são rivais em IA cria tensões: a qualquer momento, uma mudança de estratégia dessas empresas pode afetar preços, acesso a chips e prioridades de desenvolvimento. Para investidores, esse é um dos principais riscos listados — o outro lado da moeda de uma parceria que, neste IPO, produz alguns dos maiores ganhos já vistos em uma estreia de uma empresa de tecnologia.