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Economia

Ônibus em Niterói testam pagamento por Pix até fim de novembro

Teste do Pix em ônibus de Niterói tenta aposentar o dinheiro vivo até 2026, enquanto decisões do TJ-SP e regras do Banco Central redefinem direitos e deveres de quem usa o sistema.

Ônibus em Niterói testam pagamento por Pix até fim de novembro
Hand holding money, six hundred reais, Brazilian currency, on white background.

Economia

Niterói inicia testes do pagamento por Pix em ônibus para modernizar o transporte público até 2026.

Leia também: Galípolo denuncia demora do BC em análise de crédito de R$12 bi

O Pix brasil começa a ganhar espaço no transporte público de Niterói e no dia a dia dos tribunais: ônibus municipais já testam o pagamento por QR Code, o Tribunal de Justiça de São Paulo reforça que pequenos Pix não tiram o direito à Justiça gratuita e o Banco Central detalha como agir quando o dinheiro cai na conta errada.

Como o Pix está sendo testado em ônibus de Niterói?

O pagamento de passagens com Pix está em fase de teste em 11 ônibus municipais de Niterói, em três linhas que ligam bairros da Zona Norte a Icaraí e ao Centro. As empresas Auto Ônibus Brasília e Expresso Barreto integraram o sistema aos validadores já instalados, em parceria com a Prodata Mais Mobi, sem necessidade de novos equipamentos.

Na prática, o passageiro embarca, escolhe a opção Pix no validador, aponta a câmera do celular para o QR Code e conclui o pagamento no Pix app do próprio banco. Em segundos, o sistema confirma a transação e libera a catraca, de forma semelhante ao uso do cartão de transporte, mas sem depender de recarga prévia.

Usuários relatam mais flexibilidade. “Eu não uso mais dinheiro vivo e acredito que a maioria das pessoas também não. Às vezes, meu cartão fica sem saldo, então é ótimo, porque é só pagar com o celular, que está sempre com a gente”, contou o passageiro Marco Marín. A passageira Michelle Vieira vê avanço, mas pede alternativas: “Pix realmente melhorou a nossa vida, porque eu não ando com dinheiro físico. Mas tenho certeza de que seria bom implementar também o pagamento por cartão”.

O Sindicato dos Trabalhadores Rodoviários de Passageiros de Niterói a Arraial do Cabo (Sintronac) apoia a mudança. “A reivindicação do fim da circulação de dinheiro nos ônibus para reduzir assaltos já é antiga. Além disso, com a dupla função, o motorista também sendo cobrador, o rodoviário fica mais desgastado”, afirmou o presidente do sindicato, Rubens dos Santos.

A prefeitura, por meio da Secretaria municipal de Mobilidade e Infraestrutura (Semobi), determinou a continuidade dos testes até o fim deste mês e trabalha com a meta de levar o pagamento eletrônico a todas as linhas municipais e eliminar o dinheiro em espécie dos coletivos até o fim de 2026. A expectativa é que a expansão exija treinamento de funcionários e ajustes nos validadores, mas reduza custos com transporte de valores e risco de assaltos.

Entenda o contexto

Criado pelo Banco Central, o Pix bcb se consolidou como meio de pagamento dominante em transferências entre pessoas físicas, empresas e o poder público. Agora, avança para serviços essenciais, como o transporte coletivo. A entrada do Pix brasil app nos ônibus pressiona meios tradicionais, como dinheiro vivo e cartões magnéticos, e abre caminho para integrações com bilhetagem eletrônica, tarifas dinâmicas e subsídios direcionados.

Ao mesmo tempo, o crescimento do Pix o que é e como funciona colocou o sistema no centro de disputas jurídicas, com discussões sobre acesso à Justiça de quem movimenta pequenas quantias e sobre a responsabilidade em casos de envio errado de valores.

O que fazer se o Pix caiu na conta de um desconhecido e o banco diz que não pode estornar?

Quando o Pix cai na conta de um desconhecido por erro de quem pagou, o banco não é obrigado a estornar e, em regra, não pode fazer isso sozinho: a devolução deve ser iniciada por quem recebeu o dinheiro.

Pelas normas do Banco Central, o Mecanismo Especial de Devolução (MED) foi criado para golpes e fraudes, não para erro do pagador, como digitar um número de celular errado na chave Pix ou não conferir o nome na tela de confirmação. Nesses casos, o caminho é direto com o recebedor.

O regulamento do Pix, anexo à Resolução do BCB que instituiu o sistema, determina que a devolução é uma operação iniciada pelo usuário recebedor, por conta própria ou a pedido de quem pagou. Ela pode ser total ou parcial, em uma ou mais vezes, e precisa ser iniciada em até 90 dias após a transação original, desde que o dinheiro ainda esteja na conta.

O manual de experiência do usuário do Pix obriga os aplicativos a oferecer uma função específica para devolução de qualquer recebimento dos últimos 90 dias, exibindo nome do pagador, valor e data. Na prática, o recebedor localiza o crédito no extrato, toca em “devolver” e o valor volta para a conta de origem.

Para quem pagou errado, o ponto de partida é o comprovante do Pix. Por regra do Banco Central, ele mostra o nome do recebedor, CPF mascarado ou CNPJ, instituição financeira, data, hora e identificador da transação. Esses dados ajudam a localizar a pessoa que recebeu e servem como prova se o caso for parar na Justiça. É importante guardar também prints de conversas em que você pediu o dinheiro de volta.

Na esfera civil, o Código Civil é direto. O artigo 876 diz que “todo aquele que recebeu o que lhe não era devido fica obrigado a restituir”, e o artigo 884 manda quem enriqueceu sem justa causa devolver o valor, com atualização monetária. O artigo 877 lembra que cabe a quem pagou provar que houve erro — daí a importância do comprovante e das mensagens trocadas.

Se o recebedor se recusar a devolver, é possível ingressar com ação no Juizado Especial Cível, que julga causas de até 40 salários mínimos. Em pedidos de até 20 salários mínimos, a pessoa pode ir sozinha, sem advogado; acima disso, a assistência de um profissional é obrigatória. O pedido é a restituição do valor pago indevidamente, com base no pagamento indevido previsto no Código Civil.

No campo penal, o Código Penal trata, no artigo 169, da apropriação de coisa havida por erro: apropriar-se de valor que chegou às mãos de alguém por engano. A pena prevista é de detenção de um mês a um ano, ou multa. Quem recebe um Pix por engano, é avisado e mesmo assim se recusa a devolver pode ser alvo de boletim de ocorrência, cabendo à polícia e à Justiça avaliar o caso concreto.

O próprio Pix brasil app tenta evitar esse tipo de problema. O Banco Central exige que, antes da confirmação, a tela mostre o nome completo do recebedor, CPF mascarado ou CNPJ, chave Pix e valor, com opção de cancelar. A orientação é sempre conferir esses dados com calma antes de tocar em “confirmar”.

Decisão do TJ-SP limita uso de extrato do Pix contra Justiça gratuita

Enquanto o uso do Pix se espalha, o Tribunal de Justiça de São Paulo enviou um recado aos juízes de primeira instância: pequenas movimentações via Pix não bastam, sozinhas, para negar gratuidade de Justiça a quem declara não ter condições de pagar custas.

A 1ª Turma Recursal Cível do TJ-SP reformou uma decisão que havia negado o benefício a uma mulher desempregada, com base em um Pix de R$ 200 entre contas da própria autora, na contratação de advogado particular e na declaração de Imposto de Renda com rendimentos de quase R$ 85 mil ao ano em período anterior.

O relator, juiz José Carlos de França Carvalho Neto, destacou que a declaração de hipossuficiência — quando a parte afirma não ter recursos para custear o processo — é presumida verdadeira. Para derrubar essa presunção, são necessários dados concretos que mostrem capacidade financeira atual. “A mera soma de movimentações de entrada e saída em extratos bancários não traduz riqueza acumulada nem liquidez financeira apta impedir a concessão de gratuidade de Justiça”, afirmou.

Ele ressaltou que a análise deve se concentrar na situação econômica do momento, e não apenas em rendimentos declarados no passado, e que a contratação de advogado particular, por si só, não impede a concessão do benefício. Segundo o magistrado, os extratos da autora mostravam apenas que ela vinha tentando manter as contas básicas em dia. “O exame desse documento revela movimentações financeiras de valores inexpressivos, consubstanciadas em pequenas transações diárias de baixo valor, pagamentos de despesas básicas de energia e água, e transações direcionadas a familiares para manutenção primária, com saldos diários rotineiramente próximos de zero”, descreveu.

A decisão reforça uma tendência de interpretação mais protetiva para pessoas em situação econômica vulnerável, muitas vezes dependentes do Pix para pequenas transferências, apesar de não terem reserva financeira. Advogados veem na posição do TJ-SP um potencial precedente para outras ações em que juízos de primeira instância usam extratos do Pix para negar Justiça gratuita sem investigar o contexto completo das movimentações.

Na prática, o recado é que o uso cotidiano do Pix — para pagar contas básicas, mandar pequenas quantias a parentes ou receber ajuda — não pode ser tratado automaticamente como prova de riqueza. Para quem recorre à Justiça, o entendimento abre espaço para discutir, caso a caso, se há de fato capacidade de arcar com taxas e custas processuais.