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Economia

Economia da Argentina hoje: recessão e pobreza aumentam em 2026

Inflação cai sob Milei, mas PIB recua, pobreza sobe a 32%, desemprego chega a 7,9% e mais de 31 mil empresas fecham. Protestos e impasse no Congresso ampliam incerteza.

Economia da Argentina hoje: recessão e pobreza aumentam em 2026

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Indicadores econômicos mostram piora com aumento do desemprego e fechamento de empresas, gerando incertezas políticas.

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A economia da Argentina em 2026 combina queda da inflação com recessão no dia a dia: o PIB recua, a pobreza atinge 32% da população, o desemprego chega a 7,9%, mais de 31 mil empresas fecham e o governo Javier Milei enfrenta protestos nas ruas e resistência no Congresso para aprovar suas reformas.

Como está a situação da economia da Argentina em 2026 sob o governo Milei?

Os principais indicadores mostram um país em ajuste duro, com alívio nos preços, mas deterioração social e perda de fôlego na atividade. A inflação acumulada em 12 meses até setembro está em 33,4% — bem abaixo de níveis superiores a 211% no início do governo, mas ainda distante da meta de 10,1% prevista no orçamento.

Do outro lado, a atividade econômica patina. O Produto Interno Bruto caiu 0,6% no segundo trimestre em relação aos três meses anteriores, e o indicador mensal de atividade recuou 2,9% em julho. A combinação de juros altos, corte de subsídios, abertura comercial e ajuste fiscal freia o consumo e atinge sobretudo comércio e indústria, enquanto mineração, energia, agricultura e serviços financeiros seguem em expansão, formando uma economia em “duas velocidades”.

O custo social do choque é visível. A pobreza alcança 32% da população no primeiro semestre, alta em relação ao período anterior, e o desemprego chega a 7,9% no segundo trimestre. Salários reais seguem atrás da inflação, serviços básicos como luz e gás ficam mais caros com o fim de subsídios e cresce o trabalho informal e o endividamento das famílias.

Milei, porém, mantém o discurso de que o plano está no rumo certo. Em evento com executivos do setor financeiro, o presidente rejeitou o diagnóstico de colapso social. “Com o que eles vão viver, ar? O que eles vão comer, ar? O que eles vão beber, ar?”, ironizou, ao classificar como “estúpida” a afirmação de que 80% dos argentinos têm dificuldade para sobreviver.

Sobre a alta da inadimplência, ele atribuiu o movimento ao próprio rearranjo econômico. “A realidade é que, quando o crédito privado passa de praticamente inexistente para uma expansão no ritmo atual, é matemática básica que a inadimplência aumentará durante a transição; é uma consequência natural”, afirmou.

Entenda o contexto

Desde que assumiu, Milei lançou um pacote de choque para conter a inflação e ajustar as contas públicas, com corte de gastos, desregulamentação de setores da economia e abertura maior às importações. Uma parte dessas medidas está reunida no decreto 70/2023, que segue sob ataque da oposição e ainda não foi consolidada em leis duradouras.

Sem maioria no Congresso, o governo avança por meio de decretos e enfrenta derrotas pontuais. Nesta semana, recuou da proposta de liberar totalmente a venda de terras rurais a estrangeiros e anunciou que vai restabelecer limites inspirados na legislação de 2011, após forte pressão parlamentar.

O ambiente externo também cobra um preço. O Fundo Monetário Internacional reduziu de 3,5% para 2,1% a projeção de crescimento da Argentina em 2026 e cortou em meio ponto percentual a estimativa para 2027, agora em 3,5%. A revisão indica que o ajuste pode comprimir a retomada se consumo e investimento privado não reagirem.

O quadro econômico entrou de vez no debate político regional. Ao criticar o candidato de extrema direita Flávio Bolsonaro, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva questionou a defesa do “modelo de Milei” em meio ao aumento da pobreza na Argentina. “Viu quanto está a pobreza na Argentina?”, provocou Lula durante um debate eleitoral, usando os números do país vizinho como alerta.

Protestos e crise nas universidades

O mal-estar social transbordou para as ruas nesta semana, com a Marcha Federal Universitária em Buenos Aires. Estudantes, professores, funcionários e reitores marcharam até o Congresso para exigir a aplicação da Lei de Financiamento Universitário, aprovada pelo Parlamento, mas suspensa por decreto do governo Milei.

A lei prevê reajustes salariais, atualização de bolsas e reforço de recursos para as universidades públicas. O Executivo incluiu cerca de 7,3 trilhões de pesos para o setor no orçamento, enquanto os reitores pedem mais de 11 trilhões, alegando risco de paralisação de serviços básicos, corte de bolsas e demissões.

Na quinta-feira, um grupo de manifestantes tentou derrubar as grades em frente ao Congresso e atirou pedras contra a polícia, que respondeu com caminhão hidrante e gás para dispersar o foco de confronto. O ato principal seguiu em outro ponto da praça. A repressão endureceu o clima com o governo em um momento de desgaste crescente.

Nas cortes, a disputa também segue aberta. Um juiz já considerou inconstitucional a suspensão da lei universitária, mas uma instância de apelação congelou provisoriamente as multas diárias impostas ao chefe de Gabinete enquanto analisa o recurso do Executivo. A decisão final pode ter efeito sobre o caixa das universidades e sobre a estratégia de Milei para o ensino superior público.

Por que milhares de empresas estão fechando na Argentina na era Milei?

Desde a posse de Javier Milei, 31.342 empresas fecharam as portas até junho, o equivalente a cerca de 6% do total, segundo levantamento do Centro de Economia Política Argentina (Cepa) com base em dados do sistema previdenciário. O movimento atinge principalmente pequenas e médias empresas, mais expostas à queda do consumo, à alta de custos e à concorrência de importados.

A abertura econômica e a retirada de subsídios elevaram tarifas de energia e aluguel, encarecendo a estrutura das empresas. Ao mesmo tempo, o ajuste fiscal e a corrosão da renda reduziram a clientela em setores como comércio, alimentação e serviços. Sem crédito barato nem margens para absorver perdas prolongadas, muitos negócios não resistiram.

O caso do empresário Alejandro Marchizotti ilustra a crise. Dono de uma hamburgueria nos arredores de Buenos Aires, ele viu as vendas desabarem ao longo deste ano. “Os negócios estavam indo bem até que o consumo caiu drasticamente e eu tive que fechar”, conta. Para tentar manter o empreendimento aberto, Marchizotti demitiu funcionários, contraiu empréstimos e renegociou prazos, mas não foi suficiente.

“Passei de cinco funcionários para apenas um”, relata. O aumento nas contas de luz, gás e no aluguel pesou ainda mais. Com o encolhimento da demanda, restou encerrar a atividade. Situações como a dele se repetem em cadeias de restaurantes, pequenos comércios de bairro, oficinas e fábricas menores, que não conseguem competir com produtos importados ou segurar o repasse da inflação para os preços.

Relatórios recentes do Banco Central da Argentina mostram que setores como mineração, energia, agronegócio e intermediação financeira mantêm desempenho positivo e se beneficiam do novo ambiente de negócios. Já comércio e indústria, intensivos em mão de obra e voltados ao mercado interno, acumulam quedas, reforçando a ideia de um país com duas economias paralelas.

Impacto no emprego e na renda

O fechamento de 31.342 empresas e a piora da atividade ajudam a explicar o desemprego de 7,9% registrado no segundo trimestre e a escalada da informalidade. Muitos trabalhadores dispensados migram para bicos e trabalhos sem carteira, sem acesso à previdência e a direitos trabalhistas.

Um em cada três argentinos vive hoje na pobreza, e boa parte dos novos pobres vem justamente de famílias que perderam o emprego formal ou viram a renda encolher em termos reais. A leitura de economistas é que “os salários estão caindo em relação ao custo de vida, os serviços básicos estão mais caros” e o crédito mais restrito empurra as famílias para níveis crescentes de endividamento.

A inadimplência atinge cerca de um terço de quem tomou empréstimo, criando um círculo vicioso: empresas vendem menos, cortam pessoal, o consumo cai ainda mais e novos negócios hesitam em investir. Para reverter esse quadro, analistas apontam a necessidade de combinar o ajuste fiscal com políticas de estímulo segmentadas, sobretudo para pequenas e médias empresas, algo que o governo até agora resiste em adotar.

Percepção pública e impasse político

Pesquisas recentes mostram uma população dividida sobre o governo Milei. Levantamento da AtlasIntel feito no início do mês apontou 38,5% de aprovação e 57,2% de desaprovação ao presidente. A avaliação do governo foi negativa ou muito negativa para 54,2% dos entrevistados e positiva para 33,3%. A leve melhora na aprovação não altera o fato de que a rejeição segue majoritária.

O estudo foi concluído antes dos protestos universitários desta semana, mas indica que a queda da inflação ainda não se traduziu em sensação de melhora no cotidiano. Milei conserva um núcleo de apoio disposto a sustentar sua agenda de choque, porém é pressionado a entregar resultados em emprego, renda e retomada da atividade.

No Congresso, o governo enfrenta dificuldades para transformar decretos em leis permanentes. A sessão em que a oposição tentaria derrubar o decreto 70/2023 acabou esvaziada, com ausência de oito deputados necessária para abrir o debate, após o recuo do Executivo na questão das terras para estrangeiros. À frente, disputas como o orçamento de 2027 e a tentativa de suspender eleições primárias prometem novos embates.

A expectativa de analistas e agentes econômicos é de manutenção da instabilidade nos próximos meses, com risco de novos protestos e de um mercado de trabalho ainda frágil. Se o ritmo de fechamento de pequenas e médias empresas continuar elevado e o consumo não reagir, a combinação de ajuste fiscal duro com crescimento baixo tende a prolongar a crise social que hoje marca a economia da Argentina.

Fontes: matéria original 1 · matéria original 2 · matéria original 3