IA em saúde mental avança, mas não substitui terapia
Episódio do podcast VideBula discute o uso de inteligência artificial como apoio em saúde mental, destaca vantagens no acesso imediato e alerta para riscos éticos e emocionais.

Inteligência Artificial
Podcast explora como a IA pode auxiliar na saúde mental, ressaltando benefícios e desafios éticos e emocionais.
Leia também: Sea lança Sea Cloud de IA e confirma IPO da Monee em 2026
O podcast VideBula dedica o episódio 11, lançado nesta semana, a discutir como a inteligência artificial vem sendo usada como apoio em saúde mental, ampliando o acesso a acolhimento imediato, mas sem substituir o acompanhamento com psicólogos e psiquiatras. A conversa reúne a psicóloga Karen Scavacini, fundadora do Instituto Vita Alere, e a assistente financeira Samanta Farias, paciente com experiência em tratamentos online e presenciais.
IA disponível 24 horas atrai quem não encontra vaga em terapia
Apresentado por Raíssa Saraiva e Patrícia Serrão, o programa parte de um cenário já conhecido por quem busca ajuda psicológica: filas de espera, consultas caras e falta de profissionais, sobretudo no interior do país. Nesse vácuo, proliferam chatbots e aplicativos que prometem escuta imediata, 24 horas por dia, 7 dias por semana, muitas vezes de forma anônima e gratuita.
Segundo Karen Scavacini, essa disponibilidade constante ajuda a explicar o apelo dos chamados “terapeutas virtuais”. “A pessoa não precisa esperar consulta, ela não precisa achar alguém disponível, ela não precisa explicar porque que ela precisa conversar naquele momento. Existe uma certa sensação de privacidade, de menor julgamento”, afirma a psicóloga.
Ela observa que a linguagem adotada por muitas plataformas de inteligência artificial é acolhedora e organizada, o que dá ao usuário a impressão de receber um “caminho” pronto e uma atenção permanente, sem interrupções e sem críticas.
Usuária relata como IA encurta caminho até o especialista
Na outra ponta, a experiência de Samanta Farias ilustra o lado prático da tecnologia. Mãe de uma criança com doença genética rara e diagnosticada com endometriose, ela conta que passou a usar pesquisas online com apoio de ferramentas de IA para decidir com mais rapidez a qual médico recorrer.
“Antigamente, indicavam muito que a gente fosse num clínico geral, ou em um profissional X que encaminharia para uma outra especialidade. Então, você tinha que ficar pulando de médico e médico, né? Agora, quando eu começo a sentir algum sintoma, eu vou pesquisar”, relata.
Ao associar sintomas recentes ao histórico de endometriose, Samanta chegou à suspeita de possível doença reumatológica e marcou diretamente um reumatologista, “sendo induzida pela pesquisa” que fez. Para ela, a inteligência artificial funciona como atalho dentro de um sistema de saúde fragmentado, economizando tempo e desgaste.
Entenda o contexto
A discussão vai além da consulta rápida. Para o VideBula, a expansão da inteligência artificial em saúde mental responde a uma demanda reprimida por apoio emocional e orientação básica, em horários e locais onde o suporte humano é raro. Ferramentas digitais permitem desabafos de madrugada, em sigilo, por quem tem medo ou vergonha de procurar um consultório.
Ao mesmo tempo, clínicas, planos de saúde e serviços públicos começam a testar sistemas automatizados para triagem de casos, oferta de informações e acompanhamento inicial, o que pode reduzir parte da pressão sobre profissionais. Especialistas, porém, alertam que essa mudança precisa vir acompanhada de regras claras, protocolos de segurança e supervisão humana.
Especialista alerta para vínculos ilusórios com robôs
Se, de um lado, a inteligência artificial em saúde mental democratiza o acesso a algum tipo de acolhimento, de outro abre espaço para riscos emocionais e éticos ainda pouco regulados. Karen Scavacini chama atenção para o chamado “vínculo percebido” com os sistemas.
“De uma certa forma, a IA responde aquilo que ela aprende que você quer ouvir. E ela tem essa linguagem humana, ela demonstra tá atenta, ela demonstra tá interessada. Então, esse vínculo percebido, ele pode ser muito importante do ponto de vista psicológico, mesmo que não exista – e não existe – uma reciprocidade real da tecnologia, né?”, afirma.
Para a psicóloga, o perigo começa quando o usuário passa a tratar o sistema como se fosse uma pessoa de confiança. “O risco é a pessoa passar a acreditar que o sistema conhece ela, que a ama, que possui consciência e que sabe melhor o que é bom para a vida dela. E aí ela começa a aceitar essas orientações da IA com menos senso crítico do que se ela tivesse ouvindo uma outra pessoa”, completa.
Ela reforça que algoritmos não têm sentimentos, não desenvolvem empatia e não enxergam nuances clínicas complexas, elementos considerados centrais na psicoterapia. O vínculo afetivo e a construção de confiança entre paciente e profissional seguem, na avaliação da convidada, insubstituíveis.
IA como complemento, não como substituta da psicoterapia
Ao longo do episódio, as apresentadoras frisam que o objetivo não é demonizar a tecnologia, mas discutir limites. A inteligência artificial aparece como aliada na navegação pelo sistema de saúde, na oferta de informação inicial e no acolhimento emergencial — especialmente para quem mora longe de centros urbanos ou não consegue sair de casa.
O consenso entre as participantes é que essas ferramentas devem ser vistas como apoio, e não como tratamento principal. Na prática, isso significa usar chatbots para organizar dúvidas, registrar sintomas e buscar caminhos até o atendimento profissional, sem abrir mão da avaliação de psicólogos e médicos nem substituir consultas por conversas exclusivas com robôs.
O episódio, produzido pela Radioagência Nacional, está disponível nas principais plataformas de áudio e no canal da Rádio Nacional no YouTube, com interpretação em Libras, reforçando a preocupação com inclusão e acesso à informação num debate que tende a ganhar espaço na regulação da saúde e no cotidiano de quem busca cuidado em saúde mental.
Fonte: matéria original

