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Países ‘swing’ desafiam EUA e China e ganham com IA até 2030

Cazaquistão, Indonésia, Singapura e Arábia Saudita tentam lucrar com blocos rivais de inteligência artificial liderados por EUA e China, sem escolher um lado definitivo.

Países ‘swing’ desafiam EUA e China e ganham com IA até 2030

Inteligência Artificial

Na disputa global de IA, países estratégicos buscam crescimento econômico ao equilibrar relações entre EUA e China.

Leia também: Trump anuncia fechamento de campo público em Washington

Cazaquistão, Indonésia, Singapura e Arábia Saudita se movem para o centro do tabuleiro da inteligência artificial ao aderir, ao mesmo tempo, a iniciativas lideradas por Estados Unidos e China, numa tentativa calculada de tirar o máximo proveito econômico e tecnológico da divisão do mundo em dois blocos rivais de IA.

De um lado está o Pax Silica, a arquitetura de alianças impulsionada por Washington; do outro, a World AI Cooperation Organization, lançada por Pequim com 28 países fundadores. No meio, um grupo crescente de nações recusa a escolha binária e aposta em uma estratégia de equilíbrio, o chamado hedging, mesmo sob pressão direta das duas potências.

Quem são os países que estão se posicionando entre os blocos de IA dos EUA e da China?

Os principais países que hoje se posicionam entre os blocos de IA dos EUA e da China são Cazaquistão, Indonésia, Singapura e Arábia Saudita, todos tentando manter portas abertas para investimentos, chips avançados e modelos de código aberto.

O caso mais emblemático é o do Cazaquistão, país de cerca de 21 milhões de habitantes e dono de reservas de minerais críticos para a indústria de IA, além de eletricidade barata para alimentar grandes data centers. Em junho, o ministro de IA, Zhaslan Madiyev, esteve em Washington para integrar um grupo focado em fortalecer cadeias de suprimentos de IA ligadas ao Pax Silica. Poucas semanas depois, participou em Xangai da cerimônia que tornou o país membro fundador da World AI Cooperation Organization, ao lado de Rússia, Paquistão e outros.

Essa posição intermediária atrai gigantes da tecnologia. O governo cazaque assinou um acordo de investimento de até US$ 10 bilhões com a Nvidia para criar um “vale de data centers” no país, ao mesmo tempo em que recebe capital chinês em ritmo acelerado. Autoridades locais falam em investimento direto da China na casa de US$ 2,8 bilhões em 2025, impulsionado pela Iniciativa do Cinturão e Rota e por encontros entre o presidente Kassym-Jomart Tokayev e o líder chinês Xi Jinping.

A Indonésia segue caminho parecido. Rica em níquel e cobre, metais essenciais para baterias, eletrônicos e infraestrutura de IA, o país já aderiu à organização chinesa e mantém laços com empresas e instituições americanas. “We should be able to be part of both, put it that way. And choose the best system”, disse Mari Pangestu, vice-presidente do Conselho Econômico Nacional indonésio, ao defender a liberdade de optar caso a caso por soluções chinesas ou americanas.

Singapura, hub financeiro e de tecnologia no Sudeste Asiático, recebe investimentos de empresas de IA dos EUA, como a Anthropic, que abre um novo escritório na cidade-Estado. Ao mesmo tempo, o governo avalia oficialmente ingressar na World AI Cooperation Organization, sinalizando que pretende continuar como ponto de encontro — e não de ruptura — entre os dois ecossistemas.

Na Arábia Saudita, a estratégia é explícita: o país fechou acordo com a Nvidia para ampliar a capacidade de computação em IA com chips de última geração e, paralelamente, a startup local Humain lançou em setembro uma plataforma construída sobre um modelo aberto desenvolvido por uma empresa chinesa de IA. A aposta é usar o dinheiro do petróleo para posicionar o reino como polo regional em computação e aplicações de IA, sem se prender a um só fornecedor.

Qual é a estratégia dos países que estão ‘hedging’ entre os blocos de IA dos EUA e da China?

A estratégia central desses países é usar a competição entre EUA e China a seu favor, maximizando investimentos, transferência de tecnologia e espaço de manobra diplomática sem assumir um alinhamento definitivo com nenhum dos blocos de IA.

Na prática, isso significa assinar memorandos, consórcios e parcerias simultaneamente com Washington e Pequim, aderindo tanto a fóruns americanos de “IA confiável” e cadeias de suprimento seguras quanto à organização chinesa, que promete financiamento, infraestrutura digital e acesso a modelos abertos. O objetivo é diversificar fornecedores, reduzir dependência e ganhar tempo enquanto os padrões globais de IA ainda estão em disputa.

“Everyone is hedging”, resume Dana Masalimova, ex-diplomata do Cazaquistão e pesquisadora. Segundo ela, o país está em uma posição “muito precária”, mas vê vantagens em evitar o alinhamento automático: mais empregos de alta tecnologia, mais data centers, mais oportunidade de influenciar padrões regionais. “We don’t want this binary choice”, afirmou.

Em muitos casos, o cálculo é econômico e regulatório. O Pax Silica tende a oferecer acesso aos chips e modelos mais avançados produzidos por empresas americanas, mas com exigências de segurança, governança de dados e alinhamento político mais rígidas. Já a organização liderada por Pequim se apoia em modelos mais acessíveis, muitas vezes de código aberto, e em pacotes de financiamento e infraestrutura para países de renda baixa e média, com exigências políticas menos públicas, mas forte peso geopolítico.

Para governos que ainda constroem suas estratégias digitais, manter laços com ambos os lados também abre portas para startups e universidades locais. A combinação de chips de ponta dos EUA com modelos abertos chineses permite montar ecossistemas híbridos, explorar casos de uso específicos e testar regulações próprias, sem importar, de forma automática, as regras de Washington ou Pequim.

Entenda o contexto

A disputa em torno da IA vem sendo tratada em termos abertamente estratégicos pelas duas potências. “Whoever wins AI, wins”, declarou o ex-presidente americano Donald Trump, ecoando a visão de que o país que liderar os modelos mais poderosos dominará cadeias de valor inteiras, da defesa à indústria criativa.

Autoridades dos EUA e empresas de tecnologia acusam a China de prática de “distillation” em larga escala — uma espécie de extração de capacidades de modelos americanos de ponta para treinar sistemas rivais. Pequim rejeita as acusações e afirma que Washington busca um monopólio sobre chips e maquinário avançados, impondo controles de exportação cada vez mais rígidos.

No plano diplomático, o Departamento de Estado dos EUA deixa claro que o Pax Silica é um clube seletivo: “Countries can’t be trusted partners in Pax Silica while substantively engaging in initiatives that advance a competing vision for super intelligence”, afirmou a pasta, usando o novo termo preferido pelo governo Trump para se referir à IA.

A embaixada chinesa em Washington responde com discurso oposto, ressaltando abertura e inclusão. “As both major countries in AI, China and the United States should leverage respective strengths in AI rather than guarding against each other”, disse a representação diplomática. “AI should not be owned by major countries.” Para especialistas, essa diferença de tom reflete a necessidade chinesa de atrair terceiros países para consolidar um bloco alternativo, enquanto os EUA partem de uma rede de aliados já estabelecida.

Além dos “swing countries” centrais, uma série de nações de renda média e baixa passa a receber financiamento chinês ligado à IA — em projetos de cidades inteligentes, vigilância, infraestrutura digital e educação — ao mesmo tempo em que busca acesso a ferramentas americanas. Estudos apontam dezenas de países africanos e asiáticos nessa situação, da Nigéria a Bangladesh, em um movimento que amplia a influência tecnológica de Pequim para além da Ásia.

Mesmo aliados tradicionais dos EUA, como Japão, Reino Unido, França e Alemanha, também calibram suas apostas. Sem modelos próprios no nível de fronteira comparáveis aos americanos e chineses, dependem de acordos de data centers, chips e licenças de software, em geral definidos ao sabor de decisões políticas em Washington e Pequim. Alguns, como a França, tentam ainda uma terceira via com startups locais de grande porte, na expectativa de reduzir a dependência.

O resultado é um mapa fragmentado da IA mundial, em que poucos países conseguem desenvolver modelos realmente de ponta, mas quase todos discutem algum grau de “soberania de IA”, seja em dados, infraestrutura, regulação ou aplicações críticas.

À medida que o confronto EUA–China se aprofunda e os requisitos de alinhamento se tornam mais rígidos, a janela de oportunidade para esse jogo duplo tende a se estreitar. Por ora, porém, os países intermediários aproveitam o raro momento em que, como descreve um pesquisador envolvido nas negociações, o futuro da inteligência artificial global depende menos da escolha de um lado e mais da habilidade de transitar entre ambos.