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Bancos centrais trocam 85 toneladas de ouro e mudam estratégia

Holanda, França, Alemanha e outros países movem centenas de toneladas de ouro entre EUA, Europa e Ásia para reduzir riscos de custódia, garantir acesso físico rápido e reforçar a liquidez em meio à instabilidade geopolítica.

Bancos centrais trocam 85 toneladas de ouro e mudam estratégia

Mercado Financeiro

Países europeus realocam reservas para aumentar segurança e agilidade diante de tensões globais.

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Bancos centrais da Europa e de emergentes como Venezuela e Índia intensificam, neste ano, uma ampla redistribuição de reservas de ouro entre cofres nos Estados Unidos, Europa e Ásia, em busca de mais segurança jurídica, acesso físico rápido ao metal e liquidez em caso de crise financeira ou geopolítica.

O que está mudando nas reservas de ouro

O movimento mais recente veio do Banco Central da Holanda, que decidiu tirar parte relevante de suas barras de ouro da América do Norte. A instituição transferiu mais de 78 toneladas do Federal Reserve de Nova York e outras 7 toneladas de cofres no Canadá para Londres, principal praça mundial de negociação de ouro físico.

Ao anunciar a operação, o governador do De Nederlandsche Bank (DNB), Olaf Sleijpen, foi direto: “We expect that we will never need to use them, but we do need to strengthen our resilience and preparedness”. A avaliação é que, em um cenário de crise, o metal armazenado em Londres pode ser convertido em liquidez com mais rapidez do que em outros centros.

A França também concluiu uma mudança drástica: entre julho de 2025 e janeiro de 2026, retirou todo o ouro que mantinha no Fed de Nova York, encerrando um ciclo histórico em que parte relevante dos estoques europeus ficava sob custódia americana.

Entenda o contexto

Desde a segunda metade do século passado, muitos países enviaram ouro para os cofres de Nova York e Londres, vistos como refúgios seguros em tempos de guerra e turbulência econômica. A escalada recente de tensões entre grandes potências, sanções financeiras e conflitos regionais, porém, levou bancos centrais a reverem onde e como essas barras ficam guardadas.

Em vez de concentrar tudo em um único país ou instituição, as autoridades monetárias passaram a combinar três objetivos: reduzir riscos de custódia, garantir acesso físico rápido ao ouro e preservar a capacidade de negociar o metal em grandes mercados, mesmo sob estresse.

“Central banks are increasingly optimizing across three considerations: custody risk, physical accessibility and market liquidity”, resume Krishan Gopaul, analista sênior do World Gold Council.

Europa puxa a fila da redistribuição

A onda atual de realocação tem forte protagonismo europeu. A Alemanha foi uma das primeiras a mexer nas posições em grande escala: transferiu 930 toneladas de ouro de Londres para Frankfurt em 2000 e, em uma segunda etapa, entre 2013 e 2017, levou mais 674 toneladas de Nova York e Paris para seus cofres domésticos.

A Holanda, além da decisão anunciada recentemente em direção a Londres, já havia trazido 122,5 toneladas de ouro de Nova York para Amsterdam em 2014, aumentando o peso do armazenamento em casa. A Áustria seguiu caminho parecido, repatriando 90 toneladas de Londres entre 2015 e 2018.

Mesmo com pressões políticas internas para retirar ainda mais ouro dos Estados Unidos, o Banco Central da Alemanha mantém parte de suas reservas em Nova York e faz questão de defender essa escolha. Em comunicado, a instituição afirmou que “The U.S. would harm itself if it threatened the confidence of financial markets”, indicando que, na avaliação alemã, a própria credibilidade do sistema financeiro americano é uma garantia adicional de segurança.

Venezuela e Índia reforçam guarda doméstica

Fora da Europa, países com histórico de volatilidade financeira também vêm mexendo em suas pilhas de barras douradas. A Venezuela repatriou 160 toneladas de ouro entre 2011 e 2012, num esforço de trazer a maior parte dos estoques para Caracas em meio a sanções e incertezas políticas.

A Índia, por sua vez, acelera desde 2023 a transferência de reservas que estavam no exterior para cofres sob sua jurisdição. A estratégia indiana combina aumento da guarda doméstica com manutenção de parte do ouro em centros internacionais, numa tentativa de equilibrar proteção contra choques externos e facilidade de uso do metal em operações financeiras globais.

Segurança já não basta: o que os bancos buscam agora

Para analistas, a novidade não é a ideia de repatriar ouro — algo que já ocorreu em ondas anteriores —, mas a forma como os bancos centrais estão desenhando a nova geografia do metal. Em vez de simplesmente “trazer tudo de volta”, cresce a preferência por uma malha de custódia distribuída, em múltiplas jurisdições consideradas confiáveis, com acesso a mercados profundos.

“But the emerging picture is one in which security alone is no longer enough. For some central banks, gold must also be accessible, tradable and distributed across locations that remain dependable under stress”, diz Krishan Gopaul. Na prática, isso significa manter parte do ouro em casa para garantir soberania e outra parte em praças como Londres, onde a liquidez é maior.

Ao mover 78 toneladas de Nova York e 7 toneladas do Canadá para o Banco da Inglaterra, o DNB deixou claro que Londres continua central para o sistema de ouro, apesar da perda relativa de protagonismo americano como depositário internacional. Para o banco holandês, a cidade oferece combinação difícil de replicar: grande volume de negociações, infraestrutura financeira sofisticada e estabilidade jurídica.

Impacto nos mercados e nos EUA

A redistribuição física de barras entre cofres em Nova York, Londres, Frankfurt, Amsterdam, Paris, Canadá e Ásia mexe com a logística e com a percepção de risco, embora não signifique venda maciça de ouro. O metal continua nos balanços dos bancos centrais, mas muda de endereço.

No curto prazo, essas operações podem influenciar custos de transporte, seguros e serviços de custódia, além de alterar parte dos fluxos de liquidez entre as principais praças de negociação. A presença maior de ouro em certos centros tende a reforçar o peso desses mercados em operações de financiamento, empréstimo e derivativos lastreados em barras físicas.

Para os Estados Unidos, a tendência representa perda gradual de protagonismo como guardião das reservas de outros países. A saída total da França do Fed de Nova York e os cortes promovidos por Holanda, Alemanha, Áustria, Venezuela e Índia reduzem o volume externo sob custódia americana, ainda que o país siga como um dos principais depositários globais.

Ao mesmo tempo, bancos centrais como o alemão evitam alimentar dúvidas sobre a segurança da infraestrutura financeira dos EUA, por enxergarem aí um risco sistêmico. A leitura é que qualquer abalo na confiança sobre Nova York teria efeito cascata sobre ativos, taxas de juros e estabilidade do sistema internacional.

Tendência é diversificar, não abandonar centros globais

O cenário que se desenha para os próximos anos é o de continuidade da diversificação. Alguns países devem reforçar ainda mais o armazenamento doméstico, em linha com experiências de Alemanha, Holanda, Áustria, Venezuela e Índia. Outros tendem a espalhar o ouro entre dois ou três grandes centros, para reduzir a dependência de uma única jurisdição e, ao mesmo tempo, manter acesso a mercados profundos.

Segundo Gopaul, a realocação não é um sinal de que os bancos centrais pretendem se desfazer do metal. O ouro continua visto como proteção em momentos de estresse, tanto financeiro quanto geopolítico. A mudança está menos na quantidade e mais na geografia: quem guarda, onde guarda e com que rapidez consegue usar esse ativo em uma emergência.

Fonte: matéria original