Core RJ: economista revela falha que ameaça boom da IA nos EUA
Torsten Slok, da Apollo, vê custo da computação maior que o benefício para usuários e diz que, fora os grandes hyperscalers, IA ainda não gera retorno financeiro, aumentando riscos em ações e crédito.

Tech Desk
Economista aponta que altos custos de computação podem limitar os ganhos financeiros da IA nos EUA, afetando investimentos.
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O economista-chefe da Apollo, Torsten Slok, disparou nesta semana uma série de alertas sobre o boom da inteligência artificial nos mercados dos Estados Unidos, afirmando que a tecnologia, por enquanto, virou mais centro de custo do que motor de lucro para a maior parte das empresas e já pressiona ações, crédito e planos bilionários de data centers.
Alerta sobre custo da computação e falta de retorno
Slok afirma que há uma falha econômica central na aposta otimista sobre a IA. “The core economic flaw in the AI bull case is that the marginal cost of producing compute exceeds the marginal benefit it delivers to users, raising questions about claims of unlimited demand for data centers”, escreveu o economista, em nota a clientes.
Na prática, ele diz que o custo marginal de gerar poder de computação está maior do que o ganho que isso traz ao usuário final. Com isso, a demanda por computação é mais limitada e sensível a preço do que o discurso de crescimento infinito de data centers sugere. Segundo Slok, o crescimento dos gastos com “tokens” de computação desacelera, e empresas demonstram menos disposição em pagar caro por serviços de IA.
“So far, the AI payoff for firms has been slow to materialize, implying a growing reluctance to pay for AI services”, escreveu. Para ele, companhias só continuarão a aceitar contas cada vez mais altas se isso aparecer em aumento de receita, lucros maiores ou reduções claras de custo — o que ainda não acontece em escala ampla.
Slok também sustenta que, até agora, os benefícios financeiros da IA estão concentrados em poucos gigantes de tecnologia, os chamados hyperscalers. “AI has delivered zero financial payoff to U.S. companies outside of the big hyperscalers”, afirmou, destacando que o restante das grandes companhias americanas não mostra ganho relevante de produtividade ligado à tecnologia.
Startups queimam caixa de venture capital
Um dos pontos mais duros da análise é o que ele chama de “circularidade” dos gastos com computação. De acordo com Slok, 80% dos maiores gastadores em IA hoje são startups financiadas por investidores de venture capital, o que indica que a conta de nuvem e de chips é bancada, em grande medida, por capital de risco e não por receita recorrente.
Esse ciclo em que dinheiro de fundos financia consumo de computação de empresas que ainda não geram caixa próprio levanta dúvidas sobre a sustentabilidade do modelo. Se o fluxo de capital de risco apertar, essas companhias podem ter dificuldade para manter o ritmo atual de uso de IA, o que afetaria também fornecedores de infraestrutura, de chips a operadoras de data center.
Para Slok, isso ajuda a explicar por que o efeito da IA no lucro corporativo ainda é tímido, apesar do frenesi em torno de novos modelos e serviços. “Maybe that will come in the future. Maybe not”, resumiu o economista, sobre a possibilidade de que o retorno financeiro apareça mais à frente.
Meta, CoreWeave e pressão no mercado de crédito
Os alertas chegam em um momento em que ações ligadas à IA, em especial de fabricantes de chips e empresas de infraestrutura digital, sofrem forte realização nas bolsas. Os grandes hyperscalers devem investir cerca de US$ 800 bilhões em infraestrutura de IA neste ano, e o capex total do setor pode ultrapassar US$ 1 trilhão no próximo, mas o mercado começa a questionar até onde essa conta vai.
A Meta, de Mark Zuckerberg, é um dos símbolos dessa tensão. A empresa planeja gastar entre US$ 135 bilhões e US$ 145 bilhões em 2026, boa parte em data centers e tecnologia de IA. Para financiar esse ciclo de investimento, a empresa já emitiu dívidas e criou uma nova classe de ações, movimento que se soma ao debate local sobre eventual imposto sobre grandes fortunas.
O custo de se proteger contra um calote da Meta subiu junto. Os swaps de crédito de cinco anos da companhia, instrumento usado para segurar o risco de default, atingiram 114,79 pontos base, o maior nível já registrado. O avanço indica que o mercado cobra um prêmio maior para carregar o risco atrelado a esses planos bilionários.
Empresas menores, como a provedora de infraestrutura CoreWeave, também estão sob pressão. As ações da companhia acumulam queda superior a 30% neste mês, enquanto seus swaps de crédito de cinco anos dispararam para 1.145 pontos base, patamar considerado estressado para empresas em expansão. O movimento reforça a percepção de que o entusiasmo com a IA começa a esbarrar em limites de financiamento.
Entenda o contexto
A leitura de Slok é que, fora um punhado de gigantes, a IA ainda não se traduziu em ganhos claros de produtividade nem em margens mais gordas. Ele lembra que, no mundo real, transformar algoritmos em dinheiro passa por decisões humanas complexas.
“AI may be a great calculator, but in business, intelligence is mostly judgment”, escreveu. Para o economista, julgamento envolve contexto, responsabilidade, confiança, cultura da empresa, regras não escritas, dilemas éticos e noções de justiça — fatores que a IA não domina, mas que pesam diretamente em risco de reputação, crescimento de receita e rentabilidade.
Nesse cenário, muitas companhias seguem cautelosas: testam ferramentas, mas evitam comprometer grandes fatias de orçamento sem evidência de retorno. A consequência é um descompasso entre o ritmo dos investimentos em infraestrutura e a disposição dos clientes em pagar por serviços sofisticados de IA.
Risco oculto em estruturas financeiras interligadas
Além do alerta da Apollo, analistas de crédito chamam atenção para a forma como os projetos de IA vêm sendo financiados. Mark Habib, chefe global de infraestrutura digital da S&P, afirmou que há “interconnected financing structures” — estruturas de financiamento interligadas — entre hyperscalers, projetos de data centers e empresas menores de IA.
Segundo Habib, isso pode significar que parte da dívida associada a esses projetos não aparece de forma clara nos balanços principais, o que dificulta medir o risco real. “It is safe to assume that there is more (debt) out there that we are not seeing”, disse, em mesa-redonda em Londres.
Ele acrescentou que, se certas obrigações não são reportadas diretamente pelos grandes grupos, e se as transações onde essas responsabilidades aparecem não são avaliadas por agências de rating, a visibilidade sobre o passivo total fica limitada. Nesse ambiente, uma piora nas condições de mercado pode se espalhar mais rápido do que hoje se consegue enxergar.
Esse tipo de estrutura é sensível para toda a cadeia da infraestrutura digital, de operadores de data centers a fornecedores de energia e startups que alugam grande volume de servidores. Para investidores em ações e em crédito, o recado é de maior escrutínio sobre quem, de fato, paga a conta dos projetos de IA e com qual dinheiro.
Mercado reavalia boom da IA
Os avisos de Slok e Habib alimentam uma postura mais cautelosa de investidores com o setor. Com custos de financiamento em alta e retorno operacional ainda incerto para a maior parte das empresas, a tendência é de maior seletividade na hora de apostar em projetos de IA e em empresas de infraestrutura digital, de hyperscalers a novatas como a própria CoreWeave.
Analistas já falam em uma provável desaceleração dos planos de capex mais agressivos e em uma possível onda de consolidação, em que sobrevivem as empresas capazes de mostrar receita orgânica e margens saudáveis com IA. As demais, muito dependentes de venture capital para bancar sua conta de computação, podem enfrentar um cenário bem mais duro de captação.

