IA acelera fake news e judicialização na eleição 2026 no Brasil
Vídeos sintéticos, fazendas de IA e guerra jurídica por remoção de posts redefinem a disputa Lula x Flávio Bolsonaro e escancaram limites da Justiça Eleitoral.

Inteligência Artificial
Tecnologias avançadas transformam o cenário eleitoral brasileiro, intensificando conflitos e desafios legais.
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A disputa presidencial entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) chega ao fim sob a marca de uma campanha intoxicada por desinformação alimentada por inteligência artificial, guerra jurídica em torno da remoção de conteúdos e suspeitas de tratamento desigual entre candidaturas nas redes sociais.
IA leva desinformação a outro patamar
O alerta da ministra Cármen Lúcia, ex-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), se confirma nas urnas. No início do ano, ela disse que um dos grandes desafios deste ciclo eleitoral seria enfrentar “a ameaça da desinformação sem restringir a liberdade de expressão”. Na prática, o avanço de ferramentas de inteligência artificial transformou esse desafio em crise.
O episódio mais emblemático ocorreu na convenção nacional do PL, quando a campanha de Flávio Bolsonaro exibiu um vídeo sintético em que Jair Bolsonaro, impedido de participar da disputa, aparece declarando apoio ao filho. A peça, produzida com IA, foi levada à Justiça Eleitoral e virou símbolo do debate sobre até onde é lícito simular a presença e a voz de figuras políticas em pleno período eleitoral.
Além desse caso, vídeos que imitavam telejornais e criavam eleitores fictícios apresentados como pessoas reais — práticas vedadas pelo TSE — somaram pelo menos 21 milhões de visualizações no TikTok ao longo da campanha, evidenciando a dificuldade de fazer valer as regras no ambiente digital.
Fazendas de IA turbinaram ataques e boatos
A produção e a distribuição de conteúdos manipulados ganharam escala com o uso das chamadas fazendas de IA, redes de perfis automatizados operadas para inflar publicações e empurrar boatos para o topo dos feeds.
Uma dessas redes, identificada por pesquisadores, reuniu 255 perfis que publicaram ou co-assinaram 1.204 posts em poucas semanas, alcançando 58 milhões de visualizações em um mês. Parte desse conteúdo mirava diretamente o Supremo Tribunal Federal (STF) e o próprio TSE, em ataques que questionavam a legitimidade do processo eleitoral.
Uma das contas mais influentes da rede acabou suspensa por determinação do TSE, que se baseou em relatórios técnicos sobre a atuação coordenada desses perfis. Mesmo assim, o impacto já estava dado: além de espalhar desinformação, os mesmos perfis anunciavam cursos ensinando usuários a produzir seus próprios vídeos políticos gerados por IA, com truques para driblar mecanismos de detecção.
Documentos falsos e deepfakes no alvo da PF
A fronteira entre propaganda agressiva e crime eleitoral também foi testada com a fabricação de documentos e “provas” falsas. Em um dos casos de maior repercussão, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) divulgou um documento atribuído à Polícia Federal (PF) que o isentaria de responsabilidade no chamado caso Master. A corporação confirmou posteriormente que o material era falso, e a investigação segue em curso.
O uso de IA também alimentou imagens forjadas que circularam como se fossem registros jornalísticos, como a foto de uma mulher negra limpando pichações após um ato pró-Lula em São Paulo, feita artificialmente. Ao mesmo tempo, Flávio Bolsonaro foi alvo de publicações que o acusavam, sem base real, de promover cortes em benefícios sociais, benefícios extras de fim de ano e programas educacionais.
Apesar de o TSE já ter estabelecido regras específicas para conteúdos sintéticos e deepfakes, com exigência de identificação visual clara, a campanha deste ano mostrou que a normatização ainda está longe de conter o fluxo de materiais enganosos em grande escala.
Entenda o contexto
A disputa de 2026 consolidou uma nova configuração da política digital no Brasil. Parlamentares e novatos com milhões de seguidores nas redes passaram a pautar o debate público com vídeos curtos, transmissões ao vivo e conteúdos que muitas vezes se aproximam mais da lógica de influenciadores do que da política tradicional.
Figuras como Nikolas Ferreira e Erika Hilton (PSOL-SP) foram reeleitas para a Câmara com forte base digital. Deputados como Lucas Pavanato (PL-SP) e André Janones (Rede-MG), além da deputada estadual paulista Eduarda Campopiano (PL), também se projetaram a partir desse modelo de atuação intensa nas redes.
Dentro do PT, o contraste ficou evidente. Após o primeiro turno, a deputada federal eleita Ana Elisa (PT-MG) criticou a resistência de setores do partido em investir pesado em comunicação digital e levou a Lula propostas para reposicionar a campanha nas redes, em meio ao avanço da máquina bolsonarista no ambiente on-line.
Como o WhatsApp virou campo de batalha eleitoral?
Os canais de WhatsApp se firmaram como uma das principais arenas da eleição, substituindo o papel central que os grupos em massa tiveram em disputas anteriores e se tornando objeto de decisões conflitantes dentro do próprio TSE.
No segundo turno, dois canais se destacaram: o Exército do Lula, articulado por André Janones, e a Tropa do Flávio, ligada à candidatura do PL. O primeiro ultrapassou 10 milhões de seguidores na reta final, enquanto o segundo reuniu mais de 2 milhões. Ambos funcionaram como centrais de distribuição de materiais de campanha, convocação de “mutirões” on-line e orientações para impulsionar publicações favoráveis.
O problema, apontam técnicos da Justiça Eleitoral, é que esses espaços também se tornaram vetores de desinformação. Em uma única semana desde sua criação, o canal Tropa do Flávio publicou 17 mensagens classificadas como falsas ou enganosas, em média 2,4 por dia, somando quase 92 mil reações. Os posts incluíam falas antigas de Lula descontextualizadas e dados econômicos distorcidos para sustentar o discurso de colapso generalizado no país.
Parte desse conteúdo vazou para outras plataformas, replicado por parlamentares e influenciadores alinhados ao PL, ampliando o alcance dos boatos e dificultando o trabalho de remoção e correção de informações.
TSE se divide sobre suspensão de canais
Nesse cenário, o TSE foi empurrado para o centro da disputa política. Até a reta final, as campanhas de Lula e Flávio acumulavam mais de 300 processos ligados a desinformação e ambiente digital. Somente entre representações apresentadas diretamente por partidos e coligações, Lula somou ao menos 73 ações, contra 92 de Flávio.
O Exército do Lula virou o caso mais sensível. A pedido da campanha de Flávio Bolsonaro, que acusava o canal de espalhar fake news, o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, determinou a suspensão do canal em uma decisão liminar. Horas depois, o corregedor-geral eleitoral, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, reverteu a medida após parecer técnico apontar que os conteúdos listados pela campanha não eram falsos.
O canal voltaria a ser derrubado dias depois, dessa vez por falhas formais: não havia sido registrado como ferramenta oficial de propaganda eleitoral. Regularizada a situação, o Exército do Lula retomou as atividades. Pouco depois, o plenário do TSE aprovou novas regras definindo quando canais administrados por apoiadores passam a ser considerados extensões oficiais de campanha.
Mesmo assim, a insegurança jurídica persistiu. Ministros chegaram a debater a suspensão temporária de grandes canais políticos nas horas que antecedem a votação, para reduzir o impacto de boatos de última hora. A proposta acabou descartada, mas deixou explícita a tensão entre segurança da informação e liberdade de expressão.
Em decisão recente, o ministro Floriano de Azevedo Marques determinou que o Exército do Lula não poderia mais ser suspenso ou limitado por decisão monocrática, exigindo análise do plenário em qualquer nova tentativa de bloqueio. A medida foi lida como recado interno contra decisões solitárias em temas de alto impacto político.
PF e STF entram no jogo
Enquanto o TSE tenta estabelecer balizas para o uso de IA e o funcionamento de canais políticos, outras instituições também são arrastadas para o centro da crise digital. A PF abriu investigações sobre a fabricação de documentos falsos e o uso coordenado de perfis automatizados, o que pode enquadrar operadores e financiadores dessas estruturas em crimes eleitorais e de outra natureza.
O STF, por sua vez, é alvo frequente de ataques impulsionados por fazendas de IA e perfis ligados a grupos radicais, o que alimenta a retórica de perseguição e censura usada por aliados de Jair e Flávio Bolsonaro. Integrantes do PL insistem que o Judiciário extrapola suas funções ao mandar remover conteúdos e suspender contas, enquanto ministros defendem que se trata de proteger a integridade do processo eleitoral.
Ao mesmo tempo, plataformas digitais são pressionadas em todas as direções: cobram delas respostas mais rápidas a ordens judiciais e mecanismos eficientes para rotular conteúdos sintéticos, mas também críticas de suposto alinhamento com um ou outro campo político quando decidem moderar publicações.
Tecnologia força revisão das regras do jogo
O saldo da eleição de 2026 é um sistema eleitoral sob pressão para se adaptar a uma realidade em que vídeos falsos, perfis automatizados e documentos fabricados podem virar arma política em minutos. A regulamentação da IA pelo TSE — com exigência de rótulos para conteúdos sintéticos e restrições a simulações de falas e aparições de terceiros — mostrou-se necessária, porém insuficiente.
A pressão agora é por mudanças estruturais: aperfeiçoar a legislação eleitoral, ampliar a responsabilização de quem financia e opera redes de desinformação, exigir mais transparência das plataformas e investir em tecnologias públicas de detecção de deepfakes e redes coordenadas.
Enquanto isso, a campanha deste ano consolida uma geração de políticos nativos digitais e aprofunda a sensação de parte do eleitorado de que não se pode confiar nem nas instituições, nem no que aparece nas telas. O resultado nas urnas resolve a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro, mas deixa em aberto a questão que atravessou toda a eleição: quem controla, de fato, o fluxo de informação que chega ao eleitor brasileiro.


