The Economist vê Flávio favorito e Lula como azarão
Às vésperas do 2º turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, The Economist aponta disputa mais acirrada desde a redemocratização, vê senador favorito e alerta para risco fiscal.

Eleições 2026
Análise aponta cenário apertado no segundo turno e destaca riscos econômicos para o país.
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Às vésperas do segundo turno presidencial deste domingo (25), a revista britânica The Economist descreve a disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) como a mais acirrada desde a redemocratização, trata o presidente como azarão em busca de uma virada e aponta o senador como favorito, enquanto alerta para o risco de a dívida pública brasileira chegar a 97% do PIB sem que nenhum dos dois candidatos abrace reformas estruturais.
Última capa da revista the economist 2026
Na série de textos publicada nesta semana, a revista pergunta: “Será que Lula, agora um azarão, ainda tem uma última carta na manga?”. Ao lembrar que “nenhum candidato que perdeu o primeiro turno conseguiu, até hoje, vencer o segundo”, a publicação ressalta que o petista “se recusa a ser derrotado” após terminar atrás de Flávio Bolsonaro na primeira rodada.
Segundo a Economist, desde o revés inicial Lula adotou “medidas drásticas” para tentar furar o bloqueio no eleitorado conservador. Entre elas, o apoio à redução da maioridade penal para crimes graves, a pressão sobre o Congresso para o fim da escala 6×1, a promessa de perdão da dívida de pequenas empresas, transporte público gratuito nos fins de semana, reajuste do Bolsa Família e a proibição das apostas esportivas.
A publicação afirma que as pesquisas indicam algum efeito dessas decisões, mas lembra que institutos “têm falhado repetidamente em captar com precisão o sentimento de direita”. Mesmo com cenário de empate técnico nas sondagens, a consultoria Le Millénaire, especializada em previsões eleitorais, calcula em 82% a probabilidade de vitória de Flávio Bolsonaro.
A Economist destaca ainda a diferença de capacidade de fogo digital: antes do primeiro turno, a campanha de Flávio gastou pelo menos US$ 2 milhões em impulsionamento online, contra pouco menos de US$ 500 mil da campanha de Lula. Em tom de alerta à equipe petista, o texto conclui: “Com apenas alguns dias de campanha restantes, a equipe de Lula deve esperar, ansiosamente, que os métodos tradicionais ainda se mostrem os melhores”.
Entenda o contexto
Atualizado na véspera do segundo turno, o monitor de pesquisas da revista define Lula como “um gigante da política latino-americana” que tenta preservar o próprio legado. O texto lembra que o petista é associado à retirada de milhões de brasileiros da pobreza por meio de programas sociais, à ampliação do acesso às universidades e à redução do desmatamento ilegal na Amazônia.
Ao mesmo tempo, a Economist afirma que “dispendiosas políticas” do governo o afastam dos investidores, menciona a deterioração das contas públicas e as altas taxas de juros reais, além de investigações que envolveram o PT. A revista sublinha que “o próprio presidente cumpriu 19 meses de prisão por corrupção, antes de a sua condenação ser anulada por um detalhe técnico em 2021”.
Sobre Flávio Bolsonaro, o monitor diz que o senador iniciou a campanha apresentando credenciais moderadas, mas “as propostas revelam que segue os mesmos moldes do pai”. A Economist escreve que “ele é a favor do impeachment de juízes do Supremo Tribunal Federal e fez afirmações incorretas de que as urnas eletrônicas do Brasil são fabricadas por uma empresa acusada de fraude”.
As principais bandeiras listadas para o candidato do PL são a defesa da libertação do ex-presidente Jair Bolsonaro, políticas de segurança pública mais duras, cortes de gastos públicos e redução da burocracia, em especial no licenciamento ambiental. A publicação observa que “alguns eleitores de direita desconfiam” de Flávio, citando investigações por suspeita de corrupção e ligações com milícias no Rio de Janeiro.
Num dos trechos mais duros, a revista menciona mensagens obtidas pela Polícia Federal no celular do banqueiro Daniel Vorcaro. Segundo o texto, “áudios vazados revelaram que ele [Flávio] pediu dinheiro a um banqueiro em desgraça, responsável pela maior fraude bancária de todos os tempos no Brasil”. O artigo também lembra que vários nomes cogitados para a vice-presidência recusaram o convite até que Flávio escolheu o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL), que chegou a ser acusado de estupro de vulnerável. Gaspar nega as acusações, e o pedido de investigação foi arquivado pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal.
The Economist 2026 predictions PDF
Em reportagem publicada nesta semana sob o título “A estranha economia do Brasil precisa de uma reforma séria”, a Economist traça um diagnóstico sombrio para o próximo governo, seja ele comandado por Lula ou por Flávio. Para a revista, “a estranha economia do Brasil precisa de uma reforma séria”, mas nenhum dos dois candidatos demonstra disposição para enfrentar o custo político das mudanças.
O texto reconhece que o país combina crescimento acima do esperado, desemprego baixo e inflação perto da meta do Banco Central. O problema, aponta a publicação, está nas contas públicas: “A dívida pública deve chegar a 97% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2026, ante 84% em 2022”. O avanço, segundo a análise, eleva o risco fiscal e tende a limitar a capacidade de investimento do governo.
No caso de Lula, a Economist afirma que o aumento do gasto e a falta de sinalização clara de contenção da dívida preocupam o mercado financeiro, ainda que políticas sociais tenham reduzido desigualdades. Em relação a Flávio Bolsonaro, a revista lista promessas como redução do número de ministérios, digitalização do setor público e venda de imóveis da União, mas considera improvável que esse pacote, isoladamente, seja suficiente para estabilizar a dívida.
A avaliação é de que medidas mais profundas — como revisão de benefícios tributários, controle rígido de despesas obrigatórias e ações para baratear o crédito — esbarrariam em forte resistência no Congresso e num ambiente político já marcado por polarização e judicialização.
Esse impasse, na visão da publicação, pode frustrar expectativas de investidores e manter o país preso a juros altos, baixo crescimento e aumento contínuo da dívida, qualquer que seja o vencedor da eleição.
Disputa acirrada e risco institucional
A Economist também descreve a escalada retórica de Flávio Bolsonaro contra instituições como o Supremo Tribunal Federal e o sistema eleitoral, ao mesmo tempo em que ele tenta se vender como opção de ordem, com discurso duro contra o crime e promessas de corte de gastos e de burocracia. A combinação, avalia a revista, mobiliza sua base, mas carrega potencial de tensão com outros Poderes.
Do lado de Lula, a guinada em direção a pautas tradicionalmente associadas à direita — como a defesa da redução da maioridade penal e medidas trabalhistas vistas como pró-empresariado, caso do fim da escala 6×1 — é lida como tentativa de furar o bloqueio em segmentos refratários ao petista. A aposta, segundo o texto, é de que a memória de avanços sociais e ambientais pese mais do que o desgaste com acusações de corrupção e o temor de descontrole fiscal.
Com as urnas abertas neste domingo, a fotografia traçada pela Economist é de um país dividido entre dois projetos que se enfrentam num ambiente de desconfiança, alta volatilidade do eleitorado e incerteza sobre a capacidade de qualquer governo de entregar as reformas que o próprio mercado julga indispensáveis.


