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Economia

Geração Z revoluciona trabalho, política e aposentadoria hoje

De jovens vistos como 'nova espécie' a adultos que adiam parar de trabalhar, mudanças geracionais já forçam empresas, sistema financeiro e política a se reinventar.

Geração Z revoluciona trabalho, política e aposentadoria hoje

Economia

Jovens da Geração Z transformam mercados e políticas ao adiar aposentadoria e mudar hábitos profissionais.

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Geração Z rompendo com a carreira tradicional, Geração X redesenhando a aposentadoria e jovens virando eleição presidencial: as diferentes gerações estão, ao mesmo tempo, reescrevendo as regras do trabalho, das finanças e da política no Brasil e no mundo, num movimento que já pressiona empresas, bancos, governos e partidos a se adaptar.

O que o autor best-seller quis dizer ao chamar os jovens atuais de uma nova espécie?

Para Gary Bolles, chair de futuro do trabalho da Singularity University, a geração atual de jovens adultos e adolescentes não é apenas mais uma leva de recém-chegados ao mercado: “Não estamos lidando com uma nova geração. Acredito que seja uma nova espécie de ser humano”, afirma o autor de “The Next Rules of Work”, que está em São Paulo pela quarta vez em um ano.

Ele explica essa provocação pela relação inédita da Geração Z com os dispositivos digitais e a informação em tempo real. “Eu não cresci com o que eu chamo de ‘dispositivo de distração digital’. Não sabia o que o líder de um país do outro lado do mundo estava pensando ao ser atacado, cinco minutos depois, porque está no YouTube. É um mundo totalmente diferente”, diz.

Na avaliação de Bolles, essa hiperconexão deu a essa geração algo raro no passado: margem de escolha. “Esses jovens têm acesso imediato a informações, dados e sinais do mercado que lhes conferem algo que as gerações passadas não tinham: opcionalidade.” Em vez de perseguir uma única carreira linear, a Geração Z tende a montar um portfólio de atividades, combinando emprego formal com projetos paralelos e bicos.

“A escada acabou. A carreira agora é um mapa de trilhas”, resume o especialista. Ter mais de um trabalho ao mesmo tempo, segundo ele, é uma forma racional de enfrentar um futuro imprevisível. O próprio Bolles é exemplo dessa lógica: sem diploma universitário formal, acumulou 27 empregos diferentes em seus primeiros 10 anos de mercado e se define como profissional “habilidoso por rotas alternativas”.

Aos jovens que se angustiam em encontrar um propósito definitivo, ele recomenda trocar a obsessão pela missão perfeita por algo mais prático: “Encontre o seu Cruzeiro do Sul, algo que o fascine e empurre você para frente. Apaixone-se por um problema e fique tão bom em resolvê-lo que as pessoas serão obrigadas a te pagar”, aconselha.

Qual é a diferença entre geração Z e geração Millennial?

A diferença central entre a Geração Z (os mais jovens da geração atual) e a Geração Y ou millennials (aqueles que hoje são adultos jovens) está menos na idade e mais na forma como cada grupo foi moldado pela tecnologia e pela economia.

Os millennials cresceram vendo a internet se espalhar e chegaram ao mercado de trabalho ainda sob a lógica da carreira em “escada”: entrar como estagiário, subir degrau por degrau, conquistar estabilidade. Muitos foram impactados por crises econômicas, desemprego e pela aceleração da precarização, o que abalou essa promessa.

A Geração Z já nasce em um ambiente totalmente conectado, em que redes sociais, streaming e acesso a dados em tempo real fazem parte da rotina desde a infância. Isso se traduz em menos paciência com hierarquias rígidas e mais disposição para experimentar múltiplas frentes de trabalho ao mesmo tempo — algo que Bolles descreve como “mapa de trilhas”.

Enquanto grande parte dos millennials ainda se vê pressionada a “achar sua paixão” em uma única carreira, a geração atual prefere testar, combinar atividades e trocar de rota sempre que percebe novos problemas a resolver ou oportunidades a aproveitar. Empresas que foram desenhadas para carreiras longas e estáveis já começam a rever estruturas para lidar com essa mobilidade constante.

Entenda o contexto

As transformações de comportamento de Geração Z, Geração Y e Geração X acontecem em um cenário de mudanças rápidas na economia, na tecnologia e na política. Automação, trabalho remoto, redes sociais, inflação e crises sucessivas mexem ao mesmo tempo com a ideia de emprego, de aposentadoria e de participação pública.

Enquanto os mais jovens questionam o modelo tradicional de carreira e rejeitam ambientes tóxicos, adultos de meia-idade lidam com a necessidade de trabalhar por mais tempo. Na política, a mesma juventude que troca de emprego com rapidez também se mobiliza em massa quando sente que valores como democracia e direitos estão em jogo.

Quais mudanças a geração X fez no conceito de aposentadoria?

Levantamento recente da seguradora norte-americana F&G Annuities & Life mostra que a Geração X, formada em geral por quem hoje está entre o fim dos 40 e os 50 e poucos anos, também está derrubando um velho modelo — o da aposentadoria como fim brusco da vida profissional.

De acordo com o estudo, 75% dos norte-americanos com mais de 50 anos pensam em adiar a aposentadoria. Só 21% ainda associam essa fase a uma interrupção total do trabalho. Para 65% dos pré-aposentados, o período é visto como oportunidade de reinvenção, o que inclui reduzir jornada, trocar de área ou iniciar um novo projeto.

A ideia de que a aposentadoria é uma transição gradual já é aceita por 60% dos entrevistados. Quando se olha apenas a Geração X, 55% veem essa etapa como uma passagem lenta do trabalho para o não trabalho — entre os baby boomers, que cresceram com o modelo clássico de “pendurar as chuteiras”, esse percentual cai para 31%.

Ao mesmo tempo, essa geração carrega forte insegurança financeira. Apenas 11% da Geração X se dão nota máxima em preparo para se aposentar, e 52% temem ficar sem dinheiro na velhice. “Independentemente do seu nível de poupança ou faixa de renda, as pessoas estão reconsiderando o momento de parar e repensando o que a própria aposentadoria significa”, afirma Conor Murphy, CEO e presidente da F&G.

Murphy destaca que, para alguns, trabalhar mais tempo é escolha — por gosto ou desejo de um novo capítulo profissional. Para outros, é imposição da realidade econômica. Já Ron Barrett, diretor de distribuição da seguradora, resume o novo cenário: “O caminho para a aposentadoria deixou de ser uma linha reta e o planejamento financeiro personalizado é cada vez mais indispensável”.

Essa mudança afeta diretamente bancos, fundos de pensão e governos. Produtos de previdência passam a ser desenhados para carreiras quebradas e múltiplas, com pausas, retornos ao mercado e combinações de renda. Para quem está na Geração X, o recado é que a palavra de ordem não é mais “parar”, e sim “planejar como e quanto continuar”.

Como a geração Z contribuiu para a virada histórica de Lula?

A Geração Z e os jovens adultos de esquerda tiveram papel decisivo na virada que levou Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência após ele terminar o primeiro turno atrás do adversário. A mobilização começou nas universidades e se espalhou pelas redes e pelas ruas, com foco em convencer indecisos e levar familiares às urnas.

Logo após o primeiro turno, estudantes da Universidade Federal Fluminense, em Niterói, saíram pela cidade em um ato sob chuva que se tornou o primeiro de muitos organizados pela juventude em capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Macapá, Florianópolis, cidades de Minas Gerais e Pernambuco, entre outras. Na mesma semana, jovens parlamentares eleitos se reuniram com Lula para planejar a estratégia dos 20 dias seguintes.

“Aquela reunião foi uma virada de chave”, conta o deputado federal eleito Guilherme Cortez (PSOL). “Houve um consenso de que a gente tinha falhado no primeiro turno em motivar as pessoas a irem votar.” A partir daí, entidades estudantis como a UNE e coletivos universitários organizaram atos em dez estados e no Distrito Federal, com grandes concentrações na avenida Paulista a poucos dias do segundo turno.

Nas redes, influenciadores e parlamentares jovens se articularam em torno de canais como o chamado “Exército do Lula”, no WhatsApp, que chegou a cerca de 11 milhões de seguidores. A estratégia foi misturar linguagem leve com orientação política direta e pedidos explícitos para que os jovens convencessem pais e avós a comparecer às urnas, numa operação apelidada de “cata-véio” na internet.

O resultado apareceu nas urnas: Lula foi eleito com 51,79% dos votos válidos, em uma disputa apertada e marcada pela virada entre o primeiro e o segundo turno. No discurso da vitória, o presidente agradeceu à juventude que tomou as ruas pela democracia, reconhecimento reforçado pelo vice, Geraldo Alckmin, que saudou os jovens e falou em “futuro começando ali”.

Mesmo após contestação de opositores, que não prosperou, a leitura entre lideranças políticas é que a Geração Z mostrou capacidade de coordenação em larga escala, combinando atos presenciais e guerra de narrativas nas redes. “É um fracasso, tem um engajamento maior que o da Kim Kardashian, e perdeu para a gente”, provocou Cortez, ao comentar adversários digitais. Para ele, as tentativas de reverter o resultado são “choro de perdedor, e esse choro Deus não escuta”.

A educadora e psicanalista Carolina Delboni, que pesquisa comportamento adolescente, destaca um traço emocional dessa mobilização: “Ao contrário dos adultos, que se mobilizam pelo medo, os jovens se mobilizam pela esperança”. Segundo ela, é nos grupos — das salas de aula aos fandoms de internet — que esses jovens encontram validação para suas ideias e sentimento de pertencimento, o que ajuda a explicar por que se engajam com tanta intensidade quando sentem que “o futuro” está em jogo.

Geração atual obriga empresas, escolas e política a se mexer

O choque entre a Geração atual, a Geração Z, os millennials da Geração Y e a Geração X em fase de pré-aposentadoria cria um ponto de tensão em vários setores. No trabalho, empresas acostumadas a prometer estabilidade e plano de carreira longo enfrentam funcionários que trocam de emprego com rapidez, rejeitam chefes autoritários e cobram flexibilidade. No sistema financeiro, produtos pensados para uma trajetória linear de 30 ou 35 anos na mesma firma já não bastam para quem migra de CLT para PJ, passa períodos em startups ou vive de “bicos” e projetos.

Na política, campanhas que falavam apenas a um eleitorado mais velho tiveram de aprender, às pressas, a dialogar com uma geração que se informa pelo celular e organiza atos em poucas horas. A tendência, apontam especialistas, é de que partidos e governos passem a incluir jovens não só como cabos eleitorais, mas como formuladores de políticas públicas, em temas que vão de emprego verde a saúde mental.

Nesse cenário, a “geração anos” que hoje chega ao ensino médio ou à universidade — marcada pela hiperconexão, pelo trabalho em trilhas e pela descrença na aposentadoria tradicional — não é apenas um público a ser entendido. Ela já está, na prática, redesenhando como o Brasil trabalha, poupa e escolhe seus governantes.