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Política

James Talarico lidera corrida decisiva contra Ken Paxton no Texas

Democrata James Talarico aparece com 49% das intenções de voto contra 43% de Ken Paxton na corrida ao Senado pelo Texas, em eleição-chave para o controle do Congresso dos EUA.

James Talarico lidera corrida decisiva contra Ken Paxton no Texas

Política

James Talarico se destaca em disputa crucial pelo Senado do Texas, impactando o equilíbrio do Congresso dos EUA.

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O democrata James Talarico, deputado estadual de 37 anos e seminarista presbiteriano, entrou na reta final das eleições de meio de mandato liderando a disputa ao Senado pelo Texas contra o republicano Ken Paxton, em uma corrida que pode quebrar mais de 30 anos de hegemonia republicana no estado e redefinir o controle do Congresso dos Estados Unidos.

Disputa bilionária em estado-chave

Pesquisas recentes de intenção de voto colocam Talarico com 49% contra 43% de Paxton, dentro de uma margem que mantém a eleição aberta, mas com vantagem para o democrata. A vaga pelo Texas é tratada por ambos os partidos como decisiva para o equilíbrio de forças no Senado e, por consequência, para o rumo das políticas nacionais defendidas pelo presidente Donald Trump e pela oposição democrata.

A campanha já é descrita como uma das mais caras da história do país, com gastos totais superiores a meio bilhão de dólares. Só a candidatura de Paxton recebeu US$ 150 milhões em doações do empresário Elon Musk, impulso financeiro que tornou o Texas um dos epicentros da eleição. Talarico, por sua vez, construiu a campanha em torno do combate à corrupção e da crítica à influência de grandes doadores e super PACs, prometendo uma “agenda abrangente contra a corrupção” caso chegue ao Senado.

“Vamos chocar o mundo quando recuperarmos o Texas”, afirmou Talarico em um comício recente, em que voltou a dizer que os texanos “estão fartos do extremismo e da corrupção” e “prontos para algo novo”.

Fé progressista contra nacionalismo cristão

Evangélico e mestre em estudos teológicos e políticas educacionais, Talarico usa a própria fé como pilar de um discurso abertamente progressista. O democrata defende diversidade religiosa, direitos da população LGBTQIA+, proteção a pessoas trans e políticas sociais robustas, em contraste direto com o nacionalismo cristão e as políticas anti-imigrantes associadas ao governo Trump e abraçadas por parte da liderança republicana texana.

Na campanha, ele afirma que a fé cristã deve servir para ampliar direitos, não restringi-los, e tenta furar a bolha partidária ao dialogar com cristãos que se incomodam com escândalos de corrupção e com a retórica mais dura contra minorias. Talarico foi professor do ensino fundamental, está em seu quarto mandato como deputado estadual e repete que sua trajetória está enraizada no Texas há oito gerações.

Paxton, atual procurador-geral do estado, chega à disputa marcado por sucessivos escândalos de corrupção e por ter sido alvo de impeachment na esfera estadual. Mesmo assim, consolidou-se como um dos principais aliados de Trump no Texas, assumindo a linha de frente de ações judiciais e discursos alinhados às pautas mais conservadoras. Em comícios, o republicano tenta colar em Talarico a imagem de alguém “fora dos valores texanos”, recorrendo a apelidos e resgatando declarações antigas do adversário.

Talarico admite erros de tom, mas diz que o rival age para desviar o foco: “Há declarações que fiz das quais certamente me arrependo. Há falas em que errei o tom; sou o primeiro a admitir isso. Mas Ken Paxton está selecionando, de propósito, meus comentários constrangedores para desviar a atenção de sua própria trajetória marcada pela corrupção”, disse o democrata.

Entenda o contexto

O Texas é um dos estados mais simbólicos para o Partido Republicano. Há mais de 30 anos, os democratas não conseguem controlar a política estadual, e a representação texana no Senado se consolidou como peça central da base conservadora em Washington. Em um cenário de polarização intensa, a possibilidade de um democrata vencer uma disputa majoritária ali acendeu o alerta máximo na campanha republicana nacional.

A eleição ocorre em meio às midterms, as eleições de meio de mandato em que eleitores renovam parte do Senado e da Câmara dos Deputados. Para os democratas, conquistar uma cadeira pelo Texas significaria não só encurtar o caminho para recuperar a maioria no Senado, mas também sinalizar uma mudança no mapa político do país — especialmente no chamado cinturão sulista, onde o partido acumula derrotas há décadas.

“Se os democratas conseguirem, acho que isso vai provocar muita reflexão e causar um grande abalo psicológico no Partido Republicano do Texas e de todo o país”, afirma o estrategista republicano Brendan Steinhauser, que atua em campanhas no estado.

Mobilização recorde em redutos conservadores

O tamanho da disputa se reflete na mobilização em cidades tradicionalmente conservadoras. Em Lubbock, município do oeste texano com cerca de 250 mil habitantes, milhares de pessoas foram a um ato recente de Talarico no Fiesta Center. Cerca de 3 mil apoiadores lotaram o espaço, enquanto outros mil acompanharam o discurso do lado de fora, por alto-falantes.

A cena é considerada incomum em um reduto que votou massivamente em Trump na última eleição presidencial. “É simplesmente incrível acompanhar isso. Desta vez é diferente”, avaliou Aaron Gonzalez, presidente do Partido Democrata no condado de Hockley, vizinho a Lubbock.

No mesmo horário, Trump e Paxton discursavam em um local com capacidade ainda maior, também em Lubbock, reforçando o esforço republicano para manter alta a participação do próprio eleitorado. O presidente aposta que o engajamento de sua base pode conter o avanço democrata em áreas onde a vantagem conservadora sempre foi tratada como garantida.

O nervosismo na cúpula republicana transparece em falas públicas. “Entendam: podemos perder o Texas. Os democratas estão levando muito mais gente às urnas do que os republicanos”, alertou o senador texano Ted Cruz em seu podcast. Don Huffines, candidato ao cargo de responsável pelas finanças do estado, foi ainda mais direto: “O Texas é a base do Partido Republicano na América. Quando a base racha, tudo desmorona. Quando perdemos o Texas, perdemos os Estados Unidos”.

Como a campanha de Talarico tenta virar a página

Talarico se apresenta como rosto de uma renovação política. Além de prometer endurecer regras contra a corrupção, ele defende a proibição de super PACs — comitês que podem arrecadar quantias milionárias de forma indireta para campanhas — e o fim de manobras de manipulação partidária de distritos eleitorais.

Na forma, o democrata aposta em símbolos culturais para se conectar com o eleitorado de um estado que valoriza fortemente sua identidade. A trilha sonora dos comícios é dominada por música country texana; o slogan das últimas semanas, “olhos atentos, corações valentes, não tem como perder”, é emprestado de uma série de TV sobre futebol americano colegial em uma pequena cidade texana. Nos discursos, Talarico fala de “tacos” de café da manhã, cita ícones locais como o cantor e compositor Lyle Lovett e repete que sua família está no Texas há oito gerações.

Entre os apoiadores mais entusiasmados estão jovens, cristãos progressistas e minorias raciais e de gênero, que veem na candidatura uma oportunidade de ganhar representatividade em um dos epicentros do conservadorismo religioso no país. “Os texanos estão prontos para a mudança. Estamos fartos do extremismo e da corrupção. Estamos fartos da política da divisão e prontos para algo novo”, resumiu o candidato em um de seus discursos mais recentes.

O que está em jogo para os republicanos

Enquanto Talarico tenta ocupar o espaço do discurso ético e de renovação, Paxton e aliados pintam o democrata como um risco aos valores tradicionais do estado, associando-o à pauta nacional democrata em temas como imigração, regulação de armas e direitos reprodutivos. A mensagem central dos republicanos é a de que perder o Texas significaria perder o país.

“Se perdermos o Texas, perderemos a América”, disse o próprio Paxton a apoiadores, ecoando o sentimento de que o estado é o esteio da influência conservadora em nível nacional.

A avaliação interna é a de que uma derrota em um reduto tão simbólico teria efeito cascata sobre a estratégia republicana, obrigando o partido a rever a dependência de figuras polarizadoras e a forma como lida com denúncias de corrupção entre suas principais lideranças. Em números concretos, a perda de uma cadeira no Senado em um estado grande como o Texas deixaria o partido mais distante de bloquear ou impor agendas legislativas no Congresso.

“O Texas é a base do Partido Republicano na América. Quando a base racha, tudo desmorona. Quando perdemos o Texas, perdemos os Estados Unidos”, resumiu Don Huffines, candidato a responsável pelas finanças do estado, em um dos alertas mais duros até aqui.

Com o calendário eleitoral chegando ao dia da votação, democratas e republicanos planejam intensificar a presença em cidades-chave como Austin, Dallas e Lubbock, apostando em comícios, porta a porta e campanhas digitais de última hora. O resultado no Texas deve servir como termômetro imediato do humor político do país em meio à polarização e indicar o rumo das estratégias nacionais das duas siglas para as próximas disputas presidenciais.