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Política

Trump elogia Lula, mas acusa fraude na eleição brasileira de 2026

Donald Trump afirmou que a eleição brasileira de domingo “parece ter sido fraudada”, sem apresentar provas, e atrasou felicitação oficial. Governo Lula reage e vê desgaste nas relações com EUA.

Trump elogia Lula, mas acusa fraude na eleição brasileira de 2026

Política

Ex-presidente dos EUA questiona integridade do pleito brasileiro e provoca tensão diplomática com o governo Lula.

Leia também: Apuração do TSE em 2026 tem oscilações entre Lula e Flávio

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta segunda-feira (26) que gosta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas disse que a eleição brasileira de domingo (25) “parece ter sido fraudada”, ao criticar a prorrogação do horário de votação e a contagem dos votos, sem apresentar qualquer prova. A declaração gerou reação imediata do governo brasileiro e adiciona tensão a uma relação já marcada por atritos políticos e comerciais.

Trump questiona eleição e adia parabéns ao Brasil

Em entrevista coletiva nos EUA, após horas de silêncio sobre o resultado, Trump classificou o processo eleitoral brasileiro como “muito estranho” e “péssimo para o mundo”. Ele mirou principalmente a decisão que estendeu em duas horas o horário de votação.

“Gosto de Lula, me dou muito bem com ele, mas a prorrogação concedida foi muito estranha”, afirmou. Em seguida, reforçou a suspeita, sem trazer indícios de irregularidade. “Achei que foi uma situação muito ruim. Não tomei partido, mas pareceu mais uma eleição fraudada. Foi uma imagem péssima para o mundo. As eleições precisam ser incontestáveis, e aquilo me pareceu muito ruim. Pareceu tão, tão corrupta, tão terrível”, disse o republicano.

Apesar de questionado sobre eventuais medidas em relação ao pleito brasileiro, Trump respondeu que é presidente dos Estados Unidos, “não do Brasil”, indicando que não pretende agir formalmente, ao menos por ora. Ainda assim, o governo americano segurou a divulgação do comunicado tradicional de congratulações pela eleição no Brasil, aguardando o desfecho da reação do senador Flávio Bolsonaro, derrotado por Lula na disputa de domingo.

O texto de felicitação já estava pronto no Departamento de Estado, como costuma ocorrer em eleições ao redor do mundo, mas a Casa Branca orientou que a publicação fosse adiada. Integrantes do governo Trump buscaram aliados de Flávio para saber se o senador reconheceria o resultado das urnas antes de bater o martelo sobre o tom da nota.

Flávio Bolsonaro recua de contestar resultado

Flávio Bolsonaro reagiu inicialmente contestando o resultado, ao alegar que a decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, de estender em duas horas o horário de votação teria comprometido a lisura do processo. O senador chegou a anunciar que pediria a anulação do pleito na Justiça.

Menos de 24 horas depois, porém, aliados convenceram Flávio a desistir da iniciativa. O recuo esvaziou a tese de fraude dentro do próprio campo bolsonarista e reduziu o espaço político para que Washington amplificasse as suspeitas levantadas por Trump.

Para observadores da política americana, essa combinação de discurso duro e cautela institucional indica que o republicano tenta manter influência sobre sua base mais radical, sem repetir integralmente o roteiro de confronto direto com instituições eleitorais estrangeiras.

Entenda o contexto

A postura de Trump no segundo turno contrasta com a do primeiro. No dia 4 de outubro, quando Flávio Bolsonaro terminou à frente de Lula, o presidente americano havia elogiado a rapidez da apuração no Brasil e usado o desempenho do aliado como exemplo para criticar o sistema eleitoral dos EUA. Chegou, inclusive, a comemorar nas redes o resultado do senador, que chamou de “grande vitória”.

Desde então, porém, a relação entre os dois governos se deteriorou. Em meio a disputas sobre tarifas comerciais, sanções a autoridades brasileiras e acusações mútuas de interferência em assuntos internos, Lula passou a explorar politicamente, no Brasil, a imagem de um Washington hostil e disposto a “abusar” do país.

Esse histórico faz com que qualquer fala de Trump sobre eleições brasileiras seja lida, em Brasília, não apenas como opinião, mas como gesto com potencial impacto diplomático e econômico.

Governo Lula reage e cita interferência da Meta

As declarações de Trump foram recebidas com irritação no Palácio do Planalto. Em entrevista, o assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, rebateu o americano e transferiu o foco das suspeitas.

“Quem tentou interferir nas eleições brasileiras foi a Meta, gigante de tecnologia dona do Facebook, do Instagram e do WhatsApp”, afirmou Amorim, em referência às acusações de que a empresa teria favorecido a candidatura de Flávio Bolsonaro ao restringir o alcance de publicações de Lula nas redes.

Para o governo brasileiro, Trump tenta deslegitimar um processo reconhecido internamente pelas instituições de controle e observadores eleitorais, sem trazer elementos que sustentem a acusação. A estratégia, avaliam auxiliares do presidente, enfraquece a confiança externa no sistema eleitoral do país e alimenta narrativas de desinformação nas redes sociais.

Ao mesmo tempo, o Planalto vê espaço para capitalizar politicamente a defesa da soberania sobre o processo eleitoral, reforçando o discurso de que o Brasil não aceita tutela ou chancela de potências estrangeiras sobre seus resultados nas urnas.

Distanciamento da família Bolsonaro

Para analistas, a fala de Trump também tem efeito doméstico na política brasileira, especialmente em relação à família Bolsonaro. O brasilianista Brian Winter, editor-chefe da revista Americas Quarterly, avaliou que o recado do republicano vai além das críticas ao sistema de votação.

“A parte fundamental não era ‘fraudada’, era ’não tomei partido’”, disse Winter, ao destacar a insistência de Trump em afirmar que não apoiou formalmente nenhum dos candidatos, apesar da proximidade pessoal com Flávio Bolsonaro e das críticas direcionadas ao processo que reelegeu Lula.

A sinalização é lida como um distanciamento calculado: Trump mantém retórica capaz de agradar eleitores que veem fraude em eleições, mas evita atrelar sua imagem diretamente a uma contestação frontal de Flávio, que não encontrou sustentação jurídica ou política para avançar com o pedido de anulação.

Na prática, esse movimento isola ainda mais o núcleo bolsonarista que defendia uma ofensiva contra o resultado e evidencia a dificuldade da família em obter, agora, o mesmo engajamento internacional que marcou disputas anteriores.

Mauro Vieira vai aos EUA em meio à tensão

No tabuleiro diplomático, a próxima cena está marcada para o fim de semana. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, embarca para os Estados Unidos para participar da reunião de chanceleres do G20, prevista para sexta (30) e sábado (31), em Atlanta, na Geórgia.

Durante a viagem, Vieira deve se encontrar com o secretário de Estado americano, Marco Rubio. Na agenda, segundo interlocutores, estará a necessidade de esclarecer a posição oficial de Washington diante da reeleição de Lula e de conter a contaminação das relações bilaterais pelas falas de Trump.

A diplomacia brasileira tenta, de um lado, obter um gesto claro de reconhecimento e respeito ao resultado das urnas por parte do governo americano; de outro, busca blindar negociações comerciais e de cooperação que vinham sendo construídas nas últimas rodadas de diálogo.

O atraso na divulgação do comunicado de parabéns, a pressão inicial em torno da reação de Flávio Bolsonaro e as insinuações de fraude por parte do presidente dos EUA são vistos, em Brasília, como um conjunto de sinais que exigem resposta firme, mas calculada, para evitar escalada da crise.

Enquanto isso, dentro e fora do país, cresce o debate sobre o papel das grandes plataformas digitais — como a Meta — na disputa eleitoral, tema que deve voltar com força em futuras eleições brasileiras e que já entrou no radar de autoridades regulatórias e dos tribunais.