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Política

Flávio Bolsonaro foge ao EUA após ordem de prisão do STF

Senador deixou o Brasil após intimação para entregar passaportes e chegou a Miami com visto concedido pelo governo Trump, em operação articulada com Marco Rubio.

Flávio Bolsonaro foge ao EUA após ordem de prisão do STF

Política

Senador Flávio Bolsonaro viaja aos EUA após determinação do STF para entrega de passaportes, em ação coordenada com autoridades americanas.

Leia também: Derrotado por Lula, Flávio Bolsonaro perde foro em 2027

O senador Flávio Bolsonaro (PL) deixou o Brasil em sigilo e desembarcou em Miami na tarde de terça-feira (27), após receber vistos do governo Donald Trump para permanecer legalmente nos Estados Unidos. A fuga ocorre em meio a investigações criminais, à ordem da Polícia Federal para entrega de seus passaportes em 24 horas e ao risco de prisão apontado pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF.

Fuga após intimação e derrota na eleição

Flávio chegou aos EUA por volta das 16h20 de terça, acompanhado da esposa Fernanda e das duas filhas, e foi recebido pelo irmão Eduardo Bolsonaro, que mora no país. A operação foi preparada nos dias seguintes à derrota de Flávio para Lula no segundo turno da eleição presidencial e menos de 24 horas depois de ele ser intimado pela PF a entregar os passaportes, decisão chancelada por Moraes diante de “risco concreto de evasão do território nacional”.

O senador é alvo de duas ações penais por suspeita de corrupção, envolvendo o Banco Master e desvios no INSS. Com o fim de seu mandato em fevereiro de 2027, ele perderá o foro especial no STF, o que, na avaliação de investigadores, aumentava a chance de medidas mais duras na Justiça comum. A PF também levou em conta, ao pedir o cancelamento dos passaportes, a visita recente de Flávio ao pai, Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar pela tentativa de golpe de Estado.

A ordem determinava a apreensão dos passaportes diplomático e comum do senador, incluindo documentos de outras nacionalidades, e fixava prazo de 24 horas para a entrega. O prazo terminou na manhã de terça sem que Flávio comparecesse. A PF emitiu alerta para reforço na vigilância de fronteiras, mas a saída do país já havia ocorrido.

Operação sigilosa e rotas sob investigação

A forma como Flávio deixou o Brasil ainda é tratada como ponto central da investigação. A primeira linha de apuração da PF é de que ele teria cruzado a fronteira pela Argentina, governada por Javier Milei, usando documento nacional de identidade e embarcado em aeronave privada rumo aos EUA. Um voo de um jato executivo de Buenos Aires para Puerto Iguazu, na fronteira com o Brasil, com nome de Flávio na lista de passageiros, é analisado como possível parte da rota.

Outra hipótese levantada por investigadores é que o trajeto pela Argentina tenha servido como despiste e que o deslocamento inclua passagem pela Venezuela, hoje sob influência direta dos EUA em questões de segurança. Pessoas próximas ao clã Bolsonaro, porém, afirmam que ele realmente saiu pela Argentina, mas a partir de outra cidade, sem detalhar qual. O governo Milei diz não ter registro oficial de entrada do político no país.

No início de terça, aliados de Flávio negavam a fuga e ironizavam a possibilidade, falando em “foguete do Elon Musk” ou dizendo que o senador “só se estivesse louco” para deixar o Brasil. Ao longo do dia, à medida que aliados nos EUA passaram a confirmar a chegada a Miami, a versão de que ele já estava em território norte-americano se consolidou.

Marco Rubio articulou apoio, e Trump garantiu vistos

Fontes ligadas ao governo Trump e pessoas do entorno de Flávio afirmam que a operação para tirá-lo do Brasil teve participação ativa do secretário de Estado americano, Marco Rubio. Caberia a ele a articulação diplomática e logística para assegurar a entrada do senador e de sua família e a concessão dos vistos, que autorizam sua permanência legal nos EUA.

Um aliado da família Bolsonaro nos EUA publicou mensagem nas redes sociais agradecendo Rubio pelo “apoio ao patriota Flávio Bolsonaro” e atacando o ministro Alexandre de Moraes. A Casa Branca de Trump foi informada com antecedência sobre o plano e concordou em garantir o amparo migratório ao senador, segundo uma autoridade americana ouvida sob reserva.

Após a derrota de Flávio na eleição, Trump chegou a afirmar que gostava de Lula, mas, sem apresentar provas, declarou que a eleição no Brasil “parece ter sido fraudada”. Esse discurso, adotado também por apoiadores do clã, reforça a narrativa de perseguição política que vinha sendo construída por Eduardo e outros aliados para justificar uma eventual saída do país.

Entenda o contexto

Flávio é investigado por suspeita de envolvimento em esquema de lavagem de dinheiro ligado ao Banco Master e a desvios em benefícios do INSS. No mesmo inquérito, é apurado o envio de recursos pelo banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”, sobre a vida de Jair Bolsonaro, com suspeita de que parte do dinheiro tenha bancado a permanência de Eduardo nos EUA.

Eduardo Bolsonaro vive nos Estados Unidos desde fevereiro de 2025, onde montou estrutura para permanência de longa duração. Em decisão do STF de junho passado, ele foi condenado a quatro anos e dois meses de prisão pelo crime de coação no curso do processo, por sua atuação junto ao governo Trump para intimidar o Judiciário brasileiro e tentar impedir a análise da trama golpista. Mesmo condenado, permaneceu em solo americano.

Ao pedir o cancelamento dos passaportes de Flávio, a PF citou o caso do advogado Willer Tomaz, amigo do senador e também investigado por lavagem de dinheiro no mesmo inquérito. “Willer Tomaz encontra-se fora do país desde 25.ago.2026, ao que tudo indica em Miami/EUA, sem registro de retorno. Isso ocorre mesmo após o ministro Alexandre de Moraes ter determinado a proibição de sua saída do país e o cancelamento de todos os seus passaportes”, diz o pedido encaminhado ao STF.

Para a PF, o precedente mostra capacidade financeira e rede de apoio de investigados ligados ao clã Bolsonaro para permanecerem indefinidamente no exterior. A corporação também lembrou manifestações públicas de Eduardo, que, em podcast recente, sugeriu que o irmão deixasse o Brasil caso fosse derrotado nas urnas, sob o argumento de suposta perseguição política. Na manifestação, os investigadores afirmam que “o pretexto anunciado é o de suposta perseguição política, que jamais foi demonstrada”.

Impacto político e pressão sobre relações Brasil-EUA

A fuga de um senador investigado, em desafio direto a uma ordem do STF e da Polícia Federal, expõe fragilidades no controle de fronteiras e acende alerta em setores de segurança e do Judiciário. Na prática, Flávio passa a estar fora do alcance imediato das autoridades brasileiras, o que tende a dificultar medidas como interrogatórios, cumprimento de mandados e eventual prisão preventiva.

Do ponto de vista político, a presença do senador em Miami, ao lado do irmão e de aliados já instalados nos EUA, ajuda a recompor o núcleo duro da família Bolsonaro em território estrangeiro. A derrota eleitoral, combinada com o refúgio no exterior, deve alimentar discursos de perseguição e fraude, mesmo sem comprovação, e reorganizar a estratégia da direita ligada ao ex-presidente em torno de uma base internacional.

Para o governo brasileiro, o episódio abre um foco de tensão com Washington. A participação direta do secretário de Estado Marco Rubio e a decisão de Trump de conceder vistos a um investigado que tinha passaporte cancelado pelo STF podem ser interpretadas como interferência em um caso judicial sensível. A tendência é que o Itamaraty seja pressionado a pedir explicações formais e avaliar pedidos de cooperação e eventual extradição, ainda que a concessão de status legal dificulte esse caminho.

Nos bastidores, aliados de Flávio falam na possibilidade de ele pedir algum tipo de proteção humanitária ou alegar risco de perseguição se voltar ao Brasil. Já a PF e a equipe de Moraes indicam que vão reforçar medidas de monitoramento de outros alvos e tentar bloquear novas evasões, inclusive com pedidos de apoio a países vizinhos para rastrear rotas aéreas e terrestres usadas na fuga.

Figuras próximas ao bolsonarismo foram às redes sociais para defender a saída do senador. O blogueiro Allan dos Santos, que também vive nos EUA, afirmou que Flávio “tem o dever de proteger” a mulher e as filhas. O deputado Nikolas Ferreira (PL) escreveu: “Se um candidato a presidente que recebe 60 milhões de votos precisa (supostamente) sair do país, que segurança tem um cidadão comum que se opõe ao atual regime?”.

Flávio, por sua vez, ainda não se pronunciou formalmente. Uma entrevista à imprensa está prevista para esta quarta-feira (28), em local não informado. A expectativa é que ele reforce a narrativa de perseguição política e critique decisões do STF, em especial de Alexandre de Moraes, enquanto seus advogados avaliam os efeitos jurídicos da fuga sobre os processos em curso no Brasil.