Herzog dá a Eisenkot missão de formar governo em Israel hoje
Presidente Isaac Herzog deu a Gadi Eisenkot 28 dias, prorrogáveis por mais 14, para montar coalizão e tentar encerrar impasse que pode tirar Benjamin Netanyahu do poder.

Política Internacional
Isaac Herzog confia a Gadi Eisenkot a tarefa de montar coalizão e resolver impasse político em Israel.
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O presidente de Israel, Isaac Herzog, encarregou neste domingo (8) o líder da oposição, Gadi Eisenkot, da missão de formar um governo, após as eleições legislativas do fim de outubro deixarem o parlamento sem maioria clara e abrirem espaço para uma possível derrota do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.
Eisenkot tenta governo de emergência com árabes e ultraortodoxos
Em cerimônia na residência presidencial em Jerusalém, Herzog confirmou que dará a Eisenkot o primeiro mandato para montar a coalizão. Após uma rodada de consultas com todas as legendas representadas no Knesset, partidos que somam 67 deputados recomendaram o ex-chefe militar para chefiar o novo gabinete, contra 46 que se mantiveram com Netanyahu. Para governar, são necessários ao menos 61 dos 120 assentos.
Nas redes sociais, Eisenkot disse ver o momento como uma virada na crise política israelense. “Chegou o momento de formar um governo de emergência nacional. Farei de tudo para que estejamos à altura”, afirmou o líder do partido Yashar, que entrou na política nacional impulsionado pela guerra em Gaza.
O plano de Eisenkot passa por uma coalizão inédita, que junta o apoio já sinalizado dos partidos árabes-israelenses com uma abertura de diálogo com partidos judeus ultraortodoxos. Somadas, essas siglas podem ser a chave para a maioria, mas a combinação expõe divisões profundas dentro do próprio bloco oposicionista.
Setores mais à direita da oposição rejeitam depender dos partidos árabes, formados em grande parte por descendentes de palestinos que permaneceram em Israel após a criação do Estado. A resistência é forte sobretudo entre aliados do ex-ministro Avigdor Liberman, que tem histórico de posições duras em relação aos palestinos e aos próprios árabes-israelenses.
Netanyahu reage e fala em “ameaça ao Estado de Israel”
Do outro lado, Netanyahu tenta preservar sua base e se mantém contrário a qualquer composição que inclua árabes-israelenses. Poucas horas antes do anúncio de Herzog, o primeiro-ministro voltou a atacar a ideia de uma coalizão com esses partidos, que classificou de islamistas, e elevou o tom.
“Uma coalizão com os partidos árabes desmantelaria o Estado de Israel por dentro”, declarou Netanyahu, em discurso a apoiadores. Ele acusa a oposição de colocar em risco a segurança nacional para tirá-lo do poder e insiste em um governo de unidade, mas sem abrir mão de liderar qualquer arranjo.
O partido Yashar, de Eisenkot, respondeu convocando aliados de Netanyahu e membros do Likud, legenda do primeiro-ministro, a romperem com o atual líder e se somarem a um governo de unidade sob comando do ex-chefe militar. A oposição já deixou claro que a saída de Netanyahu é condição para qualquer entendimento amplo.
Entenda o contexto
As eleições do fim de outubro foram as primeiras desde o início da guerra em Gaza, desencadeada pelo ataque do Hamas em 8 de outubro de 2023, e expuseram mais uma vez o país dividido em blocos de tamanho semelhante, incapazes de formar maiorias estáveis sozinhos. Entre 2019 e 2022, a mesma paralisia levou Israel a realizar cinco eleições.
Netanyahu está há quase duas décadas no poder de forma intermitente e é o premiê que mais tempo ocupou o cargo na história do país. Ele enfrenta processos por corrupção e é alvo de uma ordem de prisão do Tribunal Penal Internacional pelos atos relacionados à ofensiva em Gaza, o que aumenta a pressão interna e externa por sua saída.
Isaac Herzog vinha defendendo um governo de unidade nacional que reunisse partidos judaicos de diferentes espectros ideológicos, como forma de atravessar simultaneamente a guerra e a crise institucional. Como os líderes oposicionistas recusam qualquer governo chefiado por Netanyahu, o presidente optou por dar a Eisenkot a primeira chance de encontrar uma saída.
Serviço nacional e negociação com ultraortodoxos
No centro das conversas para uma nova coalizão está a disputa em torno do serviço militar obrigatório, tema sensível em meio à mobilização de reservistas para Gaza e para a fronteira com o Líbano. A isenção hoje garantida a grande parte dos judeus ultraortodoxos provoca forte ressentimento entre famílias seculares e religiosas que enviam filhos ao Exército.
Eisenkot propõe criar um serviço nacional para todos os israelenses, com a possibilidade de escolha entre funções militares e opções civis. A ideia busca acomodar as demandas dos partidos ultraortodoxos, mantendo algum tipo de contribuição obrigatória à sociedade, o que poderia destravar um acordo com essas siglas e aproximar também grupos laicos que exigem mais equidade.
Avigdor Liberman, conhecido por sua defesa de um Estado laico e por críticas duras aos privilégios dos ultraortodoxos, surpreendeu nos últimos dias ao admitir que pode apoiar uma lei que mantenha a isenção do serviço militar obrigatório para estudantes de seminários religiosos. O gesto abriu espaço para conversas mais pragmáticas, ainda que tenha contradito promessas feitas pelo próprio Liberman na campanha.
Calendário apertado e risco de novas eleições
Com o mandato recebido de Herzog, Eisenkot tem agora 28 dias para costurar uma maioria de 61 deputados e apresentar a composição do novo governo. Se demonstrar avanços, pode receber uma prorrogação de 14 dias. Caso fracasse, o presidente poderá passar a missão a outro líder político.
Se nenhuma alternativa emplacar, o país se aproxima novamente do cenário de novas eleições, ampliando a instabilidade em plena guerra e num momento de tensão social crescente entre judeus seculares, religiosos e cidadãos árabes-israelenses. O desfecho das negociações definirá não apenas o futuro de Netanyahu, mas também o rumo da política de segurança e das relações étnico-religiosas em Israel nos próximos meses.


