Vitória democrata nos EUA não reduz pressão de Trump sobre Brasil
Mesmo com maioria democrata no Congresso a partir de 2027, analistas avaliam que tarifas, pressão contra a China e medidas de segurança de Donald Trump seguirão intactas nas relações com o Brasil.

Relações Internacionais
Análise aponta continuidade das políticas de Donald Trump no Brasil apesar da vitória democrata nos EUA em 2026.
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A vitória do Partido Democrata nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, que tira dos republicanos o controle da Câmara e deve virar o jogo também no Senado a partir de janeiro de 2027, não deve aliviar a pressão do governo Donald Trump sobre o Brasil em comércio, geopolítica e segurança pública, segundo especialistas ouvidos pela reportagem.
Maioria democrata não alcança núcleo da política externa
Com 237 cadeiras projetadas para os democratas e 139 para os republicanos na nova Câmara dos Representantes, e uma tendência de 54 a 44 no Senado em favor da oposição a Trump, o Congresso americano caminha para se tornar um foco de resistência ao presidente em temas internos, como imigração e direitos civis. Mas, na relação com o Brasil, o efeito deve ser limitado.
O economista Otaviano Canuto avalia que a mudança pesa mais no tom do diálogo do que nas decisões práticas. “O Congresso mais democrata até modifica a capacidade de interlocução com o Itamaraty, mas ele não terá condições de mexer na política comercial de Trump, justamente onde estão as implicações mais fortes sobre a relação entre Washington e Brasília hoje”, afirma.
Na prática, seguem nas mãos do Executivo americano medidas como as tarifas adicionais sobre exportações brasileiras, a pressão para que o Brasil se afaste da China e as decisões de segurança que classificaram facções como Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas – etiqueta que abre margem para ações militares dos EUA contra esses grupos.
Entenda o contexto
Hoje, os republicanos ainda detêm a maioria no Senado, com 53 cadeiras contra 49 dos democratas, e controlam a Câmara, com 220 assentos frente a 215 da oposição. A virada projetada nas midterms inverte esse quadro a partir de 3 de janeiro de 2027, quando tomam posse os novos parlamentares.
Ainda há disputa em estados que podem consolidar o domínio democrata no Senado. No Alasca, por exemplo, 77% das seções estão apuradas e a democrata Mary Peltola aparece 625 votos à frente do republicano Dan Sullivan em uma das corridas mais apertadas deste ciclo eleitoral.
Mesmo assim, a estrutura institucional limita a capacidade do Congresso de interferir em decisões-chave de política externa, especialmente quando elas são tomadas por meio de decretos presidenciais, ordens executivas ou com base em dispositivos legais que delegam grande margem de manobra ao Executivo.
Tarifas, China e sanções seguem com Trump
Para o professor Lucas Leite, da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), a mudança no Capitólio não desmonta a agenda da Casa Branca para o Brasil. “Ele até terá mais empecilhos, especialmente na América Latina, mas a vitória democrata nas urnas não anula a agenda trumpista”, diz.
Nos últimos anos, o governo Trump elevou tarifas sobre uma série de produtos brasileiros, usando dispositivos como a chamada Seção 301 da legislação comercial americana, que permite sobretaxas unilaterais. Alguns itens já entram hoje nos EUA pagando taxa efetiva de 37,5%, após exceções decididas pelo próprio governo.
Esses instrumentos são desenhados para serem de uso amplo do presidente e pouco dependem de aval prévio do Legislativo. Revê-los exigiria maioria qualificada para derrubar eventual veto presidencial: 290 votos na Câmara e 67 no Senado, patamar considerado inalcançável no cenário atual.
Além das tarifas, segue ativa a estratégia de pressionar o Brasil a reduzir vínculos com a China, principal parceiro comercial brasileiro, e a se alinhar mais firmemente a Washington em disputas estratégicas. Na área de segurança, a classificação de facções brasileiras como terroristas, medida tomada unilateralmente por Trump, mantém aberta a possibilidade de ações extraterritoriais dos EUA, o que preocupa autoridades brasileiras.
Congresso mais crítico, mas com alcance limitado
A professora Regiane Bressan, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), vê espaço para mudanças no tom, mas não no conteúdo central das políticas. “É muito possível que as comissões de Relações Exteriores das duas Casas passem a ser presididas por democratas, e que isso levará a mais pedidos de esclarecimentos ao Departamento de Estado, por exemplo”, afirma.
O Departamento de Estado é hoje comandado pelo republicano Marco Rubio, figura central da linha dura de Washington na América Latina, responsável por ações como o endurecimento contra o governo da Venezuela e sanções a Cuba. Rubio já protagonizou choques públicos com Brasília, em especial após o anúncio de novas tarifas contra o Brasil, quando acusou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de “colocar seu ego acima” de um acordo comercial.
Com um Congresso hostil, o secretário tende a ser chamado com mais frequência para audiências e questionamentos. A própria condução de sanções individuais, como as já aplicadas e depois suspensas contra autoridades brasileiras com base na chamada Lei Magnitsky, pode virar alvo de escrutínio político.
Para Lucas Leite, porém, o alcance disso é restrito. “Deverá haver uma atuação mais robusta sobre o Departamento de Estado, o ator dessa pressão, de fato”, aponta. “Mas não vejo condições do Congresso reverter as tarifas impostas a partir da Seção 301 ou mesmo a Lei Magnitsky, porque eles são mecanismos de manejo do Executivo. Não são simples de mudar.”
Brasil ganha voz em ambiente e direitos, perde em economia
Do lado brasileiro, a leitura no governo Lula é de oportunidade parcial. Um Congresso americano com maioria democrata tende a ser mais receptivo à agenda ambiental e de direitos humanos defendida pelo Planalto, o que pode destravar cooperação em temas como combate ao desmatamento e financiamento de políticas climáticas.
Ao mesmo tempo, setores exportadores brasileiros – em especial ligados ao agronegócio e à indústria – seguem sob risco. Tarifas altas e incerteza regulatória pesam sobre investimentos e planejamento, enquanto a retórica protecionista de Trump encontra respaldo significativo tanto entre republicanos quanto em parte da base democrata, o que dificulta qualquer tentativa de afrouxamento rápido das barreiras.
Na área de segurança, a designação de facções brasileiras como terroristas adiciona um elemento de tensão permanente à relação bilateral, com impacto potencial sobre cooperação policial, inteligência e a própria soberania, diante da hipótese de ações unilaterais autorizadas por Washington.
Diplomatas brasileiros veem espaço para usar o novo Congresso como contrapeso político, amplificando críticas e questionamentos à política externa de Trump, mas reconhecem que as engrenagens decisórias mais duras seguem concentradas na Casa Branca.
Relação bilateral entra em ciclo de tensão prolongada
A tendência, apontam analistas, é de um período prolongado de atritos entre Washington e Brasília. O governo Lula deve intensificar o diálogo com parlamentares democratas e buscar apoio em frentes como clima, direitos humanos e defesa da democracia, ao mesmo tempo em que tenta blindar o país dos efeitos econômicos das tarifas e das sanções.
No médio prazo, a continuidade da pressão americana tende a acelerar a busca do Brasil por alternativas comerciais e geopolíticas, reforçando laços com a China e outros parceiros, inclusive em fóruns multilaterais. Internamente, o tema alimenta discursos de soberania e pode levar a ajustes em políticas de defesa e segurança para lidar com o risco de ações externas ancoradas na rotulagem de grupos nacionais como terroristas.
No Capitólio, a prioridade dos democratas recém-eleitos deve seguir concentrada na oposição à agenda interna de Trump – em especial imigração e direitos civis – deixando o Brasil em segundo plano. Para as relações bilaterais, isso significa mais visibilidade para conflitos e audiências públicas, mas pouca expectativa de mudança nas decisões que, de fato, afetam o bolso dos exportadores e a margem de manobra diplomática do governo brasileiro.


