Papa Leão XIV inicia viagem de 11 dias pela América Latina hoje
Pontífice de 71 anos passa 11 dias em Uruguai, Argentina e Peru para tentar fortalecer a Igreja Católica em uma região ainda muito religiosa, mas com menos fiéis católicos.

Viagem Papal
Pontífice visita três países latino-americanos para reforçar a presença da Igreja Católica em meio a desafios atuais.
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Papa Leão XIV, de 71 anos, iniciou nesta sexta-feira (6) uma viagem de 11 dias pela América Latina, em um roteiro por Uruguai, Argentina e Peru que tenta reaproximar a Igreja Católica de uma região ainda muito religiosa, mas onde cresce o afastamento do catolicismo tradicional e a busca por outras formas de espiritualidade.
Quando começou a visita do Papa Leão XIV à América Latina?
A visita começou nesta sexta-feira (6), com a chegada do pontífice ao Uruguai, primeira parada de um roteiro que inclui também Argentina e Peru e soma cerca de 31 mil quilômetros percorridos em menos de duas semanas.
Leão XIV desembarca no continente poucas semanas depois de se submeter a uma cirurgia para tratar um câncer de pulmão. Mesmo com a recuperação recente, o Vaticano manteve intacta uma das agendas internacionais mais exigentes já assumidas pelo pontífice, com missas ao ar livre para milhões de fiéis, encontros com jovens, discursos a autoridades e viagens de helicóptero até comunidades remotas nos Andes.
O caminho começa por um Uruguai considerado dos países mais seculares da região, segue para a Argentina, berço de seu antecessor, o papa Francisco, e termina no Peru, país onde Leão XIV atuou como missionário, foi bispo e se tornou cidadão antes de chegar ao trono de Pedro.
Quais países da América Latina o Papa Leão XIV vai visitar?
O papa vai visitar três países: Uruguai, Argentina e Peru, em 11 dias de viagem. A previsão é de dois dias em solo uruguaio, três na Argentina e quase uma semana no Peru, etapa mais longa do roteiro.
Em cada um deles, a programação combina grandes celebrações públicas e gestos simbólicos. No Uruguai, a expectativa é de missas campais e encontros com comunidades de periferia, onde padres já relatam aumento na procura por batismos, primeiras comunhões e participação nas missas com a proximidade da visita.
Na Argentina, o foco será o diálogo com jovens e famílias em um país que vive forte polarização política e onde a Igreja também perde espaço para igrejas evangélicas e práticas espirituais individualizadas. No Peru, o papa deve reforçar laços com regiões andinas pobres, sobrevoando de helicóptero áreas de difícil acesso e celebrando atos em comunidades que ele conhece desde os tempos de missionário.
Entenda o contexto
A viagem acontece em meio a uma mudança profunda no mapa religioso latino-americano. A América Latina continua sendo a região com maior número de católicos do mundo, mas há uma queda consistente na identificação com a Igreja.
Levantamento divulgado em 2024 pelo Pew Research Center, em seis dos países mais populosos da região, registrou queda na proporção de pessoas que se declaram católicas em todos eles em relação a dez anos antes. Cerca de um em cada cinco adultos afirmou ter sido criado no catolicismo, mas ter deixado a Igreja.
“Observamos um declínio em todos os países que pesquisamos em 2024”, disse Kirsten Lesage, pesquisadora associada do Pew. Segundo ela, “há menos pessoas se identificando [como católicas]”, embora a região siga “muito religiosa sob diversos critérios”.
Nesse cenário, avançam as igrejas evangélicas — em especial as pentecostais — e se espalha o que estudiosos chamam de religiosidade “à la carte”: menos vínculo formal com uma instituição e mais combinação pessoal de crenças, rituais e práticas de diferentes tradições.
Por que a visita do Papa Leão XIV é importante diante do declínio do catolicismo?
A viagem é vista dentro da própria Igreja como uma tentativa de recuperar vínculos em um momento em que, mais do que perder a fé em Deus, muitos latino-americanos se afastam das instituições religiosas. A preocupação central não é a descrença, mas a forma de crer.
“Não pertencer a uma religião não significa que as pessoas não tenham fé. Significa que vivem a fé à própria maneira”, afirma o padre Jorge Reinaudo, que lidera uma paróquia em Córdoba, uma das cidades do roteiro na Argentina, e fala diariamente com cerca de 800 mil seguidores em diferentes redes sociais.
Reinaudo relata que sobretudo os jovens buscam espiritualidade em retiros, momentos de silêncio e práticas inspiradas em religiões como budismo e hinduísmo, muitas vezes combinadas com elementos tradicionais do cristianismo, como o rosário e a água benta. A presença do papa, nesse contexto, serve para tentar mostrar que há espaço para essa busca dentro do catolicismo, e não apenas fora dele.
Pesquisadores de religião apontam ainda que visitas papais costumam produzir efeitos imediatos de reaproximação, como já se observa em paróquias uruguaias com aumento de presença nas missas e na procura por sacramentos. A dúvida é se esse impulso se mantém quando as luzes dos grandes eventos se apagam.
Fé forte, confiança abalada
Para parte dos fiéis, o afastamento não é da espiritualidade, mas da instituição. O hondurenho Marverick Ruben Mendoza Oseguera, de 31 anos, criado no catolicismo, conta que passou a questionar a religião organizada depois de presenciar, em comunidades religiosas, episódios de violência contra mulheres e situações em que integrantes do clero pareciam proteger agressores.
“Experiências como essas minaram a confiança e a fé de muitos jovens, inclusive a minha”, relata. Ele hoje não se identifica mais como católico, mas participa semanalmente, pela internet, de uma adoração eucarística para lidar com a ansiedade. “Parece mais que estou passando um tempo com um amigo próximo”, diz.
A pesquisa de 2024 do Pew também mostrou um corte geracional claro: adultos com 50 anos ou mais são mais propensos a se declarar católicos do que jovens de 18 a 34 anos. Entre estes, cresce o grupo que prefere se dizer “sem religião”, embora mantenha crenças e práticas espirituais diversas.
Crescimento evangélico e desafio católico
Enquanto o catolicismo perde identificação, as igrejas evangélicas ampliam presença sobretudo entre trabalhadores urbanos. Em vários países, templos pentecostais ocupam esquinas e ruas comerciais, com cultos marcados por música alta, testemunhos pessoais e linguagem direta.
Especialistas destacam que esse estilo de pregação ajuda a explicar parte do crescimento. Um professor de filosofia da religião ouvido pela reportagem afirma que os pentecostais “vão direto ao testemunho pessoal, como fazia a Igreja primitiva”, enquanto a Igreja Católica, quando chega aos bairros mais pobres, muitas vezes é percebida mais pelo trabalho social do que pela evangelização.
Ao percorrer comunidades periféricas de Montevidéu, Buenos Aires e cidades peruanas, Leão XIV tenta responder justamente a essa crítica: mostrar um catolicismo mais próximo da experiência cotidiana das pessoas, com escuta, linguagem simples e ênfase no encontro pessoal.
Efeitos imediatos nas comunidades
Em bairros populares da capital uruguaia, padres já notam mudanças antes mesmo da missa papal. Na paróquia Nuestra Señora de Guadalupe, em Casavalle, o pároco Pablo Coimbra relata aumento de fiéis nas celebrações e mais pedidos de batismos e primeiras comunhões desde que a viagem foi confirmada.
Para Coimbra, a presença do pontífice toca algo que seguia latente em parte da população. “A visita do papa talvez tenha despertado uma lembrança, algo profundo no coração das pessoas em relação à fé e ao sentimento de pertencimento à Igreja”, afirma.
Ao longo dos 11 dias de viagem, a Igreja Católica deve medir não apenas quantos participam das grandes missas ao ar livre, mas sobretudo se o tour de Leão XIV consegue transformar entusiasmo momentâneo em vínculo duradouro em uma América Latina que continua muito crente, mas cada vez menos oficialmente católica.


