Edinho, com aval de Lula, mira expulsão de ala do PT
Presidente do PT quer afastar integrantes do chamado 'centrão petista' acusados de omissão na campanha e infidelidade a Lula; Quaquá é primeiro alvo e reage.

Política
Liderança do PT busca afastar membros do 'centrão petista' por deslealdade e falta de comprometimento na campanha presidencial.
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O presidente do PT, Edinho Silva, defende com o aval de Luiz Inácio Lula da Silva a expulsão de dirigentes acusados de se omitirem na campanha presidencial e de integrar o chamado “centrão petista”, num movimento que mira diretamente o prefeito de Maricá (RJ), Washington Quaquá, e pode redesenhar o comando interno do partido.
Edinho fala em “divórcio litigioso” e mira nova maioria
A ofensiva foi apresentada em reunião da Executiva Nacional do PT na quinta-feira (29), quando Edinho propôs que dirigentes que cruzaram os braços na eleição deixem voluntariamente a sigla. No discurso de encerramento, elevou o tom e falou em “divórcio litigioso” — ou seja, expulsão — abrindo caminho para um processo formal contra opositores internos.
Segundo relatos de participantes, Edinho relatou ter se reunido com Lula em um café pouco antes do encontro e dito que o presidente da República quer uma “nova maioria” no PT, alinhada ao programa de governo. Ele repetiu uma avaliação atribuída a Lula ao afirmar que “o partido não deve ser instrumento de projeção e enriquecimento pessoais, mas um projeto coletivo”.
Na prática, a Executiva interpretou que o presidente do PT recebeu carta branca de Lula para enquadrar a ala batizada de “centrão do PT” — grupo de parlamentares e dirigentes visto internamente como adaptado às práticas tradicionais do Congresso, em especial o uso ampliado de emendas parlamentares no Orçamento, cujo peso Lula promete reduzir.
Quaquá é primeiro alvo e acumula pedidos de expulsão
Dentro desse tabuleiro, Washington Quaquá, prefeito de Maricá, é apontado como primeiro alvo. Presidente estadual do PT no Rio e vice-presidente nacional da sigla, ele já responde a pedidos de expulsão na comissão de ética por posicionamentos polêmicos, como a defesa do conselheiro Domingos Brazão, apontado em investigações como mandante do assassinato de Marielle Franco, e o apoio público a uma operação policial que deixou 120 mortos no estado.
As representações, até agora, não andaram. A leitura de um setor da cúpula é que a nova orientação de Lula e Edinho pode destravar esses processos e servir de base para uma limpeza mais ampla, que inclua outros nomes associados ao “centrão petista”.
Além do histórico recente, pesa contra Quaquá a avaliação de que faltou empenho na campanha de Lula no Rio de Janeiro, inclusive em Maricá, onde o presidente foi derrotado nos dois turnos. Petistas próximos a Edinho afirmam que houve omissão de dirigentes locais em um momento considerado decisivo para a virada nacional.
Ausência na Executiva e disputa na CNB acirram crise
Quaquá não participou da reunião da Executiva Nacional em que Edinho subiu o tom. Ele boicotou o encontro, argumentando em grupos internos que aquele não era o fórum adequado para avaliar a campanha presidencial, e tentou articular uma dissidência contra o presidente do partido.
A crise atinge o coração da CNB (Construindo um Novo Brasil), corrente majoritária do PT e base histórica de Lula. Tanto Edinho quanto Quaquá pertencem à mesma tendência, que vinha mantendo um acordo de convivência: após entendimento costurado por Lula, Quaquá apoiou Edinho na disputa pela presidência do partido. A escalada atual ameaça esse pacto e pode reabrir rachas antigos dentro da CNB.
Integrantes da Executiva avaliam que, se a expulsão de Quaquá avançar, outras lideranças ligadas ao “centrão petista” podem entrar na fila, o que redesenharia o mapa de forças do PT nos estados e na direção nacional.
Quaquá reage e diz ser “PT raiz”
Do lado fluminense, a reação veio com ataques diretos a Edinho. Quaquá afirma que foi um dos principais fiadores da campanha de Lula no Rio e que o estado só não teve atuação maior de seu grupo porque o filho, Diego Zeidan, integrante da coordenação, precisou se afastar por quatro dias por orientação médica após um pico de pressão, deslocando-se para a Bahia.
Ele acusa Edinho de tentar criminalizar divergências internas e de usar a presidência do partido para perseguir adversários. “Eu tenho tanto ou mais tempo de PT que ele. Com a diferença de que sou de favela. Se alguém tem que sair do PT e ir para PSOL é ele. Eu sou PT raiz”, afirmou Quaquá, chamando o presidente do partido de mentiroso, incompetente e “fofoqueiro”.
Aliados de Quaquá dizem ver na investida de Edinho uma tentativa de consolidar poder na Executiva e isolar quadros que defendem maior autonomia das direções estaduais em relação ao núcleo nacional ligado ao Planalto.
Entenda o contexto
A ofensiva contra o “centrão petista” ocorre no rastro da eleição presidencial vencida por Lula, cuja reta final foi marcada por forte mobilização de movimentos sociais e jovens militantes. Nos bastidores, o presidente tem repetido que o PT precisa responder “ao recado das ruas” e se reconectar com as bases populares que garantiram a vitória.
Segundo relatos de dirigentes, Lula tem alertado que, se o PT não se renovar e não se alinhar às propostas apresentadas na campanha, parte dessa juventude pode abandonar a legenda e até fundar um novo partido. Essa preocupação embasa a defesa de uma “nova maioria” no diretório nacional, com depuração de quadros vistos como distantes desse espírito.
Entre as bandeiras que Lula quer ver refletidas na prática partidária está a redução do peso das emendas parlamentares no desenho do Orçamento, mecanismo que ampliou o poder de barganha de grupos no Congresso e aproximou setores do PT de práticas associadas ao centrão tradicional.
Campanha, panfletos e ameaça de corte de recursos
A cobrança por fidelidade não se limita à cúpula. Ainda durante a campanha, em setembro, Edinho determinou que materiais de candidatos a deputado incluíssem o nome de Lula e dos postulantes a governos estaduais e ao Senado apoiados pelo PT. Ele ameaçou exigir a devolução de verbas do fundo eleitoral em caso de descumprimento.
A orientação veio após circular em grupos internos uma série de panfletos de petistas sem referência ao presidente ou aos candidatos majoritários, o que alimentou acusações de infidelidade e oportunismo. De acordo com relatos, Lula guarda exemplares desses materiais e espera que os responsáveis sejam enquadrados no processo de “divórcio” defendido por Edinho.
Dirigentes avaliam que a nova linha pode ter efeitos diretos sobre campanhas futuras: candidatos tendem a ficar mais dependentes da chancela da direção nacional, sob pena de sanções financeiras e até disciplinares, caso tentem se descolar da imagem de Lula em disputas locais.
Risco de racha e próximos passos no PT
O endurecimento contra o “centrão petista” é visto por setores internos como um divisor de águas. De um lado, aproxima o partido do discurso de renovação e de compromisso com a base popular; de outro, tende a acirrar confrontos regionais e a fragilizar lideranças influentes em estados estratégicos, como Rio de Janeiro e Bahia.
A Executiva Nacional deve seguir discutindo a abertura de processos disciplinares e eventuais mudanças na composição da direção. Integrantes da corrente CNB admitem reservadamente o risco de um racha caso a expulsão de Quaquá e de outros nomes avance sem negociação política.
No Congresso, a mudança de correlação de forças interna pode influenciar a postura da bancada em temas centrais do governo, como o controle de emendas parlamentares e a condução do Orçamento, reduzindo o espaço de manobra de deputados e senadores que hoje orbitam o chamado “centrão do PT”.


