Flávio Bolsonaro nega ajuda, EUA confirmam ação da Casa Branca
Em entrevista, Flávio Bolsonaro diz que organizou sozinho sua saída do Brasil e que manterá em segredo o trajeto, enquanto autoridades americanas relatam apoio da Casa Branca e aval direto de Donald Trump.

Política
Flávio Bolsonaro afirma ter planejado sua saída do Brasil sem auxílio, apesar de relatos oficiais dos EUA sobre apoio governamental.
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De Miami, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirma que deixou o Brasil por conta própria para evitar ser preso e que vai “levar para o túmulo” como chegou aos Estados Unidos, mas autoridades americanas ouvidas pelo jornal que o entrevistou dizem que um funcionário da Casa Branca organizou o jatinho e que a entrada do parlamentar foi autorizada diretamente pelo então presidente Donald Trump.
Flávio diz que saída foi decisão familiar e sem apoio de governos
Na entrevista de 75 minutos, Flávio relata que decidiu sair do país após a derrota nas eleições presidenciais, temendo repetir o destino do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado. Segundo ele, a escolha foi tomada em uma conversa com a esposa, na manhã seguinte ao segundo turno, depois de ser informado de que teria 24 horas para entregar seus passaportes.
O senador descreve também uma conversa reservada com Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar. “Ele olhou nos meus olhos e disse: ‘Você já sabe onde eles vão chegar com isso, não sabe?'”, contou. “Eu disse: ‘Pai, já sei. E estou preparado, sei o que tenho de fazer.’ Virei as costas e fui embora”, relatou.
Flávio afirma que, a partir dali, tomou sozinho as providências para deixar o país. Ele passou por Equador e Argentina antes de seguir para Miami, onde desembarcou em 28 de outubro, três dias após o segundo turno. Na Argentina, segundo o próprio senador, um assessor próximo do presidente Javier Milei o recebeu em um aeroporto.
Questionado sobre o trajeto e quem o ajudou, o parlamentar se recusou a detalhar. “Como cheguei aqui, vou levar isso para o túmulo comigo”, disse. Em outro momento, reforçou: “Foi tudo por minha conta. Não houve ajuda de absolutamente ninguém, de nenhum governo”.
Relato de Flávio diverge de informações de autoridades dos EUA
O discurso do senador, porém, contrasta com informações que o próprio jornal americano atribui a autoridades dos Estados Unidos. Esses interlocutores afirmam que um funcionário da Casa Branca foi responsável por organizar o transporte aéreo em jatinho até Miami e que a autorização de entrada de Flávio no país foi dada diretamente por Donald Trump.
O jornal também informa que Flávio, a esposa e as duas filhas receberam uma autorização migratória para permanecer nos EUA por ao menos um ano, em um tipo de visto comumente classificado como humanitário. O senador diz que ainda não decidiu em que cidade a família vai se estabelecer e insiste que vê a mudança como temporária. “Vou precisar seguir com minha vida a partir dos Estados Unidos, pelo menos por enquanto”, afirmou.
A contradição entre a versão pública de Flávio e o relato de autoridades americanas abre espaço para questionamentos políticos e diplomáticos, tanto no Brasil quanto no exterior, sobre o grau de participação de governos estrangeiros na saída de um parlamentar brasileiro sob investigação.
Entenda o contexto
Flávio Bolsonaro responde a duas investigações no Supremo Tribunal Federal que apuram suspeitas de irregularidades financeiras e lavagem de dinheiro. Em uma delas, investigadores miram o repasse de quase 70 milhões de dólares do Banco Master para o filme “Dark Horse”, que trata da trajetória política de Jair Bolsonaro. A apuração tenta esclarecer se parte do valor foi desviada para outras finalidades, por meio de um fundo imobiliário nos Estados Unidos administrado pelo advogado Paulo Calixto, amigo de Eduardo Bolsonaro.
Em outra frente, a Polícia Federal investiga possíveis operações de lavagem ligadas ao advogado Willer Tomaz, empresas de pagamento e o setor de apostas no Rio de Janeiro. Relatórios apontam movimentações milionárias e registros de uma empresa com sede em Portugal na qual o senador apareceria como “usuário master”. Flávio admite a amizade com Tomaz, mas nega ter controle ou poderes sobre contas do advogado.
As duas apurações tramitam no STF, sob relatoria dos ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes. No dia seguinte ao segundo turno, Moraes determinou a apreensão dos passaportes do senador no processo que trata da relação com Willer Tomaz. Flávio divulgou um vídeo dizendo que entregaria os documentos e que não pensava em deixar o país, mas não cumpriu o prazo estabelecido. Cerca de 40 horas depois, já estava em Miami.
Com o fim do mandato em 31 de janeiro de 2027, o senador perderá a imunidade parlamentar. Especialistas, contudo, avaliam que isso não significa, automaticamente, a saída dos casos do STF: a Corte tem mantido o foro privilegiado quando entende que os supostos crimes foram cometidos durante o mandato e têm relação direta com as funções do cargo.
Saída para evitar prisão e crítica ao Judiciário
Flávio admite que deixou o Brasil para evitar o risco de ser preso. “Já sei que o desfecho final será minha prisão”, declarou, ao acusar o Judiciário de agir com excesso de rigor e motivação política. Na visão do senador, as investigações e decisões judiciais fazem parte de uma perseguição ao campo político que ele representa.
As críticas atingem diretamente o STF, que concentra os inquéritos contra o parlamentar e julga também os processos envolvendo Jair Bolsonaro e aliados acusados de participação na tentativa de golpe de Estado. A fuga de um senador sob investigação, em meio a ordens de apreensão de passaporte não cumpridas, intensifica o embate com o tribunal e levanta dúvidas sobre a eficácia das medidas judiciais para garantir a presença de investigados no país.
Além das questões criminais, Flávio tenta reavivar o discurso de contestação do resultado da eleição presidencial, vencida por Luiz Inácio Lula da Silva. Ele voltou a afirmar ao jornal americano que a vitória do petista seria “matematicamente impossível” e que perdeu “para o sistema”, retomando suspeitas sobre urnas eletrônicas e mobilização digital pró-Lula, sem apresentar provas. A Justiça Eleitoral já rejeitou acusações semelhantes, e observadores internacionais atestaram a regularidade da votação.
Impacto político e possíveis desdobramentos
A travessia de Flávio para os Estados Unidos, envolta em versões conflitantes, aprofunda a crise entre o bolsonarismo e o Judiciário e expõe o Brasil a constrangimentos na relação com governos estrangeiros. A participação de um assessor de Javier Milei no trajeto e a suposta atuação direta da Casa Branca e de Donald Trump alimentam debates sobre interferência externa em um caso que envolve um senador brasileiro investigado por suspeita de crimes financeiros.
Internamente, a saída do país tende a ser explorada por adversários políticos como fuga de um parlamentar sob investigação, ao mesmo tempo em que reforça entre seus apoiadores a narrativa de perseguição. A determinação de apreensão de passaportes pelo ministro Alexandre de Moraes, descumprida pelo senador, deve seguir no centro das discussões sobre eventuais medidas mais duras, como pedidos de prisão ou novas restrições.
Os processos no STF continuam em curso e podem avançar mesmo com Flávio fora do Brasil. O fim do mandato, em 2027, encerra a proteção do foro privilegiado, mas não as investigações. A defesa do senador, por sua vez, insiste que todas as operações sob suspeita foram privadas, sem contrapartida pública, e que ele não cometeu qualquer ilegalidade.

