Ibovespa sobe 7,7% e bate recorde histórico após eleições
Ibovespa salta 7,70% após o primeiro turno das eleições, fecha aos 206.911,89 pontos e toca 209 mil pontos no intraday, em rali guiado por juros longos e forte entrada de capital estrangeiro.

Mercado
Após o primeiro turno eleitoral, o índice registra alta expressiva impulsionada por juros longos e capital estrangeiro.
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O Ibovespa disparou 7,70% no pregão seguinte ao primeiro turno das eleições presidenciais de 2026, fechou aos 206.911,89 pontos e chegou a bater 209 mil pontos ao longo do dia, no maior nível histórico do índice e na mais forte alta diária em seis anos, embalado pelo fechamento das taxas de juros de longo prazo e por uma onda de capital estrangeiro na B3.
Juros longos derrubam prêmio de risco e puxam rali
O grande motor do movimento foi a queda das taxas de juros de longo prazo, que reduziu o prêmio de risco exigido pelos investidores e reacendeu o apetite por ações ligadas à economia doméstica. O Goldman Sachs estima que “85% da alta pode ser explicada pelo movimento de juros”, enquanto o UBS Wealth Management vê espaço para alta adicional de cerca de 25% no Ibovespa se o ciclo de fechamento continuar.
Setores mais sensíveis aos juros, como construção civil, varejo e educação, lideraram as altas. Papéis de empresas como Magazine Luiza (MGLU3) e MRV (MRVE3) figuraram entre as maiores valorizações do período, refletindo a leitura de que um juro futuro mais baixo melhora o crédito, o consumo e o financiamento imobiliário.
A arrancada ocorreu depois de uma sequência de sessões já positivas. No último pregão antes do primeiro turno, o Ibovespa havia subido 2,63%, a 192.144,55 pontos. Na última sessão antes do segundo turno, o índice avançou 0,47%, para 205.082,56 pontos. Entre os dois marcos eleitorais, a alta acumulada foi de 6,9%, uma das maiores variações em ciclos de eleição, só superada por períodos em que o ganho passou de 8% e 7% em pleitos anteriores.
Entrada recorde de estrangeiros e real mais forte
O rali da bolsa veio acompanhado de um forte fluxo de investidores estrangeiros. Em outubro, o saldo de capital externo na B3 ficou positivo em R$ 20,15 bilhões, segundo dados até o dia 21. Só em 5 de outubro, a entrada chegou a R$ 10 bilhões, recorde diário. O mês já é o segundo mais forte em aporte estrangeiro neste ano, atrás apenas de janeiro, quando foram aportados R$ 26,4 bilhões.
Esse movimento reforçou a demanda por ativos brasileiros e ajudou a valorizar o real. No mesmo período, o dólar caiu 4,4%, saindo de R$ 5,21 para R$ 4,98. A moeda americana acumula queda de 9,1% no ano frente ao real, impulsionada tanto pelo fluxo positivo quanto pela percepção de menor risco fiscal no cenário precificado hoje pelo mercado.
No último pregão antes do segundo turno, o dólar se aproximou de R$ 5,21 pela manhã, mas perdeu força ao longo do dia e encerrou a R$ 4,98. “Com o passar da tarde, o dólar perdeu fôlego e passa a recuar, tocando seus menores níveis do dia, movimento que pode refletir ajustes pontuais de posição e algum fluxo de recursos do exterior no último pregão antes do segundo turno. Ainda assim, o ambiente continua cauteloso, com pesquisas indicando uma disputa apertada e o debate televisivo marcado para a noite”, afirmou Vitor Kayo, economista sênior da Nomad.
Entenda o contexto
A disparada dos ativos brasileiros acontece em meio à disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL). Pesquisas recentes apontam empate numérico em votos válidos, mas operadores relatam que a precificação nos mercados tende para uma vitória apertada de Flávio, visto como mais inclinado a priorizar ajuste fiscal e garantir uma base de apoio mais ampla no Congresso.
Levantamento do Datafolha divulgado na véspera do último pregão antes do segundo turno mostrou os dois candidatos com 50% dos votos válidos, mas a maior parte dos gestores e traders manteve posições pró-Flávio. “O mercado está apostando na vitória de Flávio, por mais que seja apertadíssima, e isso já era comentado desde a manhã”, disse Jefferson Rugik, diretor da Correparti Corretora.
Essa leitura, combinada com a perspectiva de continuidade de reformas econômicas e responsabilidade fiscal, ajudou a derrubar os juros longos, reduzir o prêmio de risco e atrair estrangeiros para a bolsa e para o câmbio. Por outro lado, setores mais dependentes de políticas públicas expansionistas e empresas exportadoras tendem a enfrentar um ambiente menos favorável com o real mais forte, já que a receita em dólar passa a valer menos em reais.
Projeções para Ibovespa e dólar após o segundo turno
As casas internacionais trabalham com cenários ainda mais otimistas para os próximos meses, caso a expectativa de vitória de Flávio se confirme. O Goldman Sachs projeta que o dólar pode recuar a R$ 4,70 em três meses, apoiado em uma combinação de ajuste das contas públicas, governabilidade considerada mais previsível e queda do prêmio de risco do Brasil.
Do lado da bolsa, o UBS Wealth Management enxerga potencial de valorização adicional de cerca de 25% para o Ibovespa em um ambiente de juros longos mais baixos e continuidade do fluxo estrangeiro. Uma pesquisa com clientes do Citi mostra que 49,3% dos participantes esperam uma alta de mais de 5% no índice no pregão imediatamente após o segundo turno em caso de vitória de Flávio, enquanto 88% projetam valorização do real frente ao dólar de pelo menos 2%.
Até lá, a indicação é de que a volatilidade siga elevada, com nova bateria de pesquisas, debate final entre os candidatos e ajustes rápidos de posição a cada dado novo. Se o cenário hoje precificado — vitória apertada de Flávio, ajuste fiscal e manutenção do apetite estrangeiro — se confirmar, o mercado tende a manter o tom otimista. Uma reversão no quadro político, por outro lado, pode levar a realização de lucros e devolver parte do rali visto desde o primeiro turno.

