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Política

Novo presidente herdará xadrez global mais tenso e volátil

Otaviano Canuto e Vinícius Mariano de Carvalho dizem que Lula ou Flávio Bolsonaro vão assumir o Planalto em um mundo sem regras claras, sob pressão dos EUA e da disputa por minerais críticos.

Novo presidente herdará xadrez global mais tenso e volátil

Política

O próximo presidente enfrentará desafios internacionais complexos, com tensões globais e disputas estratégicas em alta.

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Quem vencer a disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) chegará ao Planalto diante de um mundo mais instável, sem regras claras e com pressões crescentes sobre o papel do Brasil em temas-chave como a disputa entre Estados Unidos e China, a transição energética e o controle de minerais críticos e terras raras.

Presidente tomará posse em cenário de “surrealpolitik”

Para o economista Otaviano Canuto, professor da Elliott School of International Affairs da George Washington University e ex-vice-presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o ambiente será bem mais adverso do que o atual. “A conjuntura global que o próximo presidente do Brasil vai encontrar, daqui alguns meses, será muito mais complexa do que a de hoje”, afirma.

A leitura é compartilhada por Vinícius Mariano de Carvalho, professor do Departamento de Estudos de Guerra do King’s College, em Londres. Ele diz que o padrão de relações entre países deixou de seguir uma lógica previsível. “O presidente eleito pode esquecer qualquer ideia de ter relações lógicas com os outros países. O padrão geopolítico de hoje é o de falta de coerência e de regulação”, afirma. Carvalho batiza esse momento de “surrealpolitik” e resume: “Um aliado de hoje pode ser o rival, literalmente, de amanhã — e esse amanhã não é tão subjetivo. Estou falando já do ano que vem.”

Essa imprevisibilidade vai se cruzar com uma agenda carregada de eleições pelo mundo. Em poucas semanas, os Estados Unidos realizam as eleições legislativas de meio de mandato, em 3 de novembro, com potencial de alterar a correlação de forças no Congresso e aumentar o desgaste do presidente republicano Donald Trump até o fim de seu mandato, previsto para 2029. A partir de 2027, entram em cena as eleições presidenciais na França, entre abril e maio, a eleição parlamentar na Espanha, em agosto, e a disputa presidencial na Argentina, em outubro, todas com impacto direto sobre os espaços de negociação do Brasil.

Entenda o contexto

O próximo governo brasileiro começará sob a volta de Trump à Casa Branca, já em curso desde o ano passado, com tarifas de importação elevadas para produtos brasileiros, um discurso duro sobre segurança e crime organizado na região e um olhar atento sobre a presença chinesa em infraestrutura e tecnologia na América Latina.

Em paralelo, a Europa se reorganiza com a saída de Emmanuel Macron da presidência da França em 2027 e uma direita fortalecida em vários países. Na América do Sul, a tendência recente é de avanço de lideranças conservadoras em vizinhos estratégicos, ao mesmo tempo em que potências do chamado Sul Global — como Índia e México — tentam ampliar sua influência.

Canuto ressalta que, mesmo quando há afinidade ideológica, o conflito de interesses continua. “Os desafios serão os mesmos, as respostas a eles vão variar a depender de quem sair vitorioso das urnas”, diz. Segundo ele, a proximidade política não elimina tensões em temas comerciais, regulatórios ou de segurança.

Quais serão os desafios internacionais do próximo presidente?

O primeiro grande teste será a relação com os Estados Unidos de Donald Trump, hoje o principal eixo de pressão externa sobre o Brasil. A avaliação de Otaviano Canuto é que a Casa Branca tende a adotar uma espécie de “doutrina Donroe”, mais assertiva e disposta a usar instrumentos de coerção econômica para atingir objetivos estratégicos na região.

“Se ele usou alguns instrumentos de coerção com objetivos transacionais políticos, como as tarifas de importação, ele também vai usá-los para acessar terras raras, minerais críticos e para tentar restringir os investimentos chineses na infraestrutura do Brasil”, diz o economista. Na prática, isso significa que o próximo governo terá de negociar, sob pressão, o grau de abertura a empresas chinesas em setores como energia, telecomunicações, portos e ferrovias.

Ao mesmo tempo, o Brasil precisará administrar um tabuleiro latino-americano fragmentado. Governos ideologicamente afinados não garantem alinhamento automático em negociações comerciais, ambientais ou de defesa, e vizinhos com posições mais distantes podem ser, em certos momentos, parceiros pontuais importantes em fóruns regionais.

Canuto resume assim a encruzilhada: “Se o desafio de Lula seria reagir a Trump, o de Flávio seria como materializar a agenda, interna e regional, que a Casa Branca espera de um Brasil alinhado aos EUA.” Em ambos os cenários, o Planalto terá de equilibrar o diálogo com Washington com a manutenção de canais com China, União Europeia, Índia, México, Rússia e demais parceiros do Sul Global.

Mineração e transição energética entram no centro da disputa

Um dos pontos mais sensíveis dessa agenda é o futuro dos minerais críticos e das terras raras brasileiros — insumos essenciais para baterias, turbinas eólicas, painéis solares e equipamentos eletrônicos, pilares da transição energética e tecnológica em curso no mundo.

Para os especialistas, essa decisão terá impacto direto sobre a capacidade do país de se posicionar na nova economia verde. Ao apostar apenas na exportação em bruto, o Brasil reforça o papel de fornecedor primário, mais vulnerável a ciclos de preços e pressões externas. Ao tentar construir cadeias industriais e tecnológicas próprias, ganha poder de barganha, mas enfrenta resistência de potências que preferem garantir acesso barato e estável aos recursos.

Esse embate se mistura à disputa estratégica entre EUA e China. Washington já sinaliza que quer limitar a expansão chinesa em setores sensíveis no Brasil, enquanto Pequim tenta assegurar contratos de longo prazo e participação em projetos de infraestrutura. O país que sair das urnas precisará decidir até onde cede a cada lado e como usa suas reservas minerais como ativo geopolítico.

Lula e Flávio teriam dilemas diferentes — e problemas semelhantes

Se Lula for reconduzido, tende a enfrentar uma relação mais conflituosa com a Casa Branca, marcada pela combinação de divergências políticas e pressão econômica. Um governo petista poderia compensar parte desse desgaste aprofundando laços com Índia, México, países africanos e a própria Rússia, mas perderia o apoio pessoal de Macron na União Europeia a partir da sucessão francesa. Nesse cenário, o Itamaraty teria de se desdobrar para manter espaço de manobra sem ver o Brasil enquadrado como rival estratégico pelos EUA.

Com Flávio Bolsonaro, o quadro muda de forma, mas não necessariamente de intensidade. A expectativa de proximidade ideológica com Trump e com novos governos de direita na América do Sul facilitaria, em tese, o diálogo político. Mas a cobrança por resultados concretos seria alta, em temas como alinhamento contra a China, flexibilização ambiental e segurança regional. “O grande ponto é: diante da transição energética e tecnológica, como tomar a decisão de se o Brasil vai negociar seus minerais críticos e suas terras raras como commodity de exportação ou a partir do valor agregado delas, isto é, pelo poder de barganha? Esse é o debate”, resume Canuto.

Em qualquer das hipóteses, analistas apontam que o próximo presidente precisará combinar pragmatismo econômico com habilidade diplomática para evitar que choques externos se traduzam em perda de investimentos, isolamento em negociações climáticas e maior vulnerabilidade em temas de segurança. O desenho dessa estratégia, alertam, terá de começar nos primeiros meses de mandato, sob um ambiente internacional em que, mais do que nunca, nada está garantido de antemão.

Fonte: matéria original