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Política

Vitória democrata trava agenda externa de Trump

Maioria democrata no Congresso dos EUA isola Donald Trump, abre caminho para investigações e tende a frear tarifas e ações unilaterais na América Latina, avalia governo brasileiro.

Vitória democrata trava agenda externa de Trump

Política Externa

Com o controle do Congresso, democratas limitam ações de Trump e influenciam relações internacionais, segundo análise brasileira.

Leia também: Janones descarta ministério e aposta em poder na Câmara pró-Lula

A vitória do Partido Democrata nas eleições legislativas desta semana nos Estados Unidos, que garantiu maioria no Senado e na Câmara, é vista pelo governo brasileiro como um freio à agenda externa de Donald Trump, com impacto direto sobre tarifas contra o Brasil e ações unilaterais na América Latina.

Itamaraty vê derrota de Trump como recado ao autoritarismo

A confirmação do resultado na madrugada de 4 de novembro foi recebida com entusiasmo nos bastidores do Palácio do Planalto e do Itamaraty, embora o Brasil não pretenda divulgar nota oficial. Diplomatas fazem um paralelo com a política brasileira e avaliam que os eleitores americanos deram um recado contra o autoritarismo e contra a Guerra do Irã, apontada internamente como uma das principais causas da derrota republicana.

“Foi um 7 a 1. Os piores cenários para Trump se confirmaram. Tanto lá como cá são sociedades que prezam suas democracias, e demonstraram no voto. Retificaram o rumo do delírio autoritário”, afirmou um diplomata brasileiro que atua na área internacional do governo.

Interlocutores do Planalto avaliam que a nova correlação de forças no Congresso americano tende a reduzir o espaço para iniciativas consideradas intempestivas da Casa Branca, sobretudo na política externa. A leitura é que a oposição democrata vai usar o poder recém-conquistado para impor limites e abrir investigações sobre decisões dos primeiros 2 anos de governo Trump.

Pressão por investigações deve moderar tarifas

No campo econômico, técnicos do Escritório Comercial dos Estados Unidos (USTR) que já vinham resistindo a tarifas consideradas “intempestivas e autoritárias” de Trump devem ganhar respaldo político para bloquear novas investidas contra exportadores brasileiros e latino-americanos.

Integrantes do governo Lula que acompanham as negociações comerciais afirmam que o risco de múltiplas frentes de investigação no Congresso americano cria um ambiente menos favorável para o aumento de barreiras tarifárias. A expectativa é de uma postura mais cautelosa da Casa Branca em medidas que possam atingir parceiros estratégicos, como o Brasil.

Setores ligados ao agronegócio e à indústria de exportação na América Latina tendem a ser beneficiados, caso se confirme um recuo no protecionismo e nas tarifas punitivas. Ao mesmo tempo, cresce a aposta de que o foco de Trump migre para temas internos, reduzindo a disposição de abrir novas frentes de conflito comercial no exterior.

Entenda o contexto

Com a maioria democrata nas duas Casas, a oposição passa a controlar comissões estratégicas, poder de convocação de autoridades e a agenda de votações. Integrantes do governo brasileiro preveem a abertura de comissões para apurar decisões de Trump na política externa e de segurança, incluindo a condução da Guerra do Irã e operações na América Latina.

Parlamentares democratas eleitos defenderam durante a campanha investigações sobre ações americanas na região, como operações envolvendo a Venezuela, acusações de narcotráfico e ameaças de penas máximas a autoridades locais. Em Brasília, a leitura é que esse ambiente desestimula iniciativas consideradas unilaterais e que possam ferir a soberania de países latino-americanos.

Regulação das big techs aproxima agendas de Brasil e EUA

Outro efeito da nova maioria democrata deve ser o avanço da agenda de regulação das grandes empresas de tecnologia. O perfil dos eleitos indica a formação de uma coalizão ampla em defesa de regras mais rígidas para plataformas digitais, com apoio também de parte dos republicanos.

No Brasil, auxiliares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva veem convergência de interesses. O governo tenta há anos aprovar um marco regulatório para redes sociais e serviços digitais, mas encontra resistência no Congresso. No Planalto, a avaliação é que a ausência de regras favorece grupos de extrema direita ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e alimenta desinformação.

A ofensiva regulatória nos EUA tende a influenciar o debate brasileiro, servindo de referência para propostas em discussão em Brasília e fortalecendo o discurso de quem defende mecanismos de responsabilização das plataformas.

Trump deve mirar minorias e temas internos

Auxiliares de Lula ouvidos reservadamente acreditam que, diante da derrota, Trump deve concentrar a segunda metade do mandato em disputas internas com os democratas, reduzindo o protagonismo da política externa. A Guerra do Irã, vista como símbolo do endurecimento republicano, é tratada como um erro de cálculo que mobilizou o eleitorado contra a Casa Branca.

Segundo essa avaliação, o presidente americano deve intensificar a retórica contra minorias – especialmente imigrantes, muçulmanos e população LGBTQIA+ – em busca de consolidar sua base eleitoral, ao mesmo tempo em que diminui o foco em adversários externos como Irã e Cuba.

Para a diplomacia brasileira, um Trump mais voltado para a política doméstica e submetido ao escrutínio de um Congresso hostil tende a reduzir o risco de aventuras unilaterais na América Latina e de novos choques tarifários com o Brasil.

Brasil adota cautela e monitora relação bilateral

Apesar da leitura positiva sobre os efeitos regionais da vitória democrata, o Itamaraty mantém a regra de não se manifestar oficialmente sobre eleições em outros países. Também pesa a crise diplomática entre Brasília e Washington, que já dura mais de um ano e inclui episódios como disputas tarifárias e atritos envolvendo vistos diplomáticos.

A orientação no Planalto é adotar pragmatismo, evitar declarações públicas que possam ser exploradas por Trump internamente e aguardar os primeiros movimentos da Casa Branca sob o novo Congresso. A partir da forma como o presidente americano reagir à derrota e redesenhar sua estratégia, a chancelaria brasileira pretende calibrar a postura na relação bilateral, especialmente em temas comerciais e de cooperação regional.