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Economia

PIB cresce 3 anos e desemprego cai, mas custo de vida pesa mais

Economia avança no terceiro mandato de Lula, com três anos seguidos de alta do PIB, desemprego em mínima histórica e renda maior. Mas alimentos caros, dívidas e juros altos impedem alívio no bolso.

PIB cresce 3 anos e desemprego cai, mas custo de vida pesa mais

Economia

Apesar do crescimento econômico e queda do desemprego, o custo de vida elevado ainda desafia o orçamento das famílias brasileiras.

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O crescimento do PIB por três anos consecutivos e a queda do desemprego para mínimas históricas marcam o terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em Brasília, com avanço da renda média do trabalho. No dia a dia, porém, o orçamento segue apertado: alimentos caros, endividamento recorde das famílias e juros elevados limitam a sensação de bem-estar financeiro, sobretudo entre os mais pobres.

Economia reage, mas melhora não chega igual para todos

Na fotografia macroeconômica, o governo Lula 3 exibe resultados que qualquer equipe econômica gostaria de apresentar em ano eleitoral: atividade em expansão contínua, mercado de trabalho aquecido, ampliação do emprego formal e salário mínimo com reajustes acima da inflação.

Essa média positiva, no entanto, esconde diferenças importantes entre setores e grupos sociais. Para Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ibre), os números agregados não contam toda a história. “O PIB é uma média que reúne setores e famílias que estão, digamos, uns no micro-ondas e outros que estão no freezer. A média parece boa, mas não necessariamente está melhor para todo mundo”, afirma.

Enquanto agropecuária e indústria extrativa foram impulsionadas por preços internacionais, grande parte do comércio e da indústria mais ligada ao consumo interno cresceu menos, sentindo a renda comprimida das famílias e o crédito caro. No emprego, o avanço se concentrou em serviços de menor qualificação, com salários mais baixos.

José Luis Oreiro, professor de economia da Universidade de Brasília (UnB), destaca que esse padrão limita a qualidade da retomada. Segundo ele, as ocupações que exigem formação superior e pagam remunerações mais altas não avançaram no mesmo ritmo das vagas de serviços simples, o que restringe a mobilidade social e a porta de entrada para uma renda mais estável.

Entenda o contexto

A distância entre o retrato oficial da economia e a percepção no bolso também apareceu nas urnas. Lula foi reeleito em uma disputa apertada: teve 51,79% dos votos válidos no segundo turno, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (PL), o que expôs um país dividido mesmo em cenário de indicadores em alta.

Para economistas, o paradoxo se explica porque a melhora não é homogênea e porque a pressão do custo de vida e das dívidas come boa parte dos ganhos de renda. A consequência é que a “sensação térmica” da economia, principalmente entre quem ganha menos, é bem pior do que os números médios sugerem.

Por que o brasileiro não sente o crescimento no bolso?

A principal resposta está na combinação de salário ainda limitado em termos reais, alimentos caros e forte peso das dívidas. O salário mínimo atual é de R$ 1.621. Corrigidos pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) para setembro de 2026, os valores pagos no começo da década passada equivalem hoje a R$ 1.393 (referente ao mínimo de 2012) e R$ 1.424 (ao de 2013). Ou seja, apesar da retomada dos reajustes acima da inflação, o piso atual não está muito distante do patamar de anos anteriores.

Essa comparação ajuda a explicar por que muitos trabalhadores sentem que “melhorou, mas nem tanto”. Para famílias que vivem entre um e três salários mínimos, qualquer variação em itens básicos pesa imediatamente no fim do mês.

É nesse ponto que entra a alimentação. Mesmo com a desaceleração da inflação, os preços não voltaram ao nível de antes. “É aquele efeito catraca: o preço dos alimentos subiu desde a pandemia e não caiu, pelo contrário, continuou subindo, porém menos intensamente. E, infelizmente, para as pessoas mais pobres, isso pesa muito”, diz Oreiro.

Como famílias de baixa renda destinam uma fatia maior do orçamento à comida, o avanço persistente dos alimentos corrói quase todo o ganho de renda. Na prática, sobra pouco espaço para outras despesas, o que reduz o impacto positivo do crescimento do emprego e da renda média.

Endividamento alto trava consumo e bem-estar

Além do custo de vida, o endividamento virou peça central do aperto nas contas. Em julho de 2026, 28,7% da renda mensal das famílias estava comprometida com dívidas, de acordo com dados do Banco Central. Desse total, 17,2% foram destinados à amortização do principal e 11,5% ao pagamento de juros.

O patamar é próximo do recorde recente e significa que quase um terço da renda mensal não está disponível para consumo corrente, mas para honrar compromissos com bancos e financeiras. O peso dos juros é particularmente expressivo: mais de um terço de tudo que se paga em dívidas vai apenas para remunerar o crédito, e não para reduzir o valor emprestado.

Programas de renegociação, como o Desenrola em suas diferentes fases, ajudaram parte das famílias a reduzir o saldo devedor ou a alongar prazos, liberando alguma folga no curto prazo. Mas, segundo economistas, isso não resolve o problema estrutural: a combinação entre juros altos, crédito caro e falta de planejamento financeiro faz com que muitas pessoas voltem a se endividar pouco tempo depois da limpeza do nome.

Com grande parcela da renda já comprometida, qualquer nova pressão de preços ou imprevisto — doença, perda de emprego, conserto emergencial — empurra o consumidor novamente para o crédito caro, criando um ciclo difícil de quebrar.

Juros elevados e contas públicas entram na equação

A política monetária e a situação das contas públicas também ajudam a entender por que o orçamento das famílias continua sob pressão. Para conter as pressões inflacionárias e responder à percepção de risco dos investidores diante de déficits persistentes e dívida elevada do governo, o Banco Central manteve juros em patamar alto ao longo do período.

Na avaliação de especialistas, a dificuldade de controlar gastos obrigatórios, aliada à ampliação de benefícios sociais e reajustes do salário mínimo acima da inflação sem receitas permanentes equivalentes, aumentou a desconfiança sobre a trajetória da dívida pública. Isso, por sua vez, leva o mercado a exigir prêmios de risco maiores, o que se traduz em custo de crédito elevado na ponta para famílias e empresas.

O resultado é um ambiente em que o emprego cresce e a renda média avança, mas o custo do dinheiro continua alto, restringindo investimentos produtivos e alongando o aperto de quem depende de financiamento, especialmente no cartão de crédito e no cheque especial.

Desigualdade na recuperação e desafios para Lula

O desenho da retomada econômica reforça a desigualdade. Setores ligados ao agronegócio exportador e à indústria extrativa surfam uma onda mais favorável; cadeias voltadas ao consumo doméstico, ao contrário, enfrentam o bolso apertado do brasileiro e crédito caro.

Na base da pirâmide, o efeito é duplamente perverso: mais gente conseguiu emprego, mas em postos que pagam pouco; quem depende de salário de um ou dois mínimos continua gastando muito com alimentação; e uma fatia expressiva da renda segue comprometida com dívidas caras. Assim, os ganhos do PIB e da queda do desemprego não se transformam em sensação de alívio generalizado.

Politicamente, o quadro ajuda a explicar a reeleição apertada de Lula, apesar dos avanços econômicos. Para frente, o governo terá de combinar continuidade da geração de vagas com políticas voltadas à qualidade do emprego, combate à alta de alimentos e alívio do endividamento, em ambiente ainda de juros elevados.

Se essas frentes não avançarem de forma consistente, economistas alertam que o crescimento pode perder fôlego e a frustração com a falta de melhora concreta no padrão de vida alimentar novas ondas de insatisfação social, com impactos diretos sobre a própria governabilidade e sobre a confiança na economia brasileira.